Mãe de dois filhos, policial militar tem 30 anos de corporação e acredita em legado a partir da educação: ‘Fui buscar’


Participante da primeira turma de sargentas, mesmo com desafio de cuidar dos filhos, aluna-a-oficial conseguiu fazer e promover projetos, conseguindo respeito da família e no trabalho. Lilian Cerqueira participou da primeira turma de policiais femininas na Bahia
Divulgação/PM-BA
Graduada em Letras Vernáculas, com pós-graduação em Administração e especialização em Segurança Pública, além de ter um mestrado em Comunicação. A mãe de Matheus, de 24 anos, e de Felipe, de 20, é aluna-a-oficial da Polícia Militar da Bahia, com 30 anos de corporação.
“Uma mãe apaixonada pelos filhos e os filhos apaixonados por mim. Tenho certeza absoluta que me valorizam muito, assim como eles me valorizam. Filhos que ainda sentam no meu colo e dizem ‘eu te amo’, me ensinam passos de dança, me ensinam desde que nasceram, a viver”, brincou.
“Recentemente, na formatura do meu filho mesmo, teve aquela música tipo ‘pancadão’, que rola nessas festas, né? E eu lá no meio, com os amigos dele e dançando! Eles, às vezes, dizem que eu estou pagando mico, mas às vezes não, e como eles dizem ‘de boa'”, lembrou com bom humor.
Lílian Cerqueira, de 54 anos, participou da primeira turma composta por sargentos da instituição. Ao longo da carreira, mesmo com o desafio de cuidar de dois garotos, conciliando com profissão e estudo, conseguiu fazer e promover cursos e projetos, conseguindo o respeito da família e dos colegas de trabalho.
“Eu, até o ano passado, era subtenente. A hierarquia da Polícia Militar está dividida entre oficiais e praças, mas, mesmo assim, eu elaborei projetos, cursos, especificamente o curso de comunicação e media training da Polícia Militar, atuando no Departamento de Comunicação Social, porque eu fui buscar lá fora”.
“Eu fiz mestrado, então sempre fui buscando conhecimento acadêmico e procurando trazer para a instituição, apresentar, e tive a sorte de sempre esses projetos serem aceitos”, contou Lílian.
A busca por conhecimento e a ousadia e coragem para apresentar ideias e pôr em prática é uma das lições que Lílian aprendeu durante a carreira. O último projeto desenvolvido pela aluna-a-oficial na instituição foi a idealização da Rádio Web PMBA.
“Eu fui coordenar a rádio, meu último trabalho antes de ir para Academia de Polícia Militar foi coordenar e gerenciar a Rádio Web PMBA”.
“O último projeto que eu desenvolvi foi a rádio. A Polícia Militar hoje tem uma rádio, a Rádio Web PMBA, que é um projeto meu e que eu gerenciava. O comandante geral, coronel Anselmo Brandão, valoriza as competências, ele valoriza muito pessoas que criam, que ousam, independente do posto ou graduação que ocupem”, conta.
Lilian Cerqueira na formatura, em 1990
Arquivo Pessoal
Lílian Cerqueira foi a primeira sargento a dar aula para oficiais na Polícia Militar da Bahia, em 2007. A aluna-a-oficial deu aula de Língua Portuguesa na Academia de Polícia Militar, além de Metodologia da pesquisa (tem um livro publicado).
“Sempre procurei, dentro dos meus valores, quebrar barreiras. Em 2013, eu ministrei aulas no Curso de Especialização de oficiais. É um curso de especialização que habilita capitães serem promovidos ao posto de oficial superior”, contou orgulhosa.
Fora do trabalho, Lílian Cerqueira se define como uma pessoa que gosta de viajar, estudar, brincar, mas sempre sem perder a essência do respeito.
“É a Lílian que gosta de viajar, especialmente à Chapada Diamantina, pelo amor, pela paz que este lugar e pessoas proporcionam, especificamente a cidade de Lençóis. Vive em vários palcos, dá aula em faculdade, adora cozinhar, escrever, viajar. Agora a essência não muda: respeitar as pessoas. Eu falo, cumprimento, abraço, converso, brinco com meus colegas no quartel, indistintamente”, disse a aluna-a-oficial.
“Você tem o respeito deles, e eles demonstram, porque gente precisa de carinho, de atenção, de respeito, então uma das características peculiares da mulher é essa: não ter medo de abraçar, não ter medo de olhar, de chorar, de sorrir, de expressar, demonstrar sentimento, ser o que é. É lógico que com respeito, né?”.
Desafio de trabalhar e cuidar dos filhos
Lilian e os filhos, Matheus e Felipe
Divulgação/PM-BA
“Na verdade, a gente busca, a gente ‘mata um leão’ a cada dia, mas deu para conciliar, com a ajuda do pai dos rapazes. Sempre que chegava em casa e procurava participar, saber da vida deles, o que eles fizerem durante o dia, com quem eles estiveram, procurava aproveitar o tempo que tínhamos, além de sempre procurar proporcionar o melhor para eles. Eu sempre acreditei no valor da educação, não só o da educação doméstica, mas da educação formal, e sempre procurei investir nisso para eles”.
Sem colocar a educação dos filhos em segundo plano, Lílian Cerqueira fez o máximo para ser presente na vida de Matheus e Felipe.
“Hoje, um faz Economia, o mais novo. O mais velho já formou em Direito, já trabalha na área. Eles têm, graças a Deus, uma educação familiar assim, muito bem elogiada, têm facilidade para lidar com as pessoas, com a diversidade, de respeitar as pessoas”, contou.
Neste domingo (10), se comemora o Dia das Mães, e, mesmo dentro de casa, respeitando as medidas de proteção contra a Covid-19, a data é um momento para que Lílian relembre os bons momentos passados com os filhos e planejar o futuro.
