Bolsonaro diz que ministro se enganou ao dizer que ele mencionou a PF em reunião

Presidente falou sobre Luiz Eduardo Ramos. Ele e mais dois ministros do Palácio do Planalto prestaram depoimento nesta terça (12) e entraram em contradição em alguns pontos. Bolsonaro diz que ministro se enganou ao dizer que ele mencionou a PF em reunião
O presidente Jair Bolsonaro falou sobre os depoimentos de terça-feira (12) dos três ministros do Palácio do Planalto. Os ministros confirmaram a versão do presidente de que, na reunião, ele reclamou da segurança dele e da família – e não da superintendência da Policia Federal no Rio. Bolsonaro reiterou essa versão, mas não explicou se a ameaça de demissão feita na reunião foi ao ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, e não a Sergio Moro. É Heleno o responsável pela equipe de segurança.
O presidente Jair Bolsonaro repetiu nesta quarta-feira (13) que, na reunião ministerial apontada como prova pelo ex-ministro Sergio Moro, não tratou de mudanças na Polícia Federal, e sim, da sua segurança e de sua família.
“Não existe as palavras ‘Polícia Federal’, não existe a palavra ‘superintendência’, não existe isso. Eu falo sobre segurança da minha família e meus amigos ou você acha que não há interesse em fazer uma maldade com um filho meu”, afirmou Bolsonaro.
A lei estabelece que a segurança do presidente, do vice-presidente e dos familiares é uma responsabilidade do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, o GSI.
Nos depoimentos que prestaram à Polícia Federal na terça (12), os ministros Braga Netto, da Casa Civil; Augusto Heleno, do GSI; e Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, referendaram a versão apresentada pelo presidente Bolsonaro de que se referiu à sua segurança pessoal, e não à troca na superintendência da PF no Rio.
Mas os ministros entraram em contradição em alguns pontos. Braga Netto disse que Bolsonaro demonstrou que queria fazer uma mudança. Afirmou que “o presidente Bolsonaro revelou sua intenção de trocar ‘a segurança do Rio de Janeiro’, entende que se tratava da segurança pessoal do presidente, a cargo do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), não tendo referência à Polícia Federal”.
Já Augusto Heleno não falou em intenção de troca, disse que era só um exemplo dado por Bolsonaro. “O presidente menciona o exemplo de sua segurança pessoal, que, se estivesse falha, iria trocá-la, e que se não conseguisse, trocaria o chefe, podendo chegar ao diretor e até o ministro”.
O ministro Augusto Heleno não esclareceu, nem foi questionado a que diretor e a que ministro se referia. Assim como Augusto Heleno, o ministro Luiz Eduardo Ramos reforçou que Bolsonaro teria dado apenas um exemplo, mas foi o único a acrescentar que, ao tratar da questão, o presidente olhou para o ministro Augusto Heleno, chefe do GSI; que “também foi dito pelo presidente Jair Bolsonaro, na mesma reunião do dia 22 de abril de 2020, que, a título de exemplo, se ele não estivesse satisfeito com sua segurança pessoal realizada no Rio de Janeiro, ele trocaria inicialmente o chefe da Segurança e, não resolvendo, trocaria o ministro, e nesse momento olhou em direção ao ministro Heleno”.
A Procuradoria-Geral da República também questionou Augusto Heleno sobre a fala de Bolsonaro sobre a segurança no Rio. No entender da PGR, se referia ao superintendente do Rio de Janeiro, em que o presidente fala em proteger seus familiares e amigos. E, perguntado quem são esses familiares e amigos, Augusto Heleno respondeu que precisaria assistir ao vídeo para poder responder.
Apesar do presidente Bolsonaro ter dito na terça e nesta quarta que não mencionou Polícia Federal na reunião, dois dos três ministros que prestaram depoimento deram uma outra versão. Ramos e Heleno disseram que, durante a reunião, o presidente mencionou a PF, entre outros órgãos, ao reclamar sobre a qualidade de relatórios de inteligência.
Luiz Eduardo Ramos afirmou que, “nessa reunião, o presidente Jair Bolsonaro se manifestou de forma contundente sobre a qualidade dos relatórios de inteligência produzidos pela Abin, Forças Armadas, Polícia Federal, entre outros, e acrescentou que, para melhorar a qualidade dos relatórios, na condição de Presidente da República, iria interferir em todos os ministérios para obter melhores resultados de cada ministro”.
Heleno repetiu essa versão. Disse que “o Presidente da República cobrou de forma generalizada todos os ministros na área de inteligência, tendo também reclamado da escassez de informações de inteligência que lhe eram repassadas para subsidiar suas decisões, fazendo citações especificas sobre sua segurança pessoal, sobre a Abin, sobre a PF e sobre o Ministério da Defesa”.
Apesar de o presidente e os ministros dizerem que as ameaças de demissão eram relacionadas à segurança pessoal, Bolsonaro não exonerou o ministro do Gabinete de Segurança Institucional ou qualquer outra autoridade do GSI. Demitiu, sim, o diretor-geral da Polícia Federal, o que levou ao pedido de demissão do ministro da Justiça Sergio Moro e à posterior troca no comando da superintendência da PF no Rio.
“Só para ficar claro: o senhor, então cogitou demitir o ministro Heleno?”, perguntou um repórter ao presidente nesta quarta-feira. “Não, não vou entrar em detalhe. Quem trata da minha segurança é ele”, respondeu Bolsonaro.
Ao longo de seu depoimento, o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, pediu para fazer duas retificações. Primeiramente, Ramos chegou a dizer que, na reunião ministerial, o presidente não falou em superintendente ou diretor da PF. Depois, pediu ao delegado para se corrigir e dizer que não se lembrava disso. A outra retificação: Ramos havia negado que o presidente tivesse falado que se não trocassem o superintendente ou o diretor da PF, ele mudaria o ministro da Justiça. Mas depois, pediu ao delegado para trocar a afirmação e disse que não se lembrava disso.
O documento diz que “depoente deseja realizar duas retificações: a) onde se lê ‘que não foi mencionado pelo presidente que se não pudesse trocar o diretor-geral da Polícia Federal ou o superintendente da Polícia Federal no estado do Rio de Janeiro, ele trocaria o próprio ministro’, leia-se ‘que não se recorda se foi mencionado pelo presidente que, se não pudesse trocar o diretor-geral da Polícia Federal ou o superintendente da Polícia Federal no estado do Rio de Janeiro, ele trocaria o próprio ministro’; b) onde se lê ‘que, na presença do depoente, isso não foi dito na reunião do dia 22 de abril ou em qualquer outro momento’, leia-se ‘que não se lembra se na presença do depoente isso foi dito na reunião do dia 22 de abril ou em qualquer outro momento’.”
Nesta quarta (13), o presidente foi questionado sobre os depoimentos de seus ministros.“No depoimento de ontem, o ministro Ramos e o ministro Heleno citaram o que o senhor falou da Polícia Federal na reunião”, perguntou um repórter. Bolsonaro respondeu: “O Ramos se equivocou. Como é reunião, tem o vídeo. O Ramos, se ele falou isso, ele se equivocou se ele falou isso aí”.
O presidente também disse que iria acabar com as reuniões ministeriais para evitar problemas: “Eu decidi: não teremos mais reunião de ministro. Vou ter uma vez por mês uma reunião de manhã, banheira nacional, um café e liberar. O resto eu vou tratar individualmente com cada ministro para evitar esse tipo de problema”, afirmou Bolsonaro.

By Negócio em Alta