
Criação de ambientes onde as pessoas se sintam bem acolhidas ganha importância. Designer dá dicas on-line, enquanto psicóloga reforça necessidade de sentir conforto Ambiente agradável pode trazer sensação de bem-estar em casa ou no trabalho
Amanda Lima
Adaptar o ambiente para nele passar horas trabalhando ou convivendo com a família, ou até mesmo para receber clientes quando as restrições de movimentação relacionadas ao novo coronavírus passarem. No contexto doméstico ou comercial, o trabalho de desenhar interiores ou fazer simples decorações pode ajudar a transmitir bem-estar para quem está confinado ou para quem sonha com o momento em que o distanciamento social não for mais a regra.
Em Juiz de Fora, a designer de interiores Amanda Lima não para. Trabalhando de casa, ela segue atendendo clientes e até mesmo quem não planeja ou não tem condições de investir na configuração de espaços no momento. O principal canal de comunicação dela é a página no Instagram.
“Sei que muita gente não tem condições de ter acesso ao serviço de um profissional, mas nem por isso as pessoas não devem deixar de tentar melhorar a casa delas da maneira que for possível. É um setor muito elitizado e as informações não são de acesso tão fácil para todo mundo. Enquanto profissional da área, que tem conhecimento e informação a respeito e o poder de ajudar essas pessoas, transformar a casa delas, fazer o que gostariam, achei que foi uma maneira interessante de ajudar. Muita gente me pede dicas no chat”, contou.
A cozinha da família de Maria Thereza vai ficar de cara nova após as dicas gratuitas obtidas com profissional na internet
Maria Thereza Fialho/Arquivo Pessoal
Uma das seguidoras que acompanham o trabalho de Amanda e pedem dicas é a publicitária Maria Thereza Fialho. Com bebê de sete meses em casa, ela está há pouco tempo no novo apartamento e, como tem passado o isolamento em casa com o filho e o marido, pensou em decorar um local especial para que a família pudesse desfrutar sem precisar investir muito. O cantinho escolhido foi a cozinha.
“Ela pediu foto, mandei e começou a dar um monte de dicas: comprar uns aramados específicos, colocar mais plantinhas, falou da paleta de cores da minha cozinha, da textura dos itens. Eu gosto de arrumar a mesa para as refeições, acho que é um dos lugares mais importantes da casa, onde passamos os momentos mais importantes. A nossa casa é tão recente quanto o filho, então a gente está montando e deixando da melhor forma para a gente, aos poucos”, contou Maria, que vai comprar os itens já com o cenário idealizado.
O design de interiores também é tratado com relevância nos espaços profissionais. A psicóloga Larissa Leite inauguraria o novo consultório nas próximas semanas, mas precisou adiar em razão da pandemia. Com a obra em andamento, ela planeja oferecer um ambiente aconchegante para que os pacientes se sintam em casa.
“A intenção é que o consultório seja uma extensão da sala da casa da pessoa, aquele lugar com um sofá gostoso, aconchegante. Queria todas as características de um ambiente acolhedor, com muita madeira, uma planta, e foi como começamos a estruturar, para a pessoa pensar: ‘Nossa, estou tomando um café’. Minha personalidade é muito alegre, gosto de amarelo, vermelho, cores vivas, e queria trazer um pouquinho também da minha identidade, porque é através dela que nos conectamos com as pessoas”, afirmou Larissa.
Elisabete não pôde ver o espaço que idealizou para os clientes em funcionamento
Elisabete Tatagiba/Arquivo Pessoal
Receber bem e proporcionar um ambiente confortável aos clientes foi o que pensou a esteticista Elisabete Tatagiba. Ela no entanto, não pôde ver o espaço que planejou se materializar. Após fazer todo o investimento no ambiente, o salão precisou fechar em março por orientação do poder público e o proprietário do imóvel não aceitou negociar o aluguel. Resultado: perdeu tudo o que tinha projetado e executado no espaço antigo, uma vez que o novo ambiente onde irá exercer sua profissão quando as atividades voltarem não tem as mesmas características físicas. A relação com o espaço que não foi utilizado deixou um vazio.
“Foi bem chocante no começo. De uma semana para outra, acabou fechando o local. Tive que fazer uma nova parceria com outro salão de cabeleireiro. Tinha preparado tudo, investido e não tive como usufruir. Na estética, o ambiente é muito importante, porque trabalho com pós-operatório, com pessoas que chegam estressadas, parte terapêutica. É lamentável, dá um aperto, deixei um pedacinho de mim ali. Mas não deixo de acreditar, mesmo que agora não tenha condição de fazer um ambiente mais agradável, as pessoas entendem, porque viram meu esforço de fazer algo legal”, relatou Elisabete, que doou parte do material que não conseguiu aproveitar.
Muito mais que decoração
A psicóloga Larissa Leite defende que as pessoas interpretem esses espaços como determinantes na qualidade do tempo que se passa neles. Em casa ou no trabalho, desenhar um ambiente agradável e de acordo com sua personalidade ajuda a aumentar a produtividade e a sensação de harmonia.
“Antes de ser psicóloga, trabalhei em banco, num ambiente corporativo, sem cores. É importante a gente se sentir acolhido no ambiente. É muito mais que decoração, é se organizar. Às vezes a gente está em casa e tem tanta informação no ambiente que aquilo acaba te cansando, mas se você organizar as cores e colocar tudo em lugar estratégico para que tudo fique harmonioso, você consegue ser mais produtivo, com melhor gerenciamento do nosso tempo e do nosso dia”, disse.
Atendendo pacientes pela internet enquanto conclui o consultório e espera novas orientações das autoridades, a terapeuta tem observado a dificuldade das pessoas em encontrar um local onde se sintam confortáveis nas próprias casas.
Projeto do consultório de psicologia prevê ambiente aconchegante para pacientes
Amanda Lima
“Estou atendendo on-line e os pacientes estavam tendo dificuldade de encontrar um ambiente em casa para se sentirem conectados e poderem trabalhar, se sentindo produtivos. Também trabalhamos com restruturação: qual o ambiente da sua casa que você mais gosta? Onde se sente mais confortável? Pegue um objeto de decoração que faça sentido para você, que tenha uma memória afetiva, de uma viagem, um momento legal e que quando tudo isso passar você queira fazer. Muitos pacientes levaram objetos de viagens, o que gera uma sensação de esperança. O momento nos faz ver nossa casa com outro olhar. O design é para isso, para trazer harmonia”, observou.
Em tempo de isolamento, a designer Amanda Lima destaca alguns pontos de atenção para as pessoas analisarem nos ambientes que frequentam, seja casa ou escritório. A ideia é permitir ventilação adequada, entrada de luz e um ambiente funcional que possa proporcionar bem-estar físico e mental.
“Se é possível caminhar livremente entre os ambientes; perceber se o ambiente é funcional, se atende às necessidades do usuário ou se não está exageradamente ocupado. Ambientes com excesso de mobiliários podem atrapalhar o fluxo de ar dentro do cômodo. É importante além de manter as janelas abertas, verificar se não existe um mobiliário muito alto atrapalhando a passagem do ar e a sua distribuição pelo ambiente. Outro ponto a se observar é a iluminação, se ele recebe luz solar e se está adequadamente iluminado pelas luzes artificiais. Ambientes mal iluminados causam dores de cabeça, problemas de visão e estão relacionados a comportamentos e sentimentos depressivos. Além disso, se atentar à ergonomia dos mobiliários e à distribuição desses objetos dentro do espaço”, concluiu.
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