Ramagem nega que tenha amizade com Bolsonaro ou com os filhos dele

O diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência, Alexandre Ramagem, prestou depoimento por mais de sete horas na sede da Polícia Federal em Brasília. Ramagem nega que tenha amizade com Bolsonaro ou com os filhos dele
As primeiras testemunhas do inquérito que investiga suposta interferência política do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal começaram a ser ouvidas nesta segunda-feira (11). Além do ex-diretor-geral da Polícia Federal Maurício Valeixo, também prestou depoimento o diretor-geral da Abin, Agência Brasileira de Inteligência, Alexandre Ramagem. Ele passou mais de sete horas na sede da Polícia Federal em Brasília.
Alexandre Ramagem, amigo da família Bolsonaro, teve a nomeação para a direção-geral da PF barrada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, há quase duas semanas.
Nesta segunda (11), durante o depoimento ao qual a TV Globo teve acesso, Ramagem negou que seja amigo do presidente Jair Bolsonaro ou dos filhos dele. Mas o próprio presidente já admitiu a relação de amizade. “Conheci, gostei do trabalho dele, foi excepcional. Passou a ser um amigo; tomava café junto, leite condensado no pão. E aí? Eu devo escolher uma pessoa que eu nunca vi na minha vida?”, questionou Bolsonaro.
Alexandre Ramagem esteve no domingo (10), véspera do depoimento dele, no Palácio da Alvorada.
Indagado qual seria a razão para a resistência a seu nome para a direção-geral da PF, Ramagem disse que “o motivo da sua desqualificação foi o fato deste não integrar o núcleo restrito de delegados de Polícia Federal próximos ao então ministro Sérgio Moro, uma vez que, diante dos fatos ora relatados, não haveria um impedimento objetivo que pudesse conduzir à rejeição de seu nome”.
Quando deixou o governo, o ex-ministro Sergio Moro afirmou que Bolsonaro queria na chefia da Polícia Federal alguém para quem pudesse ligar, colher informações. O próprio presidente admitiu, em seu pronunciamento, que queria todo dia ter um relatório da PF do que aconteceu, especialmente nas últimas 24 horas.
Quando suspendeu a nomeação de Ramagem, o ministro Alexandre de Moraes disse que, numa análise preliminar, a escolha não observou os princípios da legalidade, da impessoalidade, da moralidade e do interesse público, e que é provável e viável a ocorrência de desvio de finalidade do ato presidencial de nomeação do diretor-geral da Polícia Federal.
No depoimento desta segunda, Ramagem repetiu a versão dada publicamente por Bolsonaro, de “que o ex-diretor da PF Maurício Valeixo, numa videoconferência com todos os superintendentes, teria informado que seu ciclo estava completo, como uma despedida da função”.
Mas Maurício Valeixo disse mais de uma vez, durante o depoimento desta segunda, que não pediu exoneração do cargo.
Ramagem também foi questionado sobre o motivo da troca do diretor-geral da Polícia Federal, já que o presidente Bolsonaro dizia não ter nada pessoal ou profissional contra Maurício Valeixo. Ramagem respondeu que “a sugestão de nomes para a sucessão do Dr. Valeixo ocorreu em razão das diversas manifestações de desejo do próprio Valeixo de deixar a função”.
Mas, nesta segunda, Valeixo disse que o motivo alegado pelo próprio Bolsonaro para trocar o diretor da PF não era esse, mas sim ter no cargo alguém com mais afinidade. No depoimento, Ramagem confirmou que foi consultado sobre as qualificações profissionais de Rolando Alexandre de Souza, subordinado dele na Abin, para assumir o comando da PF.
Ele disse que, “indagado se foi consultado a respeito das qualificações profissionais do delegado Rolando Alexandre” – identificado pela PF no termo de depoimento como Alexandre Rolando -, “enquanto possível indicado para o cargo de diretor-geral, respondeu que sim, tendo sido questionado a respeito, tanto pelo presidente da República como pelo ministro da Justiça André Mendonça”.
Sobre a indicação de Alexandre Saraiva para o cargo de superintendente da PF no Rio de Janeiro, nome que Bolsonaro queria ao falar sobre a troca pela primeira vez, Ramagem disse que sondou o delegado sobre o cargo; que, “à época, o depoente teve conhecimento de algumas sugestões de nomes para a transição da superintendência do RJ, que seriam levadas à decisão do ministro Moro”; que “o depoente apenas sondou o superintendente do Amazonas se seu nome poderia ser sugerido ao ministro Moro como superintendente no Rio”.
No fim do depoimento, sem que tivesse sido questionado a respeito, Alexandre Ramagem pediu a palavra para dizer que não houve “qualquer comando ilegal emanado do presidente” em relação à Polícia Federal.
Ramagem foi advertido pelas autoridades policiais sobre sua condição de testemunha e, ainda assim, manteve as declarações, sob os protestos dos advogados do ex-ministro Sergio Moro, que enxergaram nas considerações finais do depoente emissão de juízo de valor incompatível com sua condição de testemunha.

By Negócio em Alta