“Sempre sentiram orgulho, de uma forma particular. Eu acho que todas as pessoas precisam dar o melhor de si em tudo o que se predispuser a fazer, não importa qual o nível de hierarquia ocupe. Você tem que ser o melhor, você tem que o ser o melhor soldado, o melhor sargento, o melhor aluno, o melhor oficial”, disse.
“Eu era uma subtenente que ia para a sala de aula dar aula para major, para capitão, para tenente coronel, para soldado e sempre percebi o respeito deles. Quando eu recebi a medalha, certamente meus filhos se orgulharam, pois estavam presentes nesse, como em todos os momentos importantes que vivi, também, na Polícia Militar”.
Ao ser questionada sobre uma lembrança simples e que mostra a admiração dos seus filhos por ela, Lílian Cerqueira revelou um diálogo que teve com o coronel Anselmo Brandão e o seu filho Matheus.
“Uma vez, conversando com o coronel Anselmo, meu filho mais velho estava presente e o coronel disse assim: ‘É, sua mãe é muito importante para a Polícia Militar’. Aí ele olhou para ele e disse: ‘É, eu tenho muito orgulho dela'”, contou.
Cobrança e cuidados
Lilian Cerqueira e os filhos Rafael e Felipe
Arquivo Pessoal
A relação entre mãe e filhos é regada de muito amor, companheirismo e também preocupação. Lílian Cerqueira destaca que simples gestos de afeto vindo das pessoas que ela mais ama são como um combustível para ela enfrentar o dia-a-dia.
“Existe também a questão da cobrança, da ascensão profissional. ‘Mãe, quando você vai ser promovida?’. Existe o cuidado, porque nós somos muito próximos, existe muito amor, muito carinho envolvido nisso, quando, por exemplo, eles orientam: ‘Não vá fardada’, a preocupação, sabe? Que os filhos têm com a mãe, para que ela não saia fardada. De a gente brigar porque eu tirei serviço e não avisei quando cheguei”, lembrou.
“A confiança de saber que você não é mais uma, porque quando você se propõe a fazer o melhor, dar o melhor de você, você não é mais um e isso com certeza é motivo de orgulho”.
Oportunidades para mais mulheres na PM
PMs femininas completaram 30 anos de ingresso na corporação baiana
Divulgação/PM-BA
No dia 30 de abril, as policiais militares femininas comemoraram os 30 anos de ingresso da mulher na Polícia Militar da Bahia. Segundo informações da assessoria da instituição, o efetivo é formado atualmente por 4.606 mulheres, entre oficiais e praças, dentro de um universo de 30 mil policiais militares que integram a corporação militar baiana.
Atualmente, 374 alcançaram o oficialato, sendo uma tenente coronel, 34 majores, 203 capitãs e 136 tenentes. Já entre as praças são 506 subtenentes, 390 sargentos, 1.847 cabos e 1.474 soldados, além de 15 alunas (11 no Curso de Formação de Soldados e duas no Curso de Formação de Oficiais).
A aluna-a-oficial Lílian Cerqueira acredita que não existem cargos para homens e mulheres e, sim, para quem tem afinidades com o trabalho proposto.
“Mais mulheres vão entrar se mais vagas tiverem. Se não houvesse essa desvantagem numérica, no que se refere à disponibilização de vagas, certamente mais mulheres”, concluiu.
PM conta com 4.606 mulheres, entre oficiais e praças, dentro de um universo de 30 mil policiais militares que integram a corporação militar baiana.
Divulgação/PM-BA
Lílian espera que mais vagas sejam disponibilizadas em concursos, para que se justifique que a segurança pública é uma atividade para homens e mulheres.
“O desejo é que disponibilizem mais vagas para mulheres, justificado na ideia de que segurança pública é uma atividade não apenas para homens, e que permitam que ainda alguma mulher assuma o Comando Geral da Polícia Militar”.
“Hoje a gente tem policiais femininas oriundas da primeira turma de policiais femininas, no Corpo de Bombeiros, a tenente-coronel Ana Fausta e a major Ione Laís; temos as majores Milanezi, Claudia Mara, Denice e Eva Freire, mulheres que já assumiram postos de direção e comando na Polícia Militar”, disse.
PM-BA admitiu as primeiras policiais militares femininas na Bahia 165 anos após a sua fundação (1825),
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A PM-BA admitiu as primeiras policiais militares femininas na Bahia 165 anos após a sua fundação, que ocorreu em 1825, um marco para uma instituição que era predominantemente masculina. Desde então, as mulheres desempenham funções de comando, operacionais e administrativas, nos 417 municípios baianos.
“A gente acreditava na gente, no nosso potencial. Sempre persistindo, ousando. Como é que vou deixar de pedir? Eu já tenho o ‘não’, né? Vamos lá, vamos ver se eu ganho o ‘sim’, porque o ‘não’ eu já tenho. Foram muitas conquistas e muito ainda a conquistar”, brincou Lílian.
“Na PM, que foi e é uma escola para mim, conheci e venho conhecendo muitas pessoas valorosas e hoje, no Curso de Formação de Oficiais Auxiliares, ganhei amigos, queridos e especiais. É uma instituição riquíssima”.
“Tem uma frase inscrita no Colégio da Polícia Militar da unidade Dendezeiros que diz assim: ‘A palavra convence, mas o exemplo arrasta’. Não podemos duvidar de que os filhos, independente de onde você esteja, do trabalho que você exerça, sentem orgulho de você, mas é lógico que ser policial militar é diferente”, destacou.
A corporação planejou uma programação extensa para homenagear a policial feminina, pelos 30 anos de corporação, mas, devido às circunstâncias da pandemia, precisou ser adiada.
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By Negócio em Alta