
Vídeo mostra Wellington Luiz sentado, em frente a supermercado, quando militares batem nele durante abordagem. Secretaria de Segurança diz que acompanha investigação; PMDF afirma que policiais foram afastados das ruas. Homem agredido por PMS em Planaltina passa por exame de corpo de delito
O homem negro, de 30 anos, agredido por policiais militares em Brasília disse, nesta quarta-feira (3), que pensou que ia morrer. A agressão aconteceu na noite de segunda (1º), em frente a um supermercado na região de Planaltina (veja vídeo acima).
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“Na saída do mercado eu fui abordado por estes PMs que me enquadraram e me revistaram”, disse Wellington Luiz Maganha. O homem, que trabalha como vendedor ambulante, explicou que não tinha nada nos bolsos, a não ser um documento.
“Durante a revista, começaram a me agredir. Soco na costela, cassetete. Caí no chão, tacaram pedra e spray de pimenta na cara. Naquele momento, eu só achava que ia morrer.”
Homem agredido por PMs em Planaltina
TV Globo/Reprodução
A Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal disse que acompanha as investigações. Segundo a pasta, “as atitudes dos militares em nada correspondem às diretrizes de abordagem e conduta preconizadas pela corporação”.
Em nota, a Polícia Militar do DF informou que o caso “é um fato isolado” e que será apurado pela corregedoria da corporação. Segundo a corporação, os policiais foram afastados das ruas (veja mais abaixo).
Nesta manhã, Wellington Luiz passou por exame de corpo de delito no Instituto de Medicina Legal (IML). O laudo vai confirmar a gravidade das agressões, há suspeita de uma lesão na clavícula e as costas do ambulante estão marcadas.
“A gente não merece, é cidadão trabalhador. A gente não merece ser esculachado por quem deveria proteger a gente.”
Agressões gravadas
Policial militar do DF é flagrado ao agredir homem negro com cassetete
As imagens das agressões foram gravadas por um jovem, que estava no local (veja vídeo acima). Ele prestou depoimento à Polícia Civil e confirmou que o vendedor ambulante foi chutado e espancado com cassetetes durante a abordagem.
Segundo o rapaz, eram entre 21h30 e 22h de segunda-feira. Nas imagens, é possível ver que Wellington não resistiu na hora da abordagem, mas tentou fugir das agressões.
“Eu não fiz nada de errado, senhor. Eu não fiz nada de errado. Vai embora, vai embora. Ai, ai, ai, ai, ai”, diz a vítima enquanto leva golpes de cassetetes.
Ao final da gravação, o mesmo policial que estava com o cassetete pega algo do chão e arremessa contra a vítima. O vendedor ambulante, então, atravessou a pista correndo.
‘Se fosse um playboy, seria diferente’
Wellington Luiz, de 30 anos foi agredido por PMs em Planaltina, no DF
TV Globo/Reprodução
Wellington Luiz conta que mora em Planaltina há quatro anos, quando chegou de Niterói, no Rio de Janeiro. Ele diz não ter dúvidas de que foi vítima de racismo.
“Se fosse um playboy, um da raça branca, com todo respeito, eu acredito que o tratamento seria diferente.”
O vendedor ambulante afirma que só pede justiça. O advogado dele, Anderson Tiago Campos, disse que vai acionar a Ordem de Advogados do Brasil no Distrito Federal (OAB-DF) e pedir indenização do estado por abuso policial e racismo.
“O Wellington não estava armando, não tinha cometido nenhuma irregularidade e ainda que tivesse cometido uma irregularidade, nada justifica uma abordagem policial nos moldes da que foi realizada.”
O advogado também aponta que se trata de uma questão racial. “Se fosse uma pessoa branca, de olhos azuis, talvez a realidade da abordagem fosse diferente. Nós vamos tomar as medidas cabíveis para fazer justiça a esse caso concreto”, afirma Anderson.
O que diz a PM
Em nota, a Polícia Militar do DF disse que não compactua com desvio de conduta na corporação. No texto, enviado à reportagem, a PM diz que “não se trata de racismo”.
“Somos uma instituição bicentenária multiétnica e consciente de suas responsabilidades junto à sociedade. Os policiais do vídeo estão na Corregedoria e nada será impune aos rigores da lei.”
De acordo com a PM, os dois envolvidos na agressão e as testemunhas foram ouvidos ainda na terça-feira (2).
Quebra de protocolo
Para o especialista em segurança Leonardo Sant’anna, houve abuso. Ele diz que a abordagem verificada nas imagens não faz parte de protocolos das forças de segurança nacionais e internacionais.
“Esse tipo de comportamento é repudiado e para conhecimento de todos da população ele não faz parte de qualquer protocolo ou norma vinculada às organizações policiais nacionais ou internacionais, quando se trata de uma prisão onde não haja resistência vinda de pessoas desarmadas e que não ofereça recusa pra sua detenção”, explicou.
A Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa do DF (CLDF) enviou um pedido de investigação à Corregedoria da Polícia Militar.
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