Um dia após o presidente Jair Bolsonaro fazer ameaças contra o que chama de interferências do Judiciário em seu governo, os militares avaliaram que o chefe do Executivo não compreendeu a posição das Forças Armadas sobre o atual momento político do país.
Segundo interlocutores da cúpula militar do governo e de comandantes das Forças Armadas, os militares disseram a Bolsonaro que concordam com as críticas feitas por ele ao que também classificam de “interferência indevida” de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em atos presidenciais.
Tal posicionamento foi externado a Bolsonaro durante reunião no último sábado (2) no Palácio da Alvorada, quando os militares concordaram que a independência dos Poderes não estaria sendo respeitada, com a revogação de decisões exclusivas do presidente.
Os militares fizeram referência às decisões do ministro Alexandre de Moraes de barrar a posse do delegado Alexandre Ramagem como diretor-geral da Polícia Federal, e do ministro Luís Roberto Barroso, que suspendeu ordem do Itamaraty de expulsar diplomatas venezuelanos do Brasil.
Em nenhum momento, porém, os militares teriam sinalizado ao presidente que estariam ao lado dele na adoção de “atos de força” contra decisões do STF.
Segundo um interlocutor dos militares, o presidente acabou se sentindo erroneamente “autorizado” a dizer que as Forças Armadas estão do lado dele quando fez ameaças contra os outros Poderes.
“O que os militares disseram é que concordam com as críticas à interferência do Judiciário no Executivo. Mas, para eles, o caminho é o das instituições, recorrer contra as decisões do Supremo. Jamais usar medidas de força”, afirmou um interlocutor dos militares ao blog.
Neste domingo (3), ao participar de manifestações antidemocráticas e inconstitucionais, Bolsonaro disse que “as Forças Armadas, ao lado da lei, da ordem, da democracia, da liberdade e da verdade, também estão ao nosso lado” (veja no vídeo abaixo).
Bolsonaro participa de manifestação antidemocrática e inconstitucional no domingo (3)
Em seguida, fez uma fala em tom de ameaça: “Quanto aos algozes, peço a Deus que não tenham problemas essa semana, porque chegamos ao limite. Não tem mais conversa. Daqui para a frente, não só exigiremos, faremos cumprir a Constituição. Será cumprida a qualquer preço”.
Para os militares, o melhor caminho é o da negociação. No STF, avaliam, o melhor canal é o presidente da Corte, Dias Toffoli, que já teve como seu assessor o atual ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva.
Ressaltam que o caminho deve ser por vias institucionais, como recorrer das decisões e criticá-las, mas jamais dizer que a Constituição será cumprida a qualquer preço. Segundo os militares, não há possibilidade de embarcarem numa aventura, porque, para eles, a solução está na Constituição.
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