Pará vê número de mortes por coronavírus quase triplicar em uma semana

Estado tem curva de crescimento mais acentuada entre os mais afetados do país. Em Belém, sistema de saúde está em colapso, com todos os leitos de UTI, de enfermaria e de observação ocupados. O número de mortes por Covid-19 no Pará quase triplicou em uma semana, e atingiu 235 nesta sexta-feira (1º). O crescimento é o maior entre os estados mais afetados pela doença, e superior à média nacional.
Na sexta passada, quando o estado registrava 86 mortes, o secretário de Saúde do Pará, Alberto Beltrame, já dizia que o sistema de saúde em Belém – onde metade das mortes ocorreram – estava em “colapso”, e o funerário enfrentava dificuldades.
Na quinta-feira (30), a prefeitura informou que todos os 125 leitos de UTI, os 1.118 de enfermaria e os mais 90 leitos de observação, estavam ocupados – e 95% são pacientes com suspeita ou confirmação de contaminação pelo novo coronavírus.
Em todo o estado, a ocupação de leitos exclusivos para UTI está em 91%, segundo o governo do estado.
Considerada a evolução de 24 a 30 de abril – última data para a qual há dados de todos os estados disponíveis – o crescimento do número de mortes no Pará é de 160%. O percentual só é menor que o de Rondônia (167%), mas o estado tem 16 mortes. No mesmo período, o número de mortes no Brasil cresceu de 62%, para 2.302. Veja os gráficos e a tabela abaixo:
Os dados foram levantados a partir do Mapa do Coronavírus, feito pelo G1 com base em números divulgados pelas Secretarias Estaduais de Saúde de todo o país.
Mortes por coronavírus nos dez estados com maior nº de óbitos
Depois de Manaus – que nesta semana passou a ter enterros noturnos e caixões empilhados –, é a vez de Belém registrar sobrecarga.
Desde sexta passada, quando o secretário estadual de saúde falou em colapso do sistema funerário, o quadro se agravou:
Cemitérios públicos, como o de São Jorge, na Marambaia, chegaram a um número de sepultamentos diários cinco vezes superior à média. A prefeitura disse que avalia a abertura de novas covas públicas para atender a demanda.
O estado registrou em abril um aumento de 116% de remoção de mortos por doenças ou causas naturais, segundo a Secretaria de Estado de Saúde (Sespa).
No Centro de Perícias Científicas Renato Chaves, em Belém, muitos parentes e amigos dos mortos se aglomeram para aguardar a liberação dos corpos.
Um caminhão frigorífico precisou ser posicionado Instituto Médico Legal (IML) da capital paraense para armazenar corpos de infectados.
Com a sobrecarga nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e prontos-socorros de Belém, pacientes morrem em busca de atendimento. Em 26 de abril, um homem acabou morrendo dentro de um carro à procura de médico.
Após anúncio de que o Hospital Abelardo Santos começaria a atender pacientes com sintomas de Covid-19, o local teve o portão derrubado pela população nesta quarta-feira (29) – assista no vídeo abaixo. Um inquérito da Polícia Civil deve investigar o caso.
Desesperada, população força a entrada do Hospital Abelardo Santos em busca de socorro
Fechamento do comércio em Belém
Epicentro da pandemia no Pará, Belém fechou o comércio não essencial somente na segunda-feira (27). No último sábado (25), a Defensoria Pública do Estado do Pará (DPE) ajuizou uma ação solicitando o fechamento de todos os serviços não essenciais na região metropolitana de Belém. Dois dias depois, o prefeito Zenaldo Coutinho recomendou que a população ficasse em casa.
“Peço desculpas por ter de adotar essas medidas de força. Dói no coração. Estou muito preocupado com a nossa economia. Mas a gente tem de fazer o necessário. Eu tenho acompanhado diariamente o desespero de pessoas em busca de um leito hospitalar, no público e privado. Então, fique em casa, não saia de casa, só saia em casos excepcionais e só saia de máscara”, afirmou o prefeito.
Serviços essenciais, como o comércio de produtos alimentícios (entre eles, a venda de açaí), continuam funcionando na capital. Apesar de a prefeitura determinar o uso obrigatório de máscaras na cidade, muitas pessoas ainda desrespeitam a medida. A Guarda Municipal atua na fiscalização e pode até multar quem descumprir a determinação.
