Família de homem morto com Covid-19 no RJ leva 2 dias para conseguir enterrar o corpo

Prefeitura de São Gonçalo alegou que os óbitos por Covid-19 estão sendo todos sepultados no mesmo dia da morte, no mesmo cemitério. Em São Gonçalo, faltam vagas nos hospitais e nos cemitérios do município
Na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a família de um homem morto após contrair Covid-19 viveu um drama duplo: negligência no atendimento e falta de um lugar para enterrar o parente.
O corpo de Thales Alves Salles, de 44 anos, só foi enterrado dois dias após ele morrer. O sepultamento foi silencioso, rápido, sem velório e com caixão lacrado. Apenas duas pessoas foram à cerimônia. Tudo conforme as regras da Agência Nacional de Vigilância Sanitária para mortos pelo novo coronavírus.
A luta da família de Thales começou no sábado (9), quando o motorista de ônibus procurou a Unidade de Pronto Atendimento da Nova Cidade, em São Gonçalo, com sintomas da doença. Não foi atendido de forma adequada e, ainda no sábado, foi à policlínica no Largo da Batalha, em Niterói.
Segundo Rachel, prima de Thales, a oxigenação dele já estava baixa e continuava a cair.
“[Ele] Chegou lá com a saturação de oxigênio a 83%. No domingo de manhã já tava 75%, e foi onde eu corri para o hospital pra poder buscar um laudo médico, porque eu fiquei sabendo que existia uma fila de espera e relação à transferência para um hospital que tivesse UTI”, explicou a prima.
Também no domingo, Rachel conseguiu que a Justiça expedisse uma decisão urgente determinando a transferência do primo para uma unidade de terapia intensiva. Mas não deu tempo. Thales, diabético e hipertenso, morreu no mesmo dia, à noite.
“Infelizmente, não conseguimos a tempo a transferência. Ele veio a óbito na noite do domingo e a partir daí começou o meu segundo pesadelo”, desabafou a mulher.
O corpo de Thales foi embalado, mas a policlínica avisou que não havia geladeira na unidade de saúde e que o ar condicionado não estava funcionando direito. Por isso, foi informado pela administração que a família precisava retirar o corpo de lá.
A funerária comunicou que só faria a retirada se fosse possível levar diretamente para algum cemitério, mas em São Gonçalo estão todos lotados. Só nesta terça-feira (12), dois dias depois, a prima de Thales encontrou um jazigo de outro parente e então o homem foi, finalmente, enterrado.
“Esse parente nosso tem um jazigo, aqui no Cemitério São Miguel, e só assim eu consegui enterrar o meu primo hoje, dia 12 de maio, às 14 horas. Ou seja, estou desde domingo às onze e meia correndo atrás pra poder enterrar o meu primo. Domingo, dia 10 de maio, às onze e meia da noite, só consegui fazer o enterro dele agora, dia 12 de maio, às 14 horas”, desabafou a prima.
Thales era solteiro, sem filhos e morava com a mãe. Dona Zely, de 82 anos, não pôde ir ao enterro do filho porque está em casa, também com sintomas de Covid-19. A família vive a dor da perda e a preocupação.
Ao RJ2, a direção da UPA Nova Cidade disse que vai abrir uma sindicância para analisar todos os atos tomados pelos profissionais que atenderam Thales.
A Prefeitura de São Gonçalo alegou que os óbitos por Covid-19 estão sendo todos sepultados no mesmo dia da morte, no Cemitério Pacheco, conforme recomendação do Ministério da Saúde. O município informou que a administração funerária só foi procurada pela família nesta terça.
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By Negócio em Alta