Coronavírus impede ida à mesquita e muçulmanos vivem mudança nas tradições do Ramadã


Encontros para rezas passaram a ser feitos em casa, entre familiares, ou pela internet. Ações solidárias também mudaram com cuidados redobrados para evitar proliferação da doença. Pandemia do coronavírus muda Ramadã de mulçumanos
O Ramadã, período sagrado para os muçulmanos, é envolvido por um cenário único neste ano. Por causa da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), praticantes buscam alternativas para manter essa que é uma das mais importantes celebrações do islamismo.
Neste ano, o Ramadã começou no dia 24 de abril e segue até 23 de maio. Ao longo dos dias, muçulmanos intensificam as orações e jejuam para se aproximar de Deus. Gestos que aliam a fé, o perdão e a caridade.
Em Mogi das Cruzes, as tradicionais orações que antes ecoavam pela mesquita todas as noites, agora preenchem o interior das casas. A internet virou ferramenta para os muçulmanos que, mesmo à distância, querem estar juntos nos momentos de reza.
As ações solidárias e doações de alimentos, que marcam o desjejum dos mais carentes, também mudaram e ganharam medidas de segurança para que não haja contaminação. Para a imigrante palestina Faysa Daoud, que mantém no município a ONG Refúgio Brasil, as mudanças trazem saudade, mas são essenciais.
“A gente fica triste, bem triste. Ao mesmo tempo, a gente agradece a Deus. Agradece por estar vivo, por cada um estar na sua casa, não estar no hospital, não estar contaminado. A fé ajuda muito a gente a suportar e levar”, desabafa.
Praça da Mesquita em Mogi das Cruzes
Vitor Cubas de Siqueira/Divulgação
Segundo a crença, foi nesse mês, o nono do calendário islâmico, que o profeta Maomé recebeu as revelações do livro sagrado Alcorão. No jejum, todos que já passaram da puberdade ficam impedidos de comer, beber e manter relações sexuais, do nascer até o por do sol.
Outros hábitos, como fumar, também são deixados de lado. Ao anoitecer, eles rezam juntos nas mesquitas e, depois, se reúnem em casa para o iftar, um farto jantar que celebra o desjejum de cada dia.
No entanto, em 2020, as tradições mantidas há milhares de anos precisaram ser adaptadas em respeito ao isolamento social.
Faysa, que mora em Mogi há mais de 30 anos, diz que nas últimas celebrações do Ramadã, ao deixar a mesquita localizada no bairro do Alto Ipiranga, se reunia com familiares, amigos e refugiados atendidos pela ONG em restaurantes da cidade para a quebra do jejum, mas a situação mudou por causa do coronavírus.
“Se visita muitas pessoas após as orações. A gente saía das mesquitas para visitar doentes. Ia visitar uma pessoa idosa que não pode ir para a mesquita. Ia fazer visita para a pessoa que não está indo. A gente ficava junto até de noite”, relembra.
“Isso não está acontecendo. Hoje a gente se fala só por telefone. No máximo pode abrir a câmera para ver as pessoas e não tem como fazer essas refeições como era antes, de jeito nenhum”, diz.
Faysa e a família trocaram mesquitas pela sala de casa e se encontram pela internet na hora da oração
Faysa Dadoud/Arquivo Pessoal
As rezas em família, agora, ocorrem pela internet. Sozinha em casa desde que a quarentena foi decretada, Faysa se encontra com os filhos e netos diariamente, por videoconferência, para a última oração do dia.
“A gente abre o vídeo e faz. Meu neto faz a chamada da oração, meu filho mais velho conduz, minhas netas fazem leitura do livro sagrado, eu faço a súplica. Então a gente divide toda noite, às 20h. A gente abre a câmera e faz”, explica a palestina.
O presidente da Sociedade Cultural e Beneficente Islâmica de Mogi das Cruzes, o libanês Mohamad Ahmad Saada, diferentemente de Faysa, conta com a companhia de familiares em casa, mas também adaptou seu momento de devoção.