Já a taxa de isolamento na capital continua longe de 70%, meta estabelecida pelo governo estadual. A capital Belém registrou, nesta quarta, índice de 58,7%. Em todo o Estado do Pará, esse número é de 58,45%%, segundo o mais recente boletim divulgado pelo governo.
Faltam vagas em hospitais
Na capital paraense, unidades básicas de saúde estão superlotadas desde 14 de abril. E, em 20 de abril, esgotaram-se os leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) na rede municipal.
A administração municipal afirma que 20 leitos serão disponibilizados com abertura da Uunidade de Pronto Atendimento do Jurunas até a próxima semana, e que designou seis leitos do hospital D.Zico para internação de pacientes.
Já o governo passou a designar funcionamento de pronto-socorro para hospitais públicos, como o Abelardo Santos e Galileu, para atenderem pacientes suspeitos de Covid-19.
Como as UPAs estão lotadas, a prefeitura começou a instalar tendas externas para fazer triagem de pacientes. Enquanto isso, a população se aglomera em farmácias para comprar medicamentos usados para combater os sintomas da Covid-19, mesmo sem confirmação de eficácia pelos órgãos de saúde.
A Policlínica Metropolitana, da rede estadual, passou a atender pessoas com sintomas leves, sem falta de ar intensa, com consultas e exames de sangue e tomografia. A unidade registrou aglomerações logo no primeiro dia de atendimento.
População lota farmácias em busca de remédios de tratamento de Covid-19, em Belém
Novas covas
Sistema funerário em colapso provoca demora na liberação de corpos e dobra sepultamentos
Diante do aumento de óbitos, a prefeitura de Belém já sonda áreas dentro do cemitério Parque Tapanã para continuar sepultamentos no local.
Um laudo sobre nível do lençol freático deve ser emitido ainda esta semana, segundo a prefeitura. Em nota, a prefeitura disse que cemitérios públicos de Belém e distritos de Icoaraci, Outeiro e Mosqueiro continuam recebendo sepultamentos.
No cemitério público Santa Izabel, principal de Belém, o número médio de sepultamentos passou de 8 para 15 por dia. Já em cemitérios particulares no estado, a evolução de óbitos nas três primeiras semanas de abril foi de 340 casos de pneumonia e infecção respiratória e 23 casos de Covid-19, segundo a Associação de Cemitérios e Crematórios do Brasil (Acembra).
A vice-presidente do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares (Sincep) da Região Norte, Magda Hosn, informou que os cemitérios na região metropolitana recebem, em média, 10 a 15 sepultamentos diários.
Segundo ela, há capacidade para os sepultamentos, mas pode haver falta de profissionais devido ao aumento da demanda. “O problema que vamos enfrentar não é a quantidade de jazigos, mas a quantidade de profissionais e de equipamentos de proteção individual para prestar esse serviço”, afirmou.
Número de casos em Belém
Belém e Manaus são as cidades do Norte que figuram entre os dez maiores índices de contágio do novo coronavírus no país, segundo dados das secretarias estaduais. Até a noite de quinta (30), Belém tinha 138 mortes e 1.653 casos confirmados. Já Manaus, 311 mortes e 3.273 casos confirmados.
De acordo com os números das secretarias, Belém registra taxa de letalidade de 8,3% e Manaus, 9,5%, até a noite de quinta.
O estudo “Covid-19: Um novo modelo Seir [Suscetível, Exposto, Infeccioso, Recuperado] para países em desenvolvimento – estudo de caso para a Região Metropolitana de Belém” mostrou que o total de casos ativos no Pará pode ser oito vezes maior que o informado nos dados oficiais. A pesquisa foi citada em ação do Ministério Público Federal (MPF) pedindo mais rigor nas medidas tomadas pelo governo estadual.
A taxa de aumento de mortes no estado já começa a tomar proporções nacionais. Em 24 horas, o Pará foi responsável por 13% das novas 493 mortes registradas no Brasil na quinta.
Um estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e da Universidade Federal do Pará (UFPA) calcula que o pico da Covid-19 no estado pode em 14 de maio. De acordo com as projeções, o Pará deve ter 12 mil novos infectados em 24 horas nesse dia.
A projeção estatística indica que o número total de infectados pode chegar a 200 mil pessoas no estado, caso não sejam atendidas as medidas de distanciamento social.
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By Negócio em Alta