Existe um tsunami ganhando força no mundo. Não vem do mar, mas afoga a nossa já combalida capacidade de existir na diferença. Cria novas ondas de violência e segregação.
A maior fonte de oxigênio está no diálogo, no exercício de conciliação. Com quem você tem conversado durante o isolamento? Entre tantas oportunidades que esse momento dolorido apresenta, que tal criar ou recuperar a capacidade de trocar com quem pensa diferente?
É difícil? Sim, é difícil. Mas precisamos de um caminho em direção à luz, em meio às rachaduras que se formaram em muitas de nossas relações.
Apenas 2 em cada 10 brasileiros buscam conversas com quem têm pensamentos divergentes. Essa foi a constatação de uma pesquisa patrocinada pelo Instituto Avon em 2019. Mexer neste placar é necessário, mas o primeiro passo talvez seja incutir em nós mesmos a disposição para o diálogo. Um grande ponto de partida: duas pessoas com estado de espírito pronto para debater, com respeito entre si e respeito pela democracia e pela vida.
O novo coronavírus expôs um jogo da vida cheio de regras desiguais, sem vitória final. A partida está sempre acontecendo, dando voltas, surpreendendo com novas estratégias. O que esse inimigo comum parece mostrar é que a gente ganharia muito mais se estivesse no mesmo time.
O respeito às recomendações do distanciamento, que afasta o abraço e as certezas, expõe nossa fragilidade mas também nossa potência para o trabalho em equipe. Sem olhar pra quem, trabalhadores essenciais mantêm o país em funcionamento. Garantem o atendimento nos hospitais, a limpeza nas ruas, a comida nas prateleiras.
“O trabalho de todos é igualmente fundamental”, me lembrou o astrônomo Marcelo Gleiser, com quem conversei na GloboNews na semana que passou. Entre tantas reflexões, reproduzo uma sobre a potência magnífica do que ele chama de colmeia humana:
“É um inimigo [o coronavírus] que não vê nenhuma diferença na gente, cego para as nossas diferenças. Deveríamos abrir os olhos pro fato de que as nossas diferenças são muito menos importantes do que a nossa união como espécie. Então esse é um momento pra gente entender que nós somos uma grande tribo. Não várias tribos brigando uma com a outra. A tribo humana que precisa aprender a coexistir de uma forma muito mais construtiva. Uma parceria de nós todos como seres humanos, e de nós todos com o nosso planeta. O jogo da vida não tem uma vitória final, está sempre sendo jogado.”
O Brazil não conhece o Brasil. Um sagaz jogo de palavras criado pelo nosso saudoso Aldir Blanc. Mas sempre podemos começar um segundo tempo. Pode ser com um clique pra seguir aquela figura de quem você sempre discorda, e por que não com um telefonema para um amigo com quem você não fala desde as eleições de 2018?
Isso me faz lembrar de Özlem Cekic, uma ex-parlamentar que conheci durante uma vinda dela ao Brasil no ano passado. Diante das perseguições que sofria por ser mulher e muçulmana, num país como a Dinamarca, o que ela fez? Começou a convidar seus “haters” pra um café. As conversas viraram um projeto chamado por ela de Café do Diálogo, e agora Cekic viaja o mundo produzindo réplicas desse movimento de aproximação, uma aproximação que muitos achavam impossível antes de sentarem para conversar.
Se vale de inspiração: sabe o que ela percebeu nesses encontros? Que tinha preconceitos assim como as pessoas de quem discordava. Que as violências vêm do medo gerado pela ignorância, pelo preconceito com o desconhecido. Menos julgamento, mais escuta.
A ONU conclamou o mundo a derrotar de uma só vez a Covid-19 e o discurso de ódio, que aumentou na pandemia por meio de crescentes casos de xenofobia. Quando encontrarmos uma vacina contra o novo coronavírus será um passo fundamental para a humanidade. Mas não precisamos esperar esse momento pra começar o trabalho em outra vacina, contra a intolerância, contra o desejo de aniquilar o outro. Seria uma revolução. Mas só cabe a nós.
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