Ele conta que, antes da pandemia, a mesquita chegava a receber quase 50 pessoas diariamente. Agora, as mesmas orações são recitadas pelos poucos moradores de uma casa.
“Qualquer lugar [da casa] que estiver vago. Por exemplo, na sala, tem um tapete pequeno, próprio para a gente rezar em cima, [que serve] para não ter impureza do chão. Se tiver um, dois, três ou quatro. A gente faz a reza, a mesma coisa que a gente faz na mesquita”, destaca.
Caridade mais cuidadosa
Doações agora são entregues aos refugiados sem que haja contato físico
Faysa Dadoud/Arquivo Pessoal
O Ramadã prevê que aqueles que não puderem cumprir o jejum do dia, por questões de saúde ou outras imprevisibilidades, devem oferecer um iftar para os mais necessitados. Para Faysa esse é um momento ainda mais simbólico, porque mesmo cumprindo o jejum, ela aproveitava a ocasião para jantar com os assistidos pela Refúgio Brasil.
Agora, sem poder levá-los para comemorar nos restaurantes da cidade, ela passou a distribuir as refeições sem ter contato com os atendidos. Semanalmente, com a ajuda de voluntários, monta a lista de famílias e faz a distribuição de cestas básicas, marmitas e doces para os pequenos.
Em seguida, usando máscaras, luvas e álcool em gel, ela e outros colaboradores da entidade colocam os alimentos no porta-malas de seus carros e levam para as famílias, que os retiram sem que haja contato ou proximidade.
Aqueles que moram longe e que vão até a sede da ONG para buscar a doação, fazem a retirada na calçada, sem entrar no prédio, em um horário previamente marcado para que não haja aglomeração. “A gente encontra muita dificuldade porque temos que zelar pelos voluntários. Porém, a gente tem encontrado alternativas, graças a Deus”, afirma.
Palestina arrecada alimentos para doar aos atendidos pela ONG, principalmente, durante o Ramadã
Faysa Dadoud/Arquivo Pessoal
A fé permanece
Apesar das alternativas, a saudade dos velhos hábitos, do encontro com os amigos e familiares para a prática da devoção e da solidariedade, é dura, como afirma Mohamad. “A gente sente falta. Todo ano a gente ia para a mesquita, todo mundo ia rezar e esse ano, infelizmente, está diferente. Não tem como ir lá na mesquita rezar junto”, lamenta.
Para Fayra, que só vê os filhos e netos pela internet ou a quase quatro metros de distância entre a garagem e a porta de casa, também é doloroso. “Tem momentos de fraqueza, momentos de tristeza. Momentos de muita reflexão. Passa tanta coisa pela cabeça. Eu estou na quarentena sozinha, indo para a sétima semana sozinha, então realmente é muito difícil”, desabafa.
Diariamente, cerca de 200 refugiados entram em contato com ela para falar dos medos e preocupações por quem está aqui ou em outros lugares do mundo enfrentando a crise provocada pela Covid-19.
A palestina diz que os responde, mesmo com tristeza, e os lembra que a paciência é uma das virtudes ensinadas durante o Ramadã. Orienta que se cuidem e que tenham fé, para que logo possam se reencontrar e celebrar. Para ela, apesar das dificuldades, o Ramadã vem em boa hora.
“Jejuar não é simplesmente parar de comer. Jejuar é muito mais que isso. É aprender a ter paciência, saber esperar”, declara a muçulmana.
“A fé é o que nos deixa em pé, firme e forte. A gente busca a Deus somente e nunca podemos perder a esperança. Vai passar. Não há mal para sempre. Vai passar com todos nós bem e tranquilos, mas temos que fazer a nossa parte. Temos que nos cuidar, com muita fé em Deus, fazendo a nossa parte. Aí vai dar tudo certo”.
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By Negócio em Alta