‘Ninguém alertou sobre suspeita do coronavírus’, diz filha de idosa que morreu com Covid-19 na BA; prefeitura tem outra versão


Prefeito alega que família sabia da suspeita de coronavírus e que família negou fazer teste. Cinco pessoas que moram na casa da idosa já tiveram diagnóstico positivo para Covid-19. Velório com caixão aberto gera polêmica e medo em Cairu, no baixo sul do estado
Uma das filhas da idosa de 77 anos, que morreu em decorrência da Covid-19 na cidade de Cairu, baixo-sul da Bahia, disse que a família não foi alertada sobre a suspeita de coronavírus. A prefeitura nega e afirma que os familiares foram informados.
Josete dos Santos, filha da idosa Nilzete Porfiria, conta como tudo aconteceu. Ela explica ainda que a família não fez velório, rebatendo a suspeita inicial de que havia sido feita cerimônia com caixão aberto. A idosa morreu no dia 7 de maio e foi sepultada no dia 8.
“A médica fez a avaliação e disse que febre, na idade dela, não era normal. Se ela estava com febre é porque algo estava errado, então ou ela estava com pneumonia, ou com infecção urinária. Ela liberou a minha mãe, não citou nada de suspeita de coronavírus. Liberou minha mãe, nós levamos para casa e tratamos com remédio”, conta.
“Na quinta-feira [7], a gente voltou novamente no posto de saúde e aí a saturação dela começou a cair. Mas, até então, ninguém nos alertou sobre a suspeita do coronavírus”, detalha Josete.
A filha da idosa relata ainda que, dias depois, a própria família levou Nilzete para o Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Valença, também no baixo-sul do estado.
“Nós levamos minha mãe para Valença, para a Santa Casa de Misericórdia. Chegando lá o açúcar dela subiu muito, a pressão também subiu muito e não teve mais jeito. Ela foi a óbito e, a partir daí, foi colhido [material para] o exame e foi feito o teste de coronavírus. Só viemos ter esse resultado depois do sepultamento da minha mãe”, disse Josete.
No atestado de óbito da idosa consta insuficiência respiratória. O prefeito de Cairu, Fernando Brito, rebate as informações e diz que a família sabia da suspeita de coronavírus e que, na verdade, a prefeitura foi responsável pela transferência da idosa a Valença, não a família.
“Desde que a paciente deu entrada na unidade de saúde, em Gamboa, no município de Cairu, a família foi comunicada, de forma verbal, que existia a possibilidade de ser Covid-19. A paciente foi transferida para a Santa Casa de Valença, onde infelizmente veio a óbito”, disse.
“Quando saiu o resultado do exame que o Lacen enviou para a prefeitura de Cairu tomar conhecimento, todos os familiares foram avisados do resultado e convidados para comparecer à unidade de saúde local, para se submeterem aos testes. Infelizmente, no primeiro momento, a família não concordou, houve vários incidentes”, conta o prefeito.
Outras contradições
A idosa Nilzete Porfiria, de 77 anos, morreu em decorrência do coronavírus em Cairu, na Bahia
Reprodução/TV Bahia
As contradições do caso vão além do aviso sobre a suspeita do coronavírus. O prefeito diz que o corpo da idosa saiu do hospital em caixão lacrado, já a família diz que os preparativos do sepultamento foram feitos pela funerária, na casa de Nilzete.
“O corpo saiu da Santa Casa de Misericórdia de Valença embalado, a urna lacrada, porque esse é um procedimento normal. O corpo não sai e vai para funerária ou vai para casa de alguém. A funerária vai até o hospital e realiza esse trabalho”, disse o prefeito.
A filha da idosa conta que uma funcionária da funerária esteve na casa dela para fazer as arrumações e reitera que, até este momento, a família ainda não havia recebido o resultado do exame da Covid-19. Ela disse ainda que o sepultamento não foi feito no mesmo dia, porque não havia cova aberta no cemitério da cidade.
“Quando o caixão chegou, a moça da funerária veio junto. Foi ela quem arrumou, junto com uma neta da minha mãe, a minha sobrinha. Elas estavam todas equipadas com macacão, luva, máscara. Arrumou o caixão e desde então nós não tínhamos a confirmação ainda de que tinha sido coronavírus, porque não tinha chegado resultado nenhum de exame aqui”, disse.
“Logo em seguida, que arrumaram ela, nós, os filhos, ainda vimos nossa mãezinha e logo depois foi fechado o caixão. Não teve velório, na verdade. Só que não tínhamos condição de enterrar minha mãe no mesmo dia, porque não tinha cova. E logo no primeiro horário, de manhã cedo, o coveiro foi, fez a cova e 8h nós sepultamos minha mãe”, relatou Josete.
Cinco contaminados
Cinco pessoas da família da idosa estão contaminados com o coronavírus. Ainda segundo Josete essa contaminação não aconteceu com o suposto velório de caixão aberto. Ela explica que todas essas pessoas já moravam e estavam em contato com Nilzete enquanto ela estava com os sintomas e algumas a ajudaram a levar para o hospital.
Segundo o prefeito, profissionais da prefeitura estiveram na casa da idosa para colher material de exame do coronavírus, mas os familiares teriam se recusado a oferecer.
“Os profissionais da prefeitura foram até a localidade e não foram bem recebidos pelos familiares. Nós criamos uma equipe multidisciplinar, com psicólogos, assistente social, enfermeiros e outros profissionais, e começamos a colher as amostras para testes dos primeiros que se apresentaram na unidade de saúde”, disse.
“No dia seguinte, nós também colhemos mais amostras. Estamos convocando todos os moradores, todas as pessoas que tiveram contato, todos os familiares, a comparecerem na unidade de saúde lá da Gamboa para fazer os exames”, alega o prefeito.
A família explica que, na casa onde a idosa morava, moram outras 12 pessoas e a prefeitura queria fazer o exame somente em quatro, por isso eles não aceitaram e queriam que todos passassem pelo exame.
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By Negócio em Alta