
Somente depois de embarcar, casal brasileiro ficou sabendo que o navio em que trabalhariam seguiria viagem sem passageiros. Após festa, casos de Covid-19 se espalharam pela tripulação, relata DJ. Uma pessoa morreu — a causa, porém, não foi confirmada. DJ Caio Saldanha, brasileiro retido em navio perto das Bahamas
Arquivo pessoal
O DJ Caio Saldanha, de 31 anos, e a noiva, a apresentadora Jéssica Furlan, de 29, embarcaram no navio Celebrity Infinity, nos Estados Unidos, em 14 de março para trabalhar pelas 25 semanas seguintes. Com a pandemia de Covid-19 declarada dias antes, os brasileiros perguntaram, antes de embarcar, se o cruzeiro seguiria viagem mesmo assim.
Mesmo com a determinação declarada na véspera pelo presidente Donald Trump em suspender os cruzeiros, a companhia confirmou a partida. Porém, assim que embarcaram, Caio e Jéssica foram convocados a uma reunião no teatro do navio com todos os outros 900 tripulantes.
A notícia: diferentemente do informado anteriormente, o cruzeiro estava cancelado e eles deveriam permanecer no navio até segunda ordem. Eles continuam embarcados, 50 dias depois.
“A gente entrou no navio, colocou as malas, foi à reunião e recebeu a notícia”, disse Caio ao G1.
Navio Celebrity Infinity viajando pela Islândia, em foto de 2013
Reprodução/Celebrity Cruises/Twitter
Surto e quarentena
A embarcação, então, seguiu ao mar próximo às Bahamas, no Atlântico Norte, até que as autoridades norte-americanas permitissem o retorno. Aí, a equipe do navio decidiu manter uma série de atividades para entreter a equipe. Houve uma festa aos cerca de 600 funcionários da alimentação — e Caio e Jéssica, por trabalharem na parte da animação, trabalharam no evento.
Dias depois, a notícia: os primeiros casos confirmados de novo coronavírus no navio. Um tripulante, de nacionalidade filipina, morreu — oficialmente, o capitão não confirmou a causa da morte do homem, que trabalhava no controle da refrigeração do barco.
Primeira cabine onde casal brasileiro ficou apresentava problemas e mau cuidado
Arquivo pessoal
Mesmo com os casos, apenas um deck da embarcação foi isolado na primeira semana de registro de Covid-19. Somente em 27 de março, toda a tripulação foi colocada em quarentena dentro das cabines.
“Foram 21 dias em uma cabine pequena com apenas uma escotilha selada. Não tínhamos como pegar sol”, relata Caio.
“Quando você está em uma cabine assim, perde a noção do dia e da noite”, acrescenta o brasileiro.
Dificuldades para o retorno
Comunicado da equipe responsável pelo navio Celebrity Infinity repercute decisões do CDC, autoridade de saúde dos EUA
Arquivo pessoal
A dificuldade agora é outra: garantir o retorno ao Brasil. O problema esbarra na pequena oferta de voos e na série de exigências das autoridades dos EUA e de Bahamas para os desembarques.
Caio e Jéssica marcaram um voo de Miami para São Paulo — um dos poucos que ainda ligam os EUA ao Brasil. Entretanto, o brasileiro relata que a companhia não autorizou que eles desembarcasse porque o voo havia sido cancelado.
“Ligamos para a polícia, e aí veio a surpresa: o voo não havia sido cancelado”, diz o DJ.
Segundo o DJ, há “15 ou 20” outros brasileiros no navio, e todos temem relatar a situação por medo de represálias.
Por enquanto, não há nenhuma previsão de retorno. O G1 procurou o Itamaraty e a Royal Caribbean, que é responsável pela marca Celebrity Cruises. Até a última atualização desta reportagem, não havia resposta.
Vida em espera
A quarentena imposta aos tripulantes terminou na segunda quinzena de abril. E, desde o primeiro dia do mês, eles podem circular livremente pela embarcação.
“Só precisamos voltar para as cabines uma vez pela manhã e uma vez à tarde para medir a temperatura”, conta Caio.
O DJ brasileiro relata que por enquanto, os tripulantes recebem ajuda de custo de US$ 13 por dia — cerca de R$ 70 diários — como ajuda de custo. E, segundo Caio, é dos funcionários a responsabilidade pela compra de itens de higiene dentro da embarcação.
Portanto, resta ao casal brasileiro aguardar. Apesar do direito livre de circulação dentro do navio, os dois sentem os efeitos psicológicos dos 50 dias em alto mar, sem previsão de retorno, e esperam a volta ao Brasil o quanto antes.
“A gente olha o mar, olha a imensidão e só vê água. Nós nos sentimos enclausurados”, conta Caio.
*Colaborou Anna Camanducaia, da TV Globo
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