
Chefia da Polícia Federal no estado é, desde agosto do ano passado, motivo de embate entre o presidente e Moro, que acusa o presidente de tentar interferir nas investigações da instituição. Superintendência da PF fica no Centro do Rio
Carlos Brito/G1
A Superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro emergiu como pivô do conflito entre o presidente da República, Jair Bolsonaro, e o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro.
Em depoimento prestado no sábado (2), na sede da PF em Curitiba, Moro disse ter recebido uma mensagem de Bolsonaro na qual o presidente afirmava expressamente que “queria” a Superintendência da PF no RJ sob sua influência.
Veja os principais pontos do depoimento de Moro à PF
O ex-juiz federal depôs no âmbito de inquérito que investiga a acusação feita pelo próprio Moro, ao anunciar a saída do ministério, de que Bolsonaro tentou interferir politicamente nas investigações da PF. O depoimento demorou mais de 8 horas.
Cronologia
20 de abril de 2018 – Saadi assume a PF no RJ
Ricardo Saadi assumiu a Superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro ainda no governo do ex-presidente Michel Temer. Ele prometeu que o foco das ações no estado seria o combate à corrupção e a crimes transnacionais.
1º de novembro de 2018 – Bolsonaro promete ‘carta-branca’ a Moro
Eleito presidente, Bolsonaro afirmou ter concordado “100%” com os pedidos de Moro para assumir o Ministério da Justiça, entre os quais “liberdade total” para combater a corrupção e o crime organizado – a promessa de “carta-branca”.
20 de novembro de 2018 – Moro anuncia Valeixo para diretor-geral da PF
Antes mesmo de assumir o ministério, Moro anunciou o delegado Maurício Valeixo para ser o novo diretor-geral da Polícia Federal (PF). Na época, Valeixo era superintendente da PF no Paraná.
16 de agosto de 2019 – Polêmica na nomeação de Carlos Henrique Oliveira Sousa
Um ano e quatro meses após ter assumido a PF no RJ – já no governo de Jair Bolsonaro –, Ricardo Saadi deixou o cargo de superintendente, que passou a ser ocupado pelo também delegado federal Carlos Henrique Oliveira Sousa.
Bolsonaro alegou “problemas de produtividade” na gestão de Saadi. O presidente chegou a anunciar o nome de um substituto: Alexandre Saraiva, então superintendente no Amazonas. No fim, o cargo acabou sendo ocupado por Oliveira Sousa, então superintendente da PF em Pernambuco.
No mesmo dia da declaração, a PF divulgou nota afirmando que a troca de Saadi não era relacionada a “problemas de produtividade”, e sim a um pedido dele.
17 de agosto de 2019 – Delegados ameaçam deixar postos
Os conflitos envolvendo a Superintendência do RJ reverberaram na corporação. O G1 revelou que três superintendentes ameaçaram sair dos cargos depois da suposta tentativa de intervenção de Bolsonaro na chefia do RJ.
Os delegados entregariam os postos nos estados caso o presidente não recuasse da ideia de intervir na Superintendência no RJ, indicando alguém que fosse de sua “confiança”.
28 de agosto de 2019 – Saadi é enviado para o exterior
Após a polêmica saída, Ricardo Saadi foi enviado para trabalhar no exterior, na Holanda. A decisão partiu da cúpula da Polícia Federal. A TV Globo apurou que Saadi queria ficar em Brasília, próximo da família, e manifestou isso à direção da PF. Mas, devido à polêmica com o presidente, a decisão foi a de mandá-lo fora do país.
8 de outubro de 2019 – Saadi é nomeado para comandar combate à lavagem de dinheiro
Dois meses depois de deixar a Superintendência do RJ, Ricardo Saadi voltou ao Brasil e foi nomeado para chefiar o serviço de Repressão à Lavagem de Dinheiro, setor dentro da Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado, em Brasília. A nomeação do delegado para o cargo foi comemorada por superintendentes nos estados e integrantes da alta cúpula da corporação.
24 de abril de 2020 – Valeixo é exonerado por Bolsonaro
Para a surpresa de Sérgio Moro, Bolsonaro exonerou Valeixo do cargo de diretor-geral da PF. O decreto registrando a saída do delegado dizia que a saída tinha ocorrido “a pedido” – informação retificada em publicação posterior. Inicialmente, a exoneração também estava assinada por Moro, que depois negou ter subscrito o documento.
24 de abril de 2020 – Valeixo sai e Sérgio Moro anuncia demissão
Após a publicação no Diário Oficial da saída de Valeixo, Sergio Moro anunciou que deixaria o governo. O ex-juiz federal se demitiu da pasta após um ano e quatro meses no primeiro escalão de Jair Bolsonaro alegando que o presidente queria interferir na Polícia Federal.
24 de abril de 2020 – Fontes indicam Alexandre Ramagem como diretor-geral
No mesmo dia em que saiu Valeixo, fontes no Palácio do Planalto apontaram o delegado federal Alexandre Ramagem, até então diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), como nome escolhido por Bolsonaro para ser diretor-geral da PF.
Ramagem foi segurança do presidente durante a campanha eleitoral, posto que assumiu após o atentado a faca contra Bolsonaro. O delegado é considerado amigo da família do presidente.
29 de abril de 2020 – Nomeação de Ramagem é suspensa pelo STF
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu a nomeação de Ramagem para a diretoria-geral da PF. A decisão provisória foi tomada em ação movida pelo PDT.
Moraes citou as alegações de Moro no dia da demissão e afirmou haver indício de desvio de finalidade na escolha de Ramagem.
29 de abril de 2020 – Governo procura outro diretor para a PF
Jair Bolsonaro tornou sem efeito o decreto nomeando Alexandre Ramagem como diretor-geral da Polícia Federal. O governo, então, saiu em busca de outro nome para a chefia da instituição.
30 de abril de 2020 – Bolsonaro diz que decisão de Moraes foi ‘política’
Na porta do Palácio da Alvorada, Bolsonaro comentou a suspensão de Ramagem para o comando da Polícia Federal dizendo que a decisão do ministro Alexandre de Moraes foi “política”.
4 de maio de 2020 – Rolando de Souza é nomeado diretor-geral da PF
Em um intervalo de uma hora, o presidente nomeou e deu posse ao delegado Rolando de Souza como novo diretor-geral da PF. Desde setembro de 2019, Souza ocupava o cargo de secretário de Planejamento e Gestão da Abin, onde chegou por indicação de Alexandre Ramagem.
4 de maio de 2020 – Novo diretor-geral da PF determina troca no RJ
Recém-empossado, o novo diretor-geral da PF, Rolando de Souza, decidiu que vai trocar o superintendente da instituição no Rio de Janeiro, Carlos Henrique Oliveira Sousa. O superintendente deixará o RJ para ir para o posto n° 2 da Polícia Federal.
5 de maio de 2020 – Bolsonaro confirma que Oliveira Sousa será promovido
O presidente Jair Bolsonaro confirmou que o superintendente da PF no RJ, Carlos Henrique Oliveira Sousa, estava deixando o cargo e acrescentou que o delegado havia sido “promovido”. Ao sair da superintendência e assumir a diretoria-executiva da PF, Oliveira deixaria a linha de frente das investigações.
5 de maio de 2020 – Bolsonaro não responde perguntas sobre PF no RJ
Questionado sobre a troca na Superintendência da PF no RJ, Bolsonaro não respondeu.
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