Hans Dohmann analisa a crise dos custos na saúde: o esgotamento do modelo vigente

O aumento constante dos gastos em saúde tem colocado autoridades governamentais, operadoras de planos e instituições hospitalares diante de uma questão crítica: como garantir maior acesso e qualidade nos serviços sem comprometer a viabilidade financeira do sistema. A discussão sobre eficiência ganhou força com o surgimento das doenças crônicas, o envelhecimento da população e a rápida adoção de novas tecnologias médicas, todos fatores que pressionam os orçamentos públicos e privados em todo o mundo.

Um estudo recente da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revela que, em 2024, os países membros destinaram cerca de 9,3% de seu PIB para o setor de saúde, um percentual que supera os níveis registrados antes da pandemia. Essa tendência indica um crescimento contínuo dos investimentos na área. Globalmente, os gastos totais com saúde alcançaram aproximadamente US$ 9,8 trilhões, representando 10,3% do PIB mundial, o que ressalta a importância crescente desse setor nas economias atuais.

Hans Dohmann, cardiologista e especialista em gestão da saúde, destaca que o modelo atual de assistência médica, que se concentra principalmente no tratamento de doenças já existentes, chegou a um ponto crítico em termos de sustentabilidade. Ele defende que é necessário implementar mudanças estruturais fundamentadas em dados, prevenção e eficiência operacional.

Modelo reativo pressiona custos e limita sustentabilidade

A maioria dos sistemas de saúde ainda prioriza tratamentos curativos, resultando em aumentos significativos nas despesas hospitalares e farmacêuticas. Dados da OCDE mostram que mais de 60% dos gastos com saúde são direcionados para cuidados curativos e reabilitação, enquanto os programas voltados à prevenção recebem apenas cerca de 7% do total investido.

Essa abordagem resulta em uma escalada nos gastos relacionados a doenças crônicas como diabetes e câncer, as quais requerem monitoramento constante e tratamentos onerosos. O Fórum Econômico Mundial aponta que o envelhecimento da população, a elevação na prevalência dessas enfermidades e ineficiências administrativas estão entre os principais fatores que impulsionam a inflação médica global.

Dohmann observa que “a manutenção de um modelo reativo gera uma pressão financeira constante, pois tratamentos realizados tardiamente tendem a ser mais caros e menos eficazes em termos de resultados clínicos”.

Gestão baseada em evidências ganha relevância estratégica

A implementação de modelos gerenciais fundamentados em evidências preventivas é considerada por especialistas como uma solução para otimizar a alocação de recursos e minimizar desperdícios. Estimativas do Fórum Econômico Mundial revelam que anualmente são gastos cerca de US$ 1,8 trilhão globalmente em saúde sem gerar melhorias significativas nos resultados clínicos, sublinhando assim a necessidade urgente por maior eficiência nas decisões tomadas.

A utilização de dados estruturados, inteligência artificial e prontuários eletrônicos tem ampliado as capacidades para monitoramento demográfico e identificação precoce dos fatores de risco. Pesquisas acadêmicas indicam também que esforços voltados à prevenção e à adesão ao tratamento podem reduzir consideravelmente internações desnecessárias, contribuindo para uma maior eficiência econômica no sistema de saúde a longo prazo.

Neste cenário, Dohmann argumenta que decisões tanto clínicas quanto administrativas devem ser orientadas por dados epidemiológicos relevantes, indicadores de desempenho e análises sobre custo-efetividade.

Prevenção estruturada pode reduzir pressão financeira no longo prazo

Organizações internacionais têm ressaltado a importância de fortalecer políticas públicas focadas na prevenção e promoção da saúde como estratégia para aliviar a carga sobre os sistemas hospitalares. O relatório da Organização Mundial da Saúde mostra que bilhões ainda enfrentam dificuldades para acessar serviços básicos enquanto os altos custos geram um impacto financeiro significativo sobre famílias e governos.

A transição para modelos baseados em valor — que avaliam resultados clínicos e eficiência dos investimentos — deve ganhar destaque no contexto atual onde equilibrar acesso, qualidade e custos é imprescindível. O conceito conhecido como value-based healthcare busca alinhar incentivos financeiros à melhoria dos resultados assistenciais, promovendo assim uma redução nos desperdícios e assegurando a sustentabilidade do sistema.

A reformulação do sistema requer uma integração entre tecnologia avançada, gestão estratégica eficaz e práticas preventivas robustas para identificar riscos precocemente e diminuir as despesas decorrentes de complicações evitáveis”, conclui Dohmann.

Sobre Hans Dohmann

Dohmann é médico com mestrado em Cardiologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e doutorado em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele conduziu pesquisas sobre células-tronco junto ao Texas Heart Institute e atuou como secretário municipal de Saúde do Rio entre 2009 e 2014. Atualmente trabalha nas áreas de gestão populacional e saúde digital no setor privado como diretor médico da Stone, responsável pelo Hospital Virtual Verde.

By Negócio em Alta

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