
Declaração de pandemia pela OMS ocorreu em 11 de março. Após anúncio, maior número de brasileiros regressos do exterior foi registrado em 15 de março. Apenas 3 das 10 embaixadas nos países mais visitados por brasileiros recomendaram antecipação do retorno. Itamaraty afirma que não há ‘recomendação unificada’, já que cada país tem condições diferentes. Dados obtidos pelo G1 por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que o número de brasileiros regressos do exterior despencou de 21.352 em 15 de março (quatro dias após a declaração de pandemia) para 1.732 em 29 de março – ou seja, em apenas duas semanas. Isso representa uma queda de 91,9% na quantidade de brasileiros que voltaram ao Brasil. Os números são do Departamento da Polícia Federal.
15 de março foi o terceiro dia do mês em que mais brasileiros voltaram do exterior. Os maiores números são registrados em 1º e 2 de março, domingo e segunda-feira seguintes à semana de Carnaval.
O mês de março de 2020 ficou marcado pela declaração de pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS), pelo cancelamento de voos e vistos, pelo fechamento de fronteiras e aeroportos e também pela restrição da entrada de estrangeiros.
Volta de brasileiros que estavam no exterior em março de 2020: dados mostram o retorno de brasileiros do exterior no mês da declaração da pandemia da Covid-19
Cido Gonçalves/G1
Parte dos brasileiros, pega de surpresa no exterior, não conseguiu antecipar a passagem de volta ou não tinha dinheiro para comprar uma nova passagem. A quantidade de voos comerciais foi bruscamente reduzida em poucos dias.
O G1 já mostrou a historia de brasileiros que ficaram presos na Turquia, em El Salvador, na Costa do Marfim, na Namíbia, na Índia, no Nepal, no Bahrein, na Arábia Saudita, na Tailândia, no Camboja, no Laos, nas Filipinas, na Indonésia, na Argentina, no Caribe, na República Dominicana, no México, na África do Sul, no Peru, na Venezuela, na Itália, em Portugal, entre outros.
“O nosso hostel não queria aceitar que fizéssemos reserva pela internet. Pelo site pagaríamos com cartão, era uma maneira de guardar dinheiro para comer. O cara expulsou a gente na maior: ‘Sem dinheiro, sem hospedagem’”, contou o casal Joice Pacheco e Francisco Junior, que ficou preso em Siem Reap, no Camboja, durante a pandemia da Covid-19.
Em nota, o Itamaraty diz que ajudou no retorno de quase 16 mil brasileiros, que fizeram contato com as representações do Brasil no exterior. Até o momento, o governo gastou R$ 43,9 milhões com fretamento de aeronaves, compra de passagens aéreas, entre outros. Cerca de 3,7 mil brasileiros ainda estão retidos no exterior e aguardam a repatriação, segundo o Itamaraty.
Um levantamento do G1 identificou que apenas as embaixadas do Brasil no México, na Espanha e na França recomendaram a antecipação da volta e também destacaram a redução da oferta de voos comerciais nos sites oficiais. A análise considera o ranking dos 10 países mais visitados por brasileiros, segundo o Ministério do Turismo.
Em nota, o Itamaraty afirma que “as recomendações de embaixadas e consulados ao redor do mundo variaram de acordo com a evolução das normativas e avisos dos governos locais”.
“Não se pode falar em recomendação unificada, uma vez que as condições apresentavam – e continuam apresentando – diferenças entre países e regiões, que precisam ser levadas em conta por cada representação diplomática e consular”, diz o texto.
Posicionamentos oficiais
O professor de relações internacionais da PUC-Rio Kai Michael Kenkel diz que as posturas do presidente Jair Bolsonaro e do ministro Ernesto Araújo (Relações Exteriores) podem ter contribuído para os brasileiros não terem noção da gravidade da situação e não anteciparem o retorno.
“[Jair] Bolsonaro ou [Ernesto] Araújo tem que falar que é para ficar em casa. Mas eles não assumem responsabilidade dizendo ‘fiquem em casa’. Na mesma linha, eles não falaram para os brasileiros que estavam no exterior voltarem”.
Segundo ele, as ações de repatriação têm sido bem sucedidas e demandam um grande esforço dos diplomatas brasileiros. O professor afirma ainda que o Brasil enfrenta uma desvantagem em não ter uma empresa aérea internacional brasileira, como a Lufthansa na Alemanha e a AirFrance na França.
“A rede diplomática do Brasil não alcança todos os países do mundo e nem todos os brasileiros têm os recursos para arcar com os custos. 95% dos voos comerciais estão cancelados no momento, e o Brasil não tem linha aérea de bandeira com uma rede ampla para ajudar com um esforço nacional neste momento”, destaca o professor da PUC-Rio.
Kenkel afirma ainda que o “corpo diplomático” do Brasil é competente e dedicado, apesar de “presidente e chanceler serem ineptos”. “Faltou uma voz clara e única no governo. O presidente da República e o próprio chanceler estavam engajados em negacionismo e teorias de conspiração com pouco fundamento na realidade. É preciso uma única voz reforçando a necessidade de manter o distanciamento social, de levar a pandemia a sério e de tomar medidas de proteção.”
Para ele, as atitudes do governo brasileiro causam grande dano à imagem do país e também aumentam o número de mortes pelo novo coronavírus. Segundo ele, os brasileiros que estão no exterior devem refletir se desejam mesmo voltar ao Brasil neste momento, “com hospitais sobrecarregados” e “fracas medidas de isolamento”.
O professor de relações internacionais lembra ainda que as embaixadas de países como Itália, EUA e Alemanha já publicaram comunicados em que recomendam o retorno de seus cidadãos que estão no Brasil. “O Brasil deveria estar fazendo isolamento social, mas está fazendo isolamento diplomático.”
Brasileiros tentam voltar ao país após fronteiras fecharem: ‘A gente passa frio, fome’
Jornalista volta de viagem ao exterior e não encontra inspeção no Aeroporto de Guarulhos
Sem categoria
