Mensagens mostram que Zambelli falou em nome de Bolsonaro para evitar demissão de Moro

A Globo teve acesso a novas trocas de mensagens entre a deputada Carla Zambelli e o então ministro da Justiça, incluídas no inquérito que apura a suposta tentativa do presidente Jair Bolsonaro de interferir politicamente na Polícia Federal. Mensagens mostram que Zambelli falou em nome de Bolsonaro para evitar demissão de Moro
A Globo teve acesso a novas trocas de mensagens entre a deputada Carla Zambelli e o então ministro da Justiça Sergio Moro. Elas mostram que Zambelli falou em nome do presidente Bolsonaro para tentar evitar o pedido de demissão de Moro.

A troca de mensagens foi incluída no inquérito que apura a suposta tentativa do presidente Jair Bolsonaro de interferir politicamente na Polícia Federal. São conversas entre a deputada federal Carla Zambelli, do PSL, e o então ministro Sergio Moro entre os dias 28 de março e 24 de abril, data em que Moro deixou o governo.

Apesar de a parlamentar ter dito, em depoimento, que agia por iniciativa própria, as conversas revelam que ela se apresentava a pedido do presidente.

Carla Zambelli chegou a divulgar algumas dessas mensagens à imprensa, mas editou trechos e filtrou o que quis divulgar. O Jornal Nacional teve acesso à íntegra das conversas.

No dia 6 de abril, a deputada pede que Moro receba de forma urgente o Secretário de Assuntos Fundiários, Nabhan Garcia. O então ministro pergunta sobre o assunto da reunião. Ela responde: ‘Assunto confidencial sobre o PR’. PR quer dizer presidente.
Onze dias depois, a deputada questiona Moro sobre o comando da Polícia Federal e tenta convencê-lo sobre a troca de Mauricio Valeixo.

Zambelli diz: “Ministro, como usual, vou usar de 100% de sinceridade. O doutor Valeixo é o homem certo para dirigir a PF? A Erika Marena e o Edu Mauat – delegados da PF que atuaram na Lava Jato – sempre apontaram coisas sobre as atitudes dele na Lava Jato. Uma mudança agora seria muito bem vinda. Há a lista tríplice… A Erika arrebentaria lá na DG… Os casos da Lava Jato no Congresso precisam andar. Por favor, faça algo, urgente”.
Moro defende Valeixo.
Na sequência, Zambelli afirma: “Converse olho no olho com o PR e explique tudo isso…por favor ministro. Pergunte onde ele quer ajudar, abra a comunicação”.
Em outro momento, Zambelli diz que Bolsonaro não confiava no então diretor-geral da PF: “Ontem ele (referindo-se a Bolsonaro) me disse que você era desarmamentista. Acho que vocês tiveram alho recente (aqui a deputada quis dizer “algo”) e ele não confia no Valeixo”.

Em outra mensagem, a deputada demonstra interesse em um investigação da Polícia Federal sobre o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, com quem Bolsonaro teve divergências públicas, e pergunta: “Ministro, investigação neste caso é da PF?”

No feriado de 21 de abril, a deputada diz que quer aproximar Moro do presidente e pede um encontro do então ministro com a advogada de Bolsonaro: “Ministro, o senhor poderia receber a Karina Kufa, advogada e amiga do PR? Estamos tentando ajudar na aproximação sua com ele. Ela é peça fundamental”.

No dia 23 de abril, véspera de Moro anunciar seu pedido de demissão, a deputada ligou para ele, mas a chamada não foi atendida. Ela passa, então, a conversar por mensagens, se colocando como uma intermediária do governo com Moro. Ela chega a mencionar na conversa que, caso se acertassem, Bolsonaro garantiria a Moro uma vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal.

Essa conversa foi divulgada à imprensa recentemente pela deputada, que omitiu trechos como esse: “Bolsonaro vai cair se o senhor sair”, “Entendo sua frustração”, “Pelo amor de Deus, me deixe ajudar”, “Vamos amanhã marcar 7h com o PR lá no Alvorada” e “A gente conversa e ele lhe garante a vaga no STF este ano”. E na sequência diz: “E o senhor fica só para não criarmos esta crise”.

