‘Não se deve arremessar as Forças Armadas no varejo da política’, diz Barroso sobre ato antidemocrático com Bolsonaro

Presidente disse, durante protesto, que ‘as Forças Armadas – ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade – também estão ao nosso lado’. ‘Não se deve arremessar as Forças Armadas no varejo da política’, diz Barroso
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso se mostrou preocupado, neste domingo (3), com a declaração do presidente Jair Bolsonaro de que as Forças Armadas estariam “ao lado” do presidente durante ato com pautas antidemocráticas e inconstitucionais em Brasília.
No protesto, Bolsonaro disse que “as Forças Armadas – ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade – também estão ao nosso lado”, e que não aceitaria interferências no governo.
“Pessoalmente, só me preocupou uma coisa: a invocação de que as Forças Armadas apoiavam o governo. E aí, acho que este é um fato que me traz algum grau de preocupação porque as Forças Armadas são instituições do Estado, subordinadas à Constituição. E, portanto, elas não estão dentro de governo, não estão vinculadas a governo algum. Não se deve arremessar as Forças Armadas no varejo da política, isso foi o que aconteceu na Venezuela, com os resultados que nós verificamos”, declarou.
O protesto na Esplanada dos Ministérios teceu críticas e pediu fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, além de “intervenção militar com Bolsonaro”. O ex-ministro Sergio Moro, que acusa o presidente de tentar interferir em inquéritos da Polícia Federal, também foi alvo.
Na entrevista à GloboNews, Barroso teceu elogios às Forças Armadas e disse duvidar que Exército, Marinha e Aeronáutica ingressem “no debate político ordinário”.
“Fui professor da Escola de Comando do Estado Maior do Exército por muitos anos, desde a década de 90, recebi o título honroso de professor emérito. Sou testemunha da dedicação, do patriotismo, dos compromissos com o Brasil dentro das Forças Armadas. De modo que eu, que faço parte de uma geração que se opôs ao regime militar, devo dizer que passei a admirá-los, admirar as Forças Armadas pelo compromisso com o Brasil”, disse.
“Duvido que as Forças Armadas se prestem a esse papel de ingressar no varejo político, no debate político ordinário. Não é esse o papel que têm desempenhado no Brasil”, seguiu Barroso.
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Agressões ‘criminosas’
Ao avaliar o protesto, Barroso disse considerar que a manifestação das pessoas faz parte da democracia, mesmo que ele discorde das pautas. Mas criticou a agressão a profissionais da imprensa que registravam o ato em frente ao Planalto.
“Considero essas manifestações um exercício de liberdade de expressão dentro de uma democracia. Utilizando a frase clássica de Rosa de Luxembrugo, ‘liberdade é para quem pensa diferente de mim'”, declarou.
“Em segundo lugar, nessa manifestação, houve agressões a jornalistas. Aí, a questão muda de figura e aí não são mais manifestantes, são criminosos. Criminosos comuns e criminosos contra a democracia, que a meu ver devem responder a processo criminal e serem condenados por lesão corporal. Isso é inaceitável”, disse Barroso.
O ministro do STF declarou à GloboNews que a Constituição tem sido cumprida, tanto quanto o Congresso rejeita medidas propostas pelo Executivo quanto em decisões do STF contra atos de governo.
“O STF derrubou decisões do presidente e elas deixaram de vigorar. A Constituição foi cumprida. Não vislumbro, até o momento, crise institucional. Aprendi a prestar atenção nos fatos, e não na retórica política”, afirmou.
“O presidente teria manifestado queixa em relação a algumas decisões do Supremo Tribunal Federal. Como disse, o importante é que as decisões sejam cumpridas, que a Advocavia-Geral da União apresente os recursos cabíveis e que as matérias sejam levadas ao plenário. Vejo com naturalidade a queixa política do presidente, desde que ele cumpra as decisões e recorra da forma que a legislação prevê.”
Discurso de Bolsonaro
Bolsonaro: ‘Peço a Deus que não tenhamos problemas nesta semana, chegamos no limite’
Enquanto transmitia o ato com pautas antidemocráticas em frente ao Palácio do Planalto, pela internet, Bolsonaro – num tom de desafio aos demais poderes – pediu a Deus para não ter problemas nessa semana porque, segundo afirmou, “chegou ao limite”. O presidente não esclareceu o que isso significa.
“Nós queremos o melhor para o nosso país. Queremos a independência verdadeira dos três poderes e não apenas uma letra da Constituição, não queremos isso. Chega interferência. Não vamos admitir mais interferência. Acabou a paciência. Vamos levar esse Brasil para frente.”
No discurso, Bolsonaro disse que as Forças Armadas estão com ele e que “chegou ao limite”, que “não tem mais conversa” – sem explicitar o que isso significa, e o que pretende fazer caso haja novas decisões judiciais sobre atos da presidência da República considerados ilegais.
“Vocês sabem que o povo está conosco, as Forças Armadas – ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade – também estão ao nosso lado, e Deus acima de tudo.”
“Vamos tocar o barco. Peço a Deus que não tenhamos problemas nessa semana. Porque chegamos no limite, não tem mais conversa. Tá ok? Daqui para frente, não só exigiremos, faremos cumprir a Constituição. Ela será cumprida a qualquer preço. E ela tem dupla-mão. Não é de uma mão de um lado só não. Amanhã nomeamos novo diretor da PF.”

By Negócio em Alta