Produtores de flores e floriculturas do Alto Tietê buscam opções para reduzir impactos da pandemia no Dia das Mães


Data é considerada uma das mais importantes da área, mas foi afetada por causa da crise do novo coronavírus. Floricultura envia catálogo para clientes e aposta em delivery e drive-thru. Charley tem produção de orquídeas em Mogi das Cruzes
Arquivo Pessoal/Charley Suzuki
A proximidade do Dia das Mães, que será comemorado no dia 10 de maio, normalmente é motivo de euforia e grande movimentação para produtores de flores e floriculturas. Afinal, é nessa data que muitos profissionais e estabelecimentos da área conseguem vender seus produtos em grandes quantidades.
Porém, com a pandemia do novo coronavírus e o decreto de quarentena, que no Estado de São Paulo foi prorrogada justamente até 10 de maio, o cenário da venda de flores se tornou bem diferente para este ano. A expectativa de ganhos com o Dia das Mães é menor em relação aos anos anteriores, o que faz com que produtores e comércios busquem alternativas para amenizar os impactos da crise.
O G1 conversou com alguns profissionais do ramo para entender qual é a situação atual e os reflexos da pandemia nas vendas para o Dia das Mães. Um deles é o biólogo e orquidófilo Charley Suzuki, que se dedica à produção de orquídeas em um sítio em Mogi das Cruzes. A família está há mais de 60 anos no mercado e vive um momento inédito com a crise do coronavírus. Ele deu uma dimensão do quanto as vendas do Dia das Mães são importantes no faturamento do ano como um todo e o quão grande pode ser o impacto para os produtores.
“O Dia das Mães é praticamente o Natal dos produtores. Nenhuma data se iguala a essa. Esperamos essa data o ano inteiro para realizar os lucros. Normalmente, no Dia das Mães, a gente faturava para cobrir despesas de outros meses que são muito fracos. Era uma forma de sobreviver o restante do ano. Sendo otimista, vamos tentar escoar pelo menos uns 30%, 40% da nossa produção”, diz Charley.
Charley tem produção de orquídeas em Mogi das Cruzes
Arquivo Pessoal/Charley Suzuki
Charley conta que boa parte de sua produção é destinada a eventos e exposições de orquídeas, que estariam ocorrendo neste momento, principalmente por conta do Dia das Mães, mas todos acabaram cancelados. Com outros mercados fechados, o escoamento da produção diminuiu consideravelmente, e o movimento, que nos últimos dias já deveria ser grande com a data, está bem abaixo do ideal. Segundo Charley, uma das alternativas são as vendas pela internet, que ajudam, mas ficam abaixo do volume necessário para cobrir as despesas.
“Na última semana começou a movimentar um pouco, porque tem algumas cidades que vão começar a liberar o comércio a partir do mês que vem. Estamos tentando escoar um pouco a mercadoria para o Dia das Mães, mas, neste momento, muitos já estariam comprando. Vem muita gente de fora e que quer carregar o máximo que dá. As pessoas que normalmente compram 50 caixas de flores chegam na hora e querem comprar 200, 250. Alguns estão começando a carregar, mas ainda está muito tímido o movimento, porque o pessoal está muito apreensivo. Quase ninguém quer arriscar, já que não sabe como vai ser o Dia das Mães, porque nem visitar a mãe ou a avó está podendo”.
Eduardo Yoshiaki Ikawa tem produções de orquídeas nas cidades de Guararema e Campos do Jordão. A exemplo do que acontece com outros produtores, o Dia das Mães é uma data essencial para ele vender as flores.
Neste ano, diante da pandemia do novo coronavírus, uma importante alternativa que Eduardo encontrou foi focar as vendas em grandes quantidades para os supermercados, um dos nichos com os quais ele trabalha. A estratégia o ajudou a driblar os impactos da crise sobre o Dia das Mães.
“A produção programada do Dia das Mães vem de Campos do Jordão. Por lá ser mais frio, tentei segurar ao máximo, porque o frio ajuda a segurar as flores. Fiquei muito preocupado de não conseguir vender essas plantas. Nós temos vários canais de venda. Tenho a Ceagesp, os gardens e uma negociação que faço com redes de supermercados. Tudo isso zerou, mas, de umas duas semanas para cá, as redes de supermercado aceleraram muito, e hoje não estou dando conta de atender à demanda deles. O supermercado ganhou muita força por ser o único ponto de vendas que até então estava aberto. Nós trabalhamos com todo o protocolo de segurança, obedecendo a todas as regras, para podermos manter a integridade dos funcionários”.