A deputada insiste. É nesse contexto que surge a conversa revelada pelo Jornal Nacional em abril. “Por favor, ministro, aceite o Ramagem e vá em setembro para o STF. Eu me comprometo a ajudar, a fazer o JB (JB neste caso quer dizer Jair Bolsonaro) prometer”, diz Zambelli, ao que Moro responde: “Prezada, não estou à venda”.
Ramagem, é Alexandre Ramagem, indicado pelo presidente para a direção-geral da PF, mas que teve o nome barrado pelo STF.

Em outro momento, a deputada leva o posicionamento do presidente sobre a direção da PF a Moro: “Seu lugar é STF. O PR também está irredutível. Ele acha que, constitucionalmente, ele pode indicar”. E na sequência diz: “O PR não quer que você saia”.

E, nessa parte da conversa, Zambelli fala em nome do presidente e leva uma proposta ao então ministro: “O PR propôs o seguinte: já que o Valeixo pediu para sair, deixa o cargo vago por alguns dias. Vocês conversam com calma, se conhecem melhor – que está faltando desde o começo do mandato – e decidem juntos um nome”.

No depoimento que prestou, nesta quarta-feira (13), à Polícia Federal, Carla Zambelli foi questionada diversas vezes sobre a troca de mensagens com Moro e, diferentemente do que mostram algumas mensagens, a deputada disse que agia sozinha, sem consentimento ou a mando do Palácio do Planalto. Ela disse que atuava como ativista e apoiadora do governo.

A conversa com Moro segue e a deputada pergunta se Valeixo havia pedido demissão. Moro não responde. Ela insiste e repete a pergunta. Esse segundo questionamento e a resposta de Moro não foram divulgados anteriormente à imprensa pela deputada.

Zambelli: Pode só me responder se o Valeixo realmente pediu demissão?
Moro: Não pediu demissão.
Zambelli: Se o presidente exonerar o Valeixo, o senhor topa conversar para ver um nome que atenda a ambos? Ou seja, a sua permanência depende da permanência do Valeixo?
Moro: Carla, não vou tratar essas questões por escrito. O PR já tem todas as informações.
Zambelli: Está bem. Desculpe.
Zambelli: Ministro, falei com o Planalto. Tire esta sexta e vá para casa. Domingo o PR e Michelle convidaram você, Rosângela, eu e Aginaldo para um almoço. Vamos resolver isso de uma forma a ajudar o Brasil. O senhor é um pilar de sustentação deste governo.

Em seguida, a parlamentar volta a defender o nome de Alexandre Ramagem, amigo da família Bolsonaro: “Ministro, por favor, tenta compor com o Ramagem. A Erika disse que ele é ótimo. Quem sabe não será bom? Por favor, o povo precisa de você. Vai haver uma ruptura muito grande sem você no governo”.

Logo depois, Zambelli liga para Moro, que não atende. Ela decide ir ao Ministério da Justiça, meia hora antes do anúncio da demissão e diz que está lá a pedido do Planalto: “Tô aqui no MJ”. E depois diz: “O Planalto que pediu, mas estou vindo não como parlamentar, mas como sua admiradora”.
Depois de muita insistência de Zambelli, Moro fala sobre a possibilidade de o presidente anular o decreto. Zambelli responde: “Vou lá falar com ele”.
O presidente Jair Bolsonaro disse na noite desta quinta-feira (14), numa rede social, que a deputada Carla Zambelli não estava autorizada a falar por ele.
A deputada afirmou que em nenhum momento falou com Moro em nome do presidente Bolsonaro. E que isso ficou bastante claro no depoimento dela. Carla Zambelli disse ainda que agiu na ânsia de tentar evitar a saída de Sergio Moro.

By Negócio em Alta