
Rede pequena de supermercado de Curitiba afirma que ganhou muitos clientes ao oferecer a possibilidade das compras por WhatsApp. Supermercado ganhou muitos clientes através da entrega feita via WhatsApp
Guilherme Ochika
Para quem não tem o hábito de resolver as coisas pela internet, a pandemia do coronavírus trouxe, além do risco da doença, um outro problema – como resolver as coisas sem sair de casa.
Pensando nisso, algumas empresas decidiram facilitar a vida de quem tem como prioridade a proteção. O aumento dos casos e, consequentemente, a adaptação imediata das medidas para evitar a transmissão, exigiram soluções rápidas por parte dos empresários.
Em contrapartida, quem também não tinha o hábito de usar a internet para resolver as situações do dia a dia, precisou se adaptar.
Em Curitiba, um supermercado, por exemplo, teve que acelerar o processo de desenvolvimento de um aplicativo de compras e também precisou se adaptar ao que era mais prático para os clientes, o WhatsApp.
Para muitos, principalmente os idosos, o uso do aplicativo de conversa para fazer os pedidos foi a salvação.
É o caso da Carmen Lucia Sosnowski, de 68 anos, por exemplo. Ela disse que sempre gostou de fazer compras presencialmente. Mas, com o avanço da idade, começou a evitar por conta de dores nas pernas.
“Com o coronavírus, então, aí que eu não pude sair mais de jeito nenhum”, contou. Além de fazer parte do grupo de risco, a aposentada também cuida da mãe, que tem 96 anos e é cadeirante.
Ela contou que quando soube que poderia fazer as compras por WhatsApp, ficou bem mais tranquila. Não costumava usar muito, segundo ela, mas com o isolamento social teve que se adaptar.
“Esse aplicativo agora eu sei usar bem. Me comunico com várias pessoas e poder usar ele para fazer as minhas comprinhas é uma mão na roda. Uma não, duas”, brincou.
Carmen disse ainda que, pelo menos uma vez por semana, chama a equipe do mercado, manda uma listinha e, em menos de duas horas, os produtos chegam na casa dela.
Ela contou que também usa a internet para comprar outros itens para a casa e afirmou que, sem a tecnologia, a vida durante o isolamento seria muito sem graça.
“Abençoada a tecnologia, viu. A gente resolve muita coisa através dela. Agora ninguém me segura, eu já comprei até coisas de outros países”, ressaltou.
O sociólogo aposentado Cesar de Almeida, de 76 anos, também aprovou o uso do aplicativo de conversa para fazer as compras.
“Acho que as compras online otimizam bastante as relações de comércio, porque além de preservar o isolamento para aqueles que, como eu, se vêem nessa contingência de isolamento. Eu encontrei uma forma descomplicada e rápida de ser atendido, sem burocracia e sem maiores delongas”, declarou.
Crise civilizatória
O sociólogo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) Cézar Bueno disse que a crise vivida atualmente, por causa do coronavírus, pode ser entendida como uma questão civilizatória.
“Pela primeira vez nós temos uma pandemia que colocou o mundo todo em isolamento obrigatório. E isso, dentre muitas consequências, atinge diferentes grupos da sociedade. Cada grupo é atingido de um modo. E, de maneira muito intensa, atinge os idosos”, explicou.
Bueno argumentou que, nesse sentido, as plataformas digitais podem cumprir um papel revolucionário durante todo o processo de isolamento.
“Estabelecer uma relação de encurtamento da distância entre as pessoas, por exemplo, uso da tecnologia para fins de resolução de problemas, entre muitas outras funções”, destacou.
Ainda segundo o sociólogo, um dos fatos importantes dessa pandemia, é o de que vivemos um momento em que as plataformas digitais estão sendo usadas para melhorar a vida das pessoas. “Eu acho que é muito válida essa perspectiva, e os idosos precisam muito dessa inclusão, desse aprendizado”, afirmou Bueno.
A pandemia, ainda conforme o professor Cézar Bueno, vai passar e vai deixar um custo socioeconômico altamente significativo. Mas, segundo ele, também vai trazer muito aprendizado.
“O fato é que viver em sociedade também significa esperar desafios e outras pandemias que, infelizmente, vão ocorrer. Então, a gente precisa se antecipar a esses desafios e se adaptar a isso. E a revolução informacional