
Na capital do estado, 18,9 mil casos confirmados da doença e 1,3 mortos em decorrência da Covid-19. Manaus foi a capital mais atingida pela Covid-19 no Brasil, diz estudo da Fiocruz
Estudo da Fiocruz Amazônia aponta que a gravidade da epidemia de Covid-19 em Manaus e o elevado número de mortalidade tem reflexo da grande desigualdade social e fragilidade dos serviços de saúde na cidade. Na capital do estado, 18,9 mil casos confirmados da doença e 1,3 mortos em decorrência da Covid-19.
O estudo da Fiocruz utilizou dados de mortalidade disponíveis na Central de Informações do Registro Civil (CRC) Nacional e do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), durante a 11ª e a 16ª semana epidemiológica (período de 15 de março a 25 de abril de 2020).
Conforme os dados dados, de 15 a 23 de março, antes do primeiro caso registrado na cidade, 215 pessoas morreram em Manaus. No mesmo período do ano passado, o número de mortes foi de 205.
Já no período de 19 a 25 abril, na 16ª semana da pandemia, quando a cidade se tornou o epicentro da doença no Amazonas, foram 915 mortes registradas, contra 215 na mesma semana de 2019, um aumento de 350%. Nesse período, as mortes em casa saltaram de 33 para 268.
Outras capitais duramente atingidas, como São Paulo, Fortaleza e Rio de Janeiro tiveram aumento que variou de 28% a 62% no mesmo período, segundo o estudo.
São Paulo – aumento de 28%
Fortaleza – aumento de 40%
Rio de Janeiro – aumento de 62%
“Nós temos outros relatos de situações igualmente graves, como em Guaiaquil, no Equador. Como algumas cidades da Itália, Nova York, nos Estados Unidos. Mas nada parecido com o que foi visto em Manaus”, analisa Jesem Orellana, epidemiologista da Fiocruz.
Orellana afirma que é possível estimar o impacto da epidemia em Manaus indiretamente a partir do indicador de mortalidade geral, que avalia o excesso de óbitos ou o número de mortes não esperadas na população. Para ele, há precariedade na estrutura laboratorial da cidade.
“O que aconteceu na cidade de Manaus foi, basicamente, por uma precariedade muito grande da infraestrutura laboratorial, ou seja, da capacidade diagnóstica do município e da precária organização do sistema de vigilância epidemiológica municipal, estadual e sobretudo da rede hospitalar, que não estava preparada no momento para receber um quantitativo tão grande de pacientes graves com insuficiência respiratória, motivo pelo qual muitas pessoas morreram em casa e sequer tiveram o acesso a internação hospitalar, suporte ventilatório e UTI”, disse à Rede Amazônica.
Entre abril, a taxa de ocupação de leitos de UTI chegou a 95% e levou os governos federal e estadual a mobilizar verbas, equipamentos, profissionais e a abrir novos hospitais em regime de emergência para tentar impedir o colapso total do sistema de saúde.
CAOS NO SISTEMA DE SAÚDE: Frigoríficos são instalados em cemitério de Manaus para comportar caixões; vídeos mostram fila de carros funerários
De acordo com o estudo, além da Covid-19, outras possíveis causas de mortes foram consideradas pela CRC, como síndrome respiratória aguda grave (SRAG); pneumonia; septicemia; e insuficiência respiratória. Os óbitos não classificados em nenhuma dessas condições foram incluídos na categoria “demais causas”. Por fim, as mortes “indeterminadas” que representaram menos de 1% da amostra avaliada e não foram apresentadas separadamente.
A análise cita que há uma similaridade entre o total de óbitos registrados em 2019 e 2018, ao longo das semanas selecionadas em março e abril. No entanto, na comparação entre o total de óbitos de 2020 e 2019, há “um excesso de mortalidade” a partir da 14ª semana epidemiológica de 2020 e uma “explosão” na 16ª semana com o número de óbitos 200% maior do que o observado em 2019.
O aumento de mortes a partir da 14ª semana, segundo a pesquisa, ocorreu aproximadamente 15 dias após a confirmação dos 30 primeiros casos de Covid-19 em Manaus. Já o aumento do número de mortes na 16ª semana, coincidiu com o colapso da rede pública hospitalar, gerando um aumento três vezes maior de sepultamentos diários.
Nesse período, as mortes em casa e em via pública também aumentaram, bem como os casos de Covid-19 nos municípios do interior.
“Esse conjunto de acontecimentos resultou, provavelmente, de uma grande aceleração da epidemia em Manaus nas semanas anteriores, contribuindo para a consolidação de uma crise sociossanitária sem precedentes”, diz a Fiocruz.
Segundo a Prefeitura de Manaus, abril teve média de 90 sepultamentos por dia. Em maio, foi de 80. Antes da pandemia, eram 30 enterros diários.
Ainda segundo dados da Prefeitura, em todo o mês de abril, os cemitérios públicos registraram 2.435 sepultamentos e cremações, enquanto que em maio foram 1.899. Apesar da redução de sepultamentos e cremações, os óbitos registrados tendo como causa a Covid-19 tiveram um crescimento de 83,1%, saindo de 190, em abril, para 348 no mês de maio.
Diante do aumento de mortes, medidas mais extremas tiveram que ser adotadas no maior cemitério público da capital: caixões são enterrados em valas comuns, caixões foram enterrados empilhados – medida cancelada após revolta de familiares – e instalação de contêineres frigoríficos para comportar corpos que aguardam o enterro.
Coveiros colocam caixões de vítimas do novo coronavírus em vala comum no cemitério Parque Taruma, em Manaus
Bruno Kelly/Reuters
Reabertura gradual do comércio
Em Manaus, houve reabertura de parte do comércio. O Governo do Amazonas determinou o retorno de atividades em quatro ciclos. O primeiro começou na segunda-feira (1). O segundo está previsto para o dia 15, mas depende dos números da pandemia no estado. A diminuição de internações e de óbitos foi considerada para implantar a medida.
Pesquisadores acreditam que houve precipitação.
“Os dados mais recentes mostram que a gente ainda tem um aumento do número de casos. O ideal, e nós vimos em outros países, era que esse isolamento, essa diminuição do isolamento foi tomada quando a curva, claramente, estava na descendente. A gente vai ter certeza das consequências disso, daqui umas duas ou três semanas, para ter certeza se foi o momento ideal ou se a gente deve voltar a ter medidas de isolamento social”, disse Felipe Naveca, vice diretor de pesquisa e Inovações da FioCruz no Estado do Amazonas.
O que diz o governo
Em nota, o governo informou que antes da epidemia trabalhava na reestruturação da rede de saúde do Estado e afirma que ao longo dos últimos anos sofreu com baixos investimentos.
O Governo diz, ainda, que a partir do surgimento dos primeiros casos de Covid-19 no Estado, aplicou uma série de esforços para ampliar a cobertura de leitos de UTI e clínicos nas unidades da capital. A nota cita o Hospital Delphina Aziz, que saiu de 205 leitos para 350 e abertura de um hospital de retaguarda, que atualmente conta com 148 leitos.
“Antes da pandemia o Estado contava com 639 leitos e, atualmente conta com 1.100. O Governo do Amazonas também trabalhou incansavelmente na aquisição de equipamentos, como respiradores, insumos e medicamentos. Tais esforços resultaram na diminuição da taxa de ocupação dos hospitais que atendem pacientes Covid-19 na capital que, de acordo com dados do dia 01/06, é de 71% para leitos de UTI e 47% de leitos clínicos”, diz a nota.
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