Eduardo vem destinando produção de orquídeas para supermercados
Arquivo Pessoal/Eduardo Ikawa
Eduardo conta que o caso dele, no momento, é uma das exceções em meio ao cenário de dificuldades que muitos produtores de flores enfrentam: “Fiz reuniões pontuais com associações, grupos de produtores, e ninguém está conseguindo escoar a produção. Eu estou conseguindo porque as redes de supermercado fizeram algumas ações abaixando o preço, a margem de lucro, então pediram para fazermos o preço mais baixo possível. O preço que estamos praticando não é referência. É preço para realmente escoarmos a produção e não ficarmos sem vender nada”.
O produtor de orquídeas reconhece que, apesar de ter conseguido se sobressair em um momento de tantas incertezas, no geral o cenário é ruim em seu segmento. Ele acredita que uma medida importante, inclusive para o mercado de flores, seria uma mudança na data em que o comércio celebra o Dia das Mães, a exemplo do que fez o governador de São Paulo, João Doria, na última sexta-feira (24).
“As vendas neste ano, no geral, vão ser muito ruins para o mercado das flores. A gente não cria muita expectativa. Eu, graças a Deus, acabei vendendo para os mercados. Não foi no valor esperado, mas sim diante da realidade atual. Fiquei feliz por isso, por pelo menos a gente mantém o emprego, a renda das pessoas. Mas eu não coloco muita expectativa para o Dia das Mães e até torço para que de repente se faça uma ação de cancelamento agora e possa se comemorar em outra data, daqui a dois ou três meses”.
Floriculturas apostam em contato com os clientes e sistemas de delivery e drive-thru
O G1 também conversou com proprietários de floriculturas para saber de que maneira estão trabalhando para o Dia das Mães.
Clarice Emi é dona de uma floricultura em Mogi das Cruzes e conta que, para alcançar os clientes neste momento de quarentena, ainda mais com uma data tão importante se aproximando, decidiu intensificar o marketing pelas redes sociais, além do contato direto e mais próximo com essas pessoas via WhatsApp. “É um atendimento que precisa ser mais intimista, de entender que, neste momento, o cliente está em uma situação delicada. A conquista do cliente é diária, para eles entenderem que são importantes para nós. E temos que entender que um precisa do outro. É um momento de união, de realmente estarmos juntos”.
Além das entregas por delivery, recentemente, a floricultura deu início também ao atendimento por drive-thru, por meio do qual o estabelecimento oferece ao cliente um catálogo com produtos pré-selecionados. Nesse sistema, o cliente pode fazer a escolha, o pagamento e a retirada do produto sem sair do carro. A proprietária conta que, no momento da chegada, procura também oferecer álcool em gel para o cliente fazer a higienização.
Cliente pode comprar de dentro do carro em floricultura de Mogi
Arquivo Pessoal/Clarice Emi
Apesar da mudança drástica que a pandemia do novo coronavírus provocou nas pessoas ao redor do mundo, além dos graves impactos sobre muitos segmentos do comércio, a proprietária da floricultura procura enxergar o atual momento com olhos de otimismo, principalmente por conta do sentimento que tem percebido nascer em algumas pessoas.
“Muitas pessoas entregaram flores por delivery. São pais, mães, irmãos, amigos que dizem: ‘Olha, neste momento difícil não vamos poder ir aí para nos abraçar, beijar, mas, quando nos vermos, vou dar um abraço bem apertado’. Isso me deixou muito contente, porque as pessoas realmente estão sentindo saudade de estar perto. É um sentimento que está brotando no coração de muita gente”.
Odair de Souza Pinho é dono de uma floricultura no Mercado Municipal de Mogi e conta que a rotina mudou muito desde o início da quarentena: o atendimento é feito pelo site da loja e por WhatsApp, enquanto os produtos são entregues, em sua maioria, por sistema de delivery.
Mesmo diante de um cenário complicado desde o início da quarentena, Odair procura se manter otimista para o Dia das Mães, embora a projeção que ele faça é de alcançar, no máximo, entre 30% e 40% do volume de venda com o qual está acostumado neste período
“Como já vinha em uma decadência, nós já fomos diminuindo as compras, por isso não tivemos uma perda grande. Procuramos comprar produtos que têm mais saída e trabalhar em cima daquilo que sai mais rápido, como a rosa vermelha, a flor do campo, entre outras. Com relação ao Dia das Mães, procuramos ficar otimistas, por ser uma data que fomenta o comércio. E a flor é uma coisa mais prática, mais rápida de se comprar. A roupa, por exemplo, vai ser um item mais difícil”.
Initial plugin text

By Negócio em Alta