População da comunidade fez abaixo-assinado para impedir instalação do equipamento na igreja. Parlamentares pedem explicações para a Secretaria de Saúde. O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) informou nesta terça-feira (5) que irá analisar a decisão do prefeito Marcelo Crivella de instalar um tomógrafo nas dependências da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) em São Conrado, na Zona Sul do Rio.
A medida da prefeitura causou críticas entre moradores da Rocinha porque, segundo eles, a promessa anterior era a instalação do equipamento dentro da comunidade.
“Eu não acreditei, fiquei abismado. Já estava prometido, vieram os técnicos na UPA fazer vistoria. Viram o local e, de um dia para o outro, foi mudado o espaço onde seria instalado o tomógrafo”, afirmou o designer e morador da favela da Rocinha, Denis Neves.
Tomógrafo da prefeitura para moradores da Rocinha está sendo montado em área particular
“Vai contra todos os preceitos da democracia. Tem um prédio da prefeitura em frente à igreja, na mesma rua. Não faz o menor sentido colocar o tomógrafo dentro de um curral eleitoral dele [Marcelo Crivella], em ano de eleição”, completou Neves.
Ainda segundo os moradores, o espaço escolhido por Crivella não é “estratégico” para a população. O prefeito afirmou que o local foi escolhido porque fica próximo ao metrô, mas o assistente social Leandro Castro disse que o espaço é fora da comunidade.
“Ali não é estratégico para os moradores. A igreja onde o aparelho está sendo instalado não é nem na Rocinha, é em São Conrado. Como um morador com mais idade vai descer até lá para fazer o exame? Não contempla os moradores em nenhum sentido”, disse Leandro.
De acordo com o MPRJ, a prefeitura poderá ser responsabilizada caso alguma irregularidade seja encontrada. O caso está sendo analisado pela 3ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Defesa da Cidadania da Capital.
Moradores fazem abaixo-assinado
Os moradores se mobilizaram e fizeram um abaixo-assinado para tentar impedir que o tomógrafo seja instalado nas dependências da igreja. Segundo eles, a medida é uma ação “eleitoreira” de Marcelo Crivella.
“Está rolando um abaixo-assinado e eu já assinei. A gente que mora na favela, a gente está ciente de como os políticos, de uma forma geral, tratam os moradores. O clientelismo político faz parte do nosso país sobretudo para lidar com população da favela. Esse é o momento dos moradores reivindicarem os nossos direitos. Se os moradores não querem o tomógrafo ali, o prefeito deveria atender o pedido deles. A gente precisa ser mais ouvido”, disse Leandro Castro.
“A Rocinha teve um ‘panelaço’ contra essa decisão. Fora o ‘panelaço’, fora as redes sociais, fora o abaixo-assinado, temos uma decisão certeira do MPRJ. As instituições públicas têm que funcionar para evitar essas arbitrariedades. Nos sentimos enganados quando ele toma uma decisão totalmente contraria ao desejo da população. A prefeitura precisa ouvir a população, é o mínimo”, completou Denis Neves.
Parlamentares pedem explicações
Os vereadores Paulo Pinheiro e Tarcísio Motta (Psol) enviaram um ofício à Secretaria Municipal de Saúde pedindo explicações sobre os impeditivos para instalar o equipamento na comunidade da Rocinha. Além disso, os parlamentares entraram com uma representação no Ministério Público sobre o caso.
“A administração pública tem princípios que precisam ser respeitados, o dinheiro público não pode ser usado para benefícios privados. Por isso, a prefeitura precisa se explicar por que está instalando um tomógrafo público, com dinheiro público, no estacionamento de uma Igreja Universal. No caso da Rocinha, há a possibilidade de instalação em espaços públicos muito próximos, como o Centro Rinaldo de Lamare, onde tem uma Clínica da Família, há a UPA, o CIEP Bento Rubião”, afirmou o líder do Psol na Câmara dos Vereadores, Tarcísio Motta.
“Fizemos uma representação ao MP para obrigar a prefeitura a dar essa explicação e para que haja investigação se houve desvio de recursos públicos ou de finalidade da política pública. Isso se aplicaria no uso da prefeitura em qualquer espaço privado, mas a gravidade aumenta por que a Universal é a igreja da qual o prefeito faz parte, da qual é bispo licenciado”, completou o vereador.
O que diz a prefeitura
Procurada pelo G1, a Prefeitura do Rio afirmou que o tomógrafo que está sendo montado no estacionamento da igreja é uma instalação provisória, que ficará pronta no início da próxima semana. Segundo a administração municipal, o objetivo é atender a região nesse período de pandemia, quando o diagnóstico rápido é fundamental para salvar vidas.
Ainda de acordo com a prefeitura, os “tomógrafos serão direcionados a unidades de saúde do município, em caráter permanente” após a pandemia. O critério de escolha dos locais para montagem dos tomógrafos levou em consideração a infraestrutura para instalação rápida dos equipamentos e a proximidade do metrô.
“Esses tomógrafos são o que há de mais avançado e que identificam a Covid-19 logo em seu início, possibilitando o tratamento e a recuperação mais rapidamente. Na Rocinha, por exemplo, instalamos em um terreno de uma igreja justamente para agilizar a instalação e o início do funcionamento. Depois, eles vão todos para as nossas unidades de saúde. Mas aquele local está com adaptação mais fácil e próximo ao metrô. Se fôssemos instalar no alto da Rocinha, demoraria muito e menos pessoas iriam aproveitar”, disse Crivella.
Initial plugin text
Sem categoria
