
Unidade montada no Anhembi registrou uma morte a cada dois dias após receber pacientes com sintomas leves da doença. Prefeitura nega as denúncias e diz se adaptar às necessidades. Hospital de Campanha do Anhembi, na Zona Norte de São Paulo
Reprodução/TV Globo
O Hospital de Campanha do Anhembi, localizado na Zona Norte da capital paulista e montado pelo governo do estado, foi construído para receber pacientes com quadros leves de Covid-19. Contudo, alguns pacientes vêm piorando o estado e, mesmo sem sintomas graves, acabam morrendo dentro do hospital. A média de mortes é de uma a cada dois dias na unidade.
Profissionais de saúde que trabalham no hospital de campanha e até pacientes e parentes denunciam que a estrutura é deficitária para quadros graves: faltam medicamentos e equipamentos, há demora para transferências e exames, que devem ser feitos em unidades externas, demoram para retornar.
A Prefeitura negou as denúncias, afirmando que há material disponível e que há cobertores para os funcionários e os pacientes, e que o hospital de campanha está se adaptando às necessidades dos profissionais.
“Nós temos falta de oxímetro de pulso que serve pra verificar a quantidade de oxigênio que tem no organismo. Temos falta de “glicozímetro”, que serve para verificar o nível de glicose que tem no sangue. Isso tudo é imprescindível para aquele paciente que procura o hospital de campanha pela síndrome respiratória. Então esses equipamentos não devem faltar e nós temos falta deles, sim”, disse um funcionário da unidade, que pediu para não ser identificado.
Devido à falta de equipamentos, o que há disponível têm de ser compartilhado entre os pacientes. E até itens básicos são racionados, como cobertores e lençóis, mas em quantidade insuficiente.
A tia do Alex, de 61 anos, está internada há uma semana no Anhembi. Pela internet, ele contou que ela elogia o atendimento dos funcionários, mas reclama da falta de estrutura. “Todo dia ela fala que está passando frio, principalmente agora nesses últimos três dias que a temperatura caiu, ela reclama muito de frio. E a gente não sabe se pode levar cobertor, eles não falam nada”, assinala ele.
Fotos tiradas na noite de quinta-feira mostram pacientes com pouca coberta e a falta de materiais também prejudica os profissionais de saúde.
“Perto da ala vermelha, que no caso onde os pacientes pioram e vão pra lá, teria um local pra gente comer e também não tem. Não tem local pra nós descansarmos durante a noite. É, não tem cama, não tem como a gente, não tem como pegar cobertor, não tem como pegar travesseiro. Tem que sair procurando no hospital de campanha, catando em alguns leitos o que tiver pra gente conseguir descansar”, diz outro funcionário do hospital.
Um paciente pode piorar por vários motivos, como pela dificuldade do próprio organismo de combater a doença, mas pela falta de estrutura do atendimento.
Quem trabalha no hospital denuncia ainda a falta de medicamentos necessários para a internação de alta complexidade e a dificuldade em conseguir uma transferência rápida para um leito de UTI em outro hospital, o que pode agravar ainda a situação.
“Não tem tudo as medicações que a gente necessita, numa ala vermelha por exemplo. Entendeu, não? Falta outros tipos de sedações, para o paciente. Que não é todo paciente que seda com aquelas sedações. Agora, com o passar do tempo, quando é lotando os hospitais, que são referência na transferência, esses pacientes agora vão começar a ficar dentro do hospital de campanha, sem o devido cuidado”, disse outro funcionário.
Até exames essenciais estão demorando, já que muitos precisam ser feitos fora do local.
“A gente tem pacientes que estão ficando mais tempo lá. E esses paciente a gente não consegue saber como é que está a situação do pulmão, como é que tá a situação do sangue né. No caso a gente não tem, os exames demoram a sair. A gente necessita de no mínimo umas três gasometrias no dia, pra gente ajustar a ventilação mecânica né. O paciente pode vir a óbito por não ter uma gasometria”, assinala um enfermeiro.
O pneumologista Elie Fiss diz que cada paciente reage diferente e que, em alguns casos de paciente com Covid, o avanço da doença pode ser rápido. Diante disso, o atendimento especializado é fundamental.
“Um óbito a cada dois dias, infelizmente pode se tornar uma realidade, especialmente porque estamos tratando de uma doença desconhecida como a Covid-19, que não tem um tratamento específico e não existem parâmetros exatos pra que possamos perceber qual paciente vai se tornar mais grave ou não”, disse.
“Nós temos que oferecer todo o equipamento, todos os equipamento de proteção necessários para os profissionais de saúde e equipamentos disponíveis pelo que se conhece para o tratamento do paciente. E todo conforto necessário pra que o paciente possa ter uma boa e rápida recuperação”, disse o médico.
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