O Rio Fashion Week encerrou sua primeira edição já apontando para o futuro: a segunda edição está marcada para abril de 2027, reforçando a intenção de consolidar o evento como uma das principais plataformas de moda do país. Realizado entre 14 e 18 de abril, no Pier Mauá e também em desfiles externos, o evento reuniu 20 marcas, ativações, debates, negócios e um público estimado em 30 mil pessoas.
A realização do evento pela IMM, empresa de esportes e entretenimento também ligada ao SPFW, marca uma nova organização no calendário da moda nacional. Com o São Paulo Fashion Week passando a ser realizado no segundo semestre com foco em Outono/Inverno, o Rio assume o protagonismo da moda Primavera/Verão, criando uma divisão mais clara entre as temporadas e fortalecendo a identidade de cada praça.
Para Elisabete Bohemio Baccelli, essa movimentação é positiva para a indústria brasileira porque amplia os espaços de visibilidade e cria novas oportunidades para marcas, estilistas, compradores e profissionais criativos. “O Rio Fashion Week nasce com uma vocação muito clara: traduzir uma moda mais solar, plural e conectada ao comportamento brasileiro. Ao assumir a temporada de Primavera/Verão, o evento reforça uma característica natural do Rio, que sempre teve forte ligação com praia, corpo, leveza, movimento e estilo de vida”, analisa.
A primeira edição mostrou justamente essa diversidade. As 20 marcas participantes levaram para a passarela propostas bastante diferentes entre si, o que torna difícil apontar uma única tendência dominante. Ainda assim, um ponto apareceu como denominador comum: o fortalecimento do handmade, do trabalho manual e de elementos que buscam uma expressão genuinamente nacional.
Esse interesse pelo feito à mão não surge por acaso. Em um momento em que a moda global discute autenticidade, sustentabilidade, identidade local e diferenciação, o trabalho manual brasileiro ganha novo valor. Bordados, aplicações, macramês, couro trabalhado, transparências, rendas, franjas, texturas e construções artesanais apareceram como formas de dar mais personalidade às peças.
Segundo Elisabete Bohemio Baccelli, o handmade é um dos caminhos mais fortes para a moda brasileira se diferenciar no cenário internacional. “O Brasil tem uma riqueza enorme em técnicas, materiais e referências culturais. Quando o trabalho manual aparece com acabamento sofisticado e proposta contemporânea, ele deixa de ser apenas detalhe decorativo e passa a ser linguagem de moda”, destaca.
Entre as marcas citadas no balanço do evento, a Osklen levou à passarela uma leitura de despojamento sofisticado, com longo plissado, alfaiataria relaxada, camisa descontraída e peças que reforçam seu diálogo com sustentabilidade e materiais brasileiros, como o couro de pirarucu. A marca apresentou uma imagem alinhada ao luxo casual que há anos faz parte de sua identidade.
A Aluf apareceu com elegância despojada, explorando paletós, pantalonas, tons claros, camurça e acessórios com contas de madeira. A proposta reforça uma moda sofisticada, mas sem rigidez, em sintonia com o clima brasileiro e com uma ideia de vestir mais fluida.
Já a Normando apostou em recortes orgânicos, fendas verticais, pespontos, linhas soltas e estampas ombré. A marca trouxe uma estética que mistura sensualidade, construção e experimentação, mostrando como a moda brasileira pode explorar forma e acabamento de maneira autoral.
A moda praia também teve presença forte, como era esperado em uma semana de moda sediada no Rio. Salinas, Blueman e Lenny Niemeyer reforçaram a força do beachwear nacional, com biquínis, maiôs, transparências, macramês, proporções arquitetônicas e saídas longas fluidas. Esse segmento é uma das grandes vitrines da moda brasileira no mundo e ganha ainda mais relevância dentro de uma temporada dedicada à Primavera/Verão.
Para Elisabete Bohemio Baccelli, a presença do beachwear é essencial para a identidade do evento. “O Rio tem autoridade natural nesse território. A moda praia brasileira é reconhecida pela criatividade, pela modelagem, pelo uso de cores e pela relação com o corpo. O Rio Fashion Week pode se tornar uma plataforma importante para projetar ainda mais esse segmento”, afirma.
Marcas como Patrícia Vieira também reforçaram a potência dos materiais trabalhados de forma artesanal. A estilista apresentou peças em couro com motivos florais, ladrilhos e construções que aproximam o material de uma leitura sofisticada e delicada. Essa abordagem mostra que o couro pode ser explorado para além da imagem pesada ou tradicional, ganhando leveza e feminilidade.
A HIsha trouxe bordados, franjas de contas e transparências, enquanto a Handred explorou aplicações bordadas e volumes como a saia balonê. Esses exemplos reforçam como o trabalho manual apareceu em diferentes linguagens: ora como adorno delicado, ora como textura, ora como construção de volume.
A presença de Helô Rocha reforçou o diálogo entre alta-costura, transparência, renda, bordados em vidrilhos e cristais. Já Apartamento 03 apostou em paletó adamascado, pantalona, franjas em rolotê e sobreposições de flores e folhas de tecido, ampliando a ideia de uma moda brasileira que valoriza superfície, textura e construção artesanal.
Segundo Elisabete Bohemio Baccelli, essas propostas mostram que o artesanal não está preso a uma única estética. “O feito à mão pode ser romântico, urbano, sofisticado, sensual ou experimental. A força está justamente nessa pluralidade. O Rio Fashion Week mostrou que o artesanal brasileiro pode dialogar com diferentes públicos e diferentes momentos de consumo”, comenta.
A Adidas levou para a passarela uma leitura esportiva e experimental, com vestido construído a partir da sobreposição de peças, denim e babados de tule. A presença da marca amplia a discussão sobre sportswear, sustentabilidade e reconstrução de peças, conectando moda esportiva a linguagem de passarela.
A Misci apareceu com assimetrias, pastilhas aplicadas, calças amplas e óculos com franjas, enquanto Argalji trabalhou cores fortes, fluidez, volumes e drapeados. Essas marcas reforçam a diversidade estética do evento, que não se limitou a uma visão única de verão ou de brasilidade.
A Isabela Capeto também se destacou com aplicações florais, vestidos longos e delicadeza artesanal. Sua presença reforçou a importância de marcas autorais que mantêm uma assinatura reconhecível, baseada em afeto, cor, trabalho manual e feminilidade.
Já Lucas Leão explorou pétalas de tecido, corsellet e alfaiataria masculina, enquanto Dendezeiro levou amplidão, aplicações e jogo de tons para a passarela. Essas apresentações reforçam a força de uma nova geração de criadores que pensa moda brasileira de forma diversa, urbana e conectada a identidade.
O evento também teve importância para além da passarela. Ao reunir público, marcas, ativações, debates e negócios, o Rio Fashion Week funcionou como plataforma de relacionamento para a indústria. Em uma cadeia que envolve criação, produção, comunicação, varejo, compradores, imprensa e consumidores, eventos desse porte ajudam a movimentar o mercado e gerar novas conexões.
Para Elisabete Bohemio Baccelli, a continuidade do evento será decisiva para seu fortalecimento. “Uma semana de moda não se consolida apenas com uma boa edição. Ela precisa de calendário, consistência, curadoria, presença de compradores, imprensa e diálogo com a cidade. O fato de a segunda edição já estar marcada para abril de 2027 é um sinal importante de continuidade”, avalia.
A escolha do Rio como território da Primavera/Verão pode ser estratégica também para o turismo, para a economia criativa e para a valorização da imagem da cidade. O Rio possui uma relação histórica com moda praia, música, corpo, natureza, lifestyle e visualidade. Quando esses elementos são organizados dentro de uma plataforma profissional, podem fortalecer a percepção da cidade como polo de moda e comportamento.
Ao mesmo tempo, o desafio será transformar visibilidade em negócios consistentes. Para que o Rio Fashion Week cresça, será importante atrair compradores nacionais e internacionais, ampliar oportunidades comerciais para marcas participantes, fortalecer showroom, rodadas de negócios e estratégias de exportação.
Segundo Elisabete Bohemio Baccelli, esse é o próximo passo natural. “O desfile cria imagem, mas a indústria precisa também de negócio. O Rio Fashion Week tem potencial para ser vitrine criativa e plataforma comercial. Para isso, precisa conectar passarela, compradores, varejo, imprensa e consumidor final de forma estratégica”, afirma.
A primeira edição também reforçou que a moda brasileira não precisa seguir uma única narrativa para ser forte. O evento reuniu beachwear, sportswear, alfaiataria, artesanal, couro, transparência, moda masculina, moda feminina, sustentabilidade, fluidez, volume e experimentação. Essa diversidade é parte da própria identidade nacional.
Mais do que buscar uma tendência única, o Rio Fashion Week mostrou um panorama de possibilidades. A moda brasileira aparece como múltipla, feita de contrastes, técnicas e influências regionais. O denominador comum não está em uma cor ou em uma silhueta específica, mas na busca por autenticidade.
Para Elisabete Bohemio Baccelli, esse é um ponto fundamental. “A moda brasileira ganha força quando não tenta imitar fórmulas externas. O handmade, a moda praia, os materiais locais, a leveza, a sensualidade, a cor e a mistura de referências são ativos culturais importantes. O Rio Fashion Week pode ajudar a organizar e projetar essa identidade”, conclui.
Com segunda edição marcada para abril de 2027, o evento encerra sua estreia com a missão de manter o ritmo e ampliar sua relevância. O primeiro passo foi dado: reunir marcas diversas, atrair público, movimentar o calendário e afirmar o Rio como palco da Primavera/Verão. Agora, o desafio é transformar esse início em uma plataforma permanente, capaz de fortalecer a moda brasileira dentro e fora do país.
