Lava Jato encontra indícios de fraude na compra de álcool em gel pela Marinha


Um dos presos na Operação Favorito, nesta quinta-feira (14), discutiu com um militar a simulação de preços para o insumo. PF também prendeu o ex-deputado Paulo Melo e um ex-sócio dele, Mário Peixoto. As investigações da Lava Jato no RJ que levaram à Operação Favorito, deflagrada nesta quinta-feira (14), apuram também uma suposta fraude na compra de álcool em gel pela Marinha, dentre as medidas contra o coronavírus tomadas este ano.
Alessandro Duarte, um dos presos na operação, foi flagrado em mensagens interceptadas com autorização da Justiça discutindo — com um militar da Força — a simulação de preços para a compra emergencial do insumo.
Pela conversa, Alessandro ganhou a compra.
O juiz Marcelo Bretas determinou que o Ministério Público Federal envie uma cópia do processo para a Justiça Militar, para apurar a conduta do suspeito de condutas ilícitas.
Ex-deputado estadual Paulo Melo foi levado nesta quinta-feira (14) para a Sede da Superintendência da Polícia Federal no Centro do Rio de Janeiro
Reprodução/TV Globo
Casa onde Paulo Melo foi preso pela Lava Jato nesta quinta-feira (14)
Felipe Basilio/G1
A Lava Jato prendeu, ao todo, sete pessoas:
Paulo Melo, ex-deputado estadual e ex-presidente da Assembleia Legislativa do RJ, que já tinha sido preso pela força-tarefa;
Mário Peixoto, ex-sócio de Paulo Melo e dono de empresas fornecedoras para o governo do RJ e para o governo federal;
Leandro Braga de Sousa, apontado como operador financeiro do esquema;
Alessandro Duarte, também suspeito de ser operador de Peixoto;
Carla dos Santos Braga, que já tinha sido presa pela Lava Jato numa investigação de desvio de dinheiro de lanches para detentos;
Lisle Rachel de Monroe Carvalho, que já foi secretária de Saúde de Teresópolis;
Luiz Roberto Martins.
Até a última atualização desta reportagem, estava foragido Luciano Leandro Demarchi, que também foi secretário de Teresópolis.
‘Dá para todo mundo morder uma farpela’
Segundo o Ministério Público, chamaram a atenção diálogos captados a partir do terminal [telefone] de Alessandro.
O MP afirma que a conversa “demonstra a prática de manobras ilícitas para a contratação, com dispensa de licitação, de empresa do grupo do investigado [Alessandro] para fornecimento de álcool em gel para a Marinha do Brasil”.
Os promotores acrescentam que Alessandro “obteve, ao final, a contratação de suas empresas, já que a sequência de conversas indica as tratativas para entrega do material”.
Veja o diálogo, do dia 28 de fevereiro:
Militar: Deixa te falar contigo rapidinho. Você consegue três preços diferentes com três CNPJ?
Alessandro: Consigo! Tem aí o volume que precisa?
Militar: Vou ver o volume… vai ser um volume grande. Todo quartel. Mas vai ser pior, não precisa fazer licitação. Vai ser com urgência, entendeu?
Alessandro: Pega todas as informações que precisa.
Militar: Eu sempre faço. Eu só preciso que você mande para mim três preços diferentes. Eu sou Playmobil! Eu sou várias coisas amigão, eu sou multiuso!
Alessandro: risos
Militar: Eu vou fazer contigo.
Alessandro: Pensa nos dois. Bota na mesa.
Militar: Dá para todo mundo morder uma farpela. Eu vou mandar para você o que eu quero por e-mail ou mando pelo zap e você vai me mandar uma e-mail para mim formalizando com três empresas. Eu vou pegar a empresa mais barata e vou fazer a compra. Tem nada de mais não.
No dia 19 de março, outro diálogo, agora para combinar a entrega:
Alessandro: Fala, amigão!
Militar: fala. Sua empresa consegue entregar hoje?
Alessandro: Eu acho que sim. Vou ligar. Estou perguntando a eles. Que horas que pode entregar?
Militar: Até quatro horas.
Alessandro: Deixa eu ver aqui, que são duas e meia. Fica onde?
Militar: Fica na Ilha do governador. Lá no Bananal.
Negociações suspeitas
Preso em desdobramento da Operação Lava Jato, empresário Mário Peixoto é levado para a Delegacia da Polícia Federal em Angra dos Reis
Reprodução
O principal alvo da operação era o empresário Mário Peixoto. Ele foi preso em Angra dos Reis, na Costa Verde.
Mário Peixoto é dono de empresas que fornecem mão de obra terceirizada para os governos estadual — desde a gestão de Sérgio Cabral — e federal.
Na gestão de Wilson Witzel, fornece serviço de limpeza e motoristas para diferentes secretarias.
No governo federal, a empresa dele tem maqueiros e ascensoristas que atuam no Hospital Geral de Bonsucesso.
A Lava Jato resolveu deflagrar a operação, mesmo durante a pandemia, porque descobriu indícios de que a organização criminosa estava trocando informações sobre o contrato para gestão dos hospitais de campanha sob gestão do governo do RJ.
Os hospitais investigados são: o do Maracanã, de São Gonçalo, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Campos e Casimiro de Abreu.
O contrato foi vencido pela organização social Iabas. Os investigadores não descobriram ligação direta entre o Iabas e Mário Peixoto, mas operadores do empresário foram flagrados trocando e-mails com tabelas de custo detalhadas sobre o funcionamento dos hospitais.
Casa de Mário Peixoto em Mombaça, Angra dos Reis
Reprodução
Lava Jato prende ex-presidente da Alerj e empresário Mário Peixoto no Rio
O que dizem os envolvidos
A defesa do ex-deputado Paulo Melo disse que “a prisão é descabida”. “A decisão menciona a amizade do ex-deputado com Mário Peixoto, o que jamais foi negado”, emendou a nota.
Os advogados sustentam também que ambos não mantiveram “qualquer contato nesse período em que Paulo Melo cumpre prisão”.
A Marinha afirmou que está apurando as informações.
Até a última atualização desta reportagem, o G1 não conseguiu contato com Mário Peixoto e as outras pessoas citadas na reportagem.
A Secretaria Estadual de Saúde do Rio também não se manifestou.
Em nota, a Organização Social Iabas disse que não tem contrato com as empresas mencionadas, nem contato com as pessoas citadas.
A nota diz ainda que a Iabas não é alvo da operação, mas está à disposição das autoridades e tem todo o interesse no esclarecimento dos fatos.

By Negócio em Alta