
Mulher, que fugiu dos abusos sexuais do padrasto em Minas Gerais, passou mais de 15 anos trabalhando como prostituta para criar os filhos. Hoje, ela sonha aprender a ler e a escrever. Idosa mora, hoje, em uma casa que divide o terreno com mais três famílias.
Marina Marques
Por mais de uma vez, a vida de uma ex-prostituta, de 61 anos, que prefere não se identificar, se assemelhou à rua em que vive: precária e sem saída. Entre filhos, escolhas difíceis e violência, a aposentada contou ao G1 sua história com a resignação de quem não tem vergonha do que viveu, desde o interior de Minas Gerais, de onde saiu aos 18 anos fugindo de um padrasto abusivo, até Santos (SP), onde trabalhou por mais de 15 anos em um lugar onde, hoje, chama simplesmente de “zona”.
Desde o início, a trajetória da idosa não foi fácil. Teve sua primeira filha aos 12 anos, ainda no interior de Minas Gerais e, como seu padrasto não aceitava a criança, teve de deixá-la com uma vizinha para cuidar. “No hospital, quando tinha acabado de dar à luz, eu pedi pra ficar mais um pouco lá para poder ficar com a menina. Eles me deram alta e eu não tinha para onde ir com ela. Uma moça acolheu minha menina” diz, se recordando da primogênita.
Nesta idade, ela saiu da escola. Até hoje, com 61 anos, é analfabeta. Por conta disso, as idades e a linha temporal de sua vida é feita, como ela diz, ‘de cabeça’, por estimativa.
Idosa mora, hoje, em uma casa que divide o terreno com mais três famílias.
Ludmyla Rocha
Aos 18 anos, a então jovem decidiu sair de casa para não sofrer mais os abusos sexuais cometidos pelo padrasto. “Minha mãe não acreditava em mim e ainda tinha ciúmes. Não aguentei mais e consegui um emprego em São Paulo com uma amiga”. Na capital paulista, trabalhou em uma fábrica de peças de televisão até a empresa fechar.
“Eu mandava dinheiro todos os meses para a moça que cuidava da minha filha. Mas ela pegou meningite aos 12 anos e, infelizmente, faleceu”, lamenta.
Sem emprego, dinheiro ou rumo, ela se viu na estrada pedindo carona para desconhecidos. “Um caminhoneiro me deu carona. Foi assim que vim parar em Santos. Não escolhi a cidade, ele me trouxe”. Chegando ao cais, o motorista mandou a jovem descer do veículo e procurar por uma pessoa em um endereço escrito em uma folha de papel.
“Ele tinha me mandado para uma pessoa que provavelmente me acolheria. E acolheu, mas era a dona de um dos cabarés do Centro de Santos”, relata. “Ela me deu casa, comida e um emprego”.
Ela não foi para a prostituição de início. Ela trabalhou como garçonete do cabaré por anos, sustentando três filhos pequenos que teve com um motorista de táxi e com um dono de uma lanchonete. O pai do mais novo, um bebê de dez meses na época, pagava um quarto que ela dividia com as outras crianças.
Então, seu bebê adoeceu e o pai sumiu. Com aluguel atrasado, três filhos e um deles precisando de remédios com urgência, ela decidiu entrar para a prostituição. A idosa conta, com timidez, que não sabe precisar quantos anos passou naquele lugar. “Não sei contar direito. Acho que fiquei na ‘zona’ 15, 20 anos. Minha filha mais nova era pequena”, diz.
Durante o dia, os filhos estudavam em escolas públicas da região e ela se preparava para o serviço. À noite, eles ficavam com vizinhas ou pessoas que eram pagas para cuidar das crianças. De qualquer forma, eles nunca ficavam sozinhos em casa, motivo de orgulho para ela.
“Sempre matavam gente por lá [na casa de prostituição]. Por dívidas, tráfico ou eles morreram por overdose. Ninguém mais está vivo, além de mim.”
Hoje, ela vive em uma casa pequena em um terreno que comporta outras quatro famílias. A geladeira, colocada na sala, divide espaço com as cadeiras de bar onde as visitas se sentam. Uma mesa pequena abriga o café da tarde que, entre torradas e bebidas, tem pães de queijo, que entregam a saudade que ela tem das terras mineiras. As paredes são enfeitadas com quadros de todos os filhos se formando na escola.
Ex-prostituta, hoje com 61 anos, sonha em voltar a estudar para aprender a ler e escrever.
Marina Marques
Ela conta, ainda, que tem o sonho de voltar a estudar para finalmente aprender a ler e a escrever. Pela previsão dela, assim que conseguir comprar óculos novos, já irá se matricular. “Guardo os cadernos que ganhei da minha filha. Só falta eu voltar pra escola”, conta.
Com dois filhos formados no ensino superior e todos seguindo seus próprios rumos, ela se sustenta cuidando de idosos da região. “O problema é que não sei ler, então os ricos não me contratam. Só cuido do pessoal aqui da região, que me conhece. Eles deixam os remédios separados por cores, para eu saber qual dar”, conta.
“Todo mundo aqui no bairro sabe quem eu sou e o que eu fiz para criar meus filhos, inclusive eles. Não tenho o que esconder. Eles não são bandidos, nunca deixei fazerem nada de ruim para ninguém”, finaliza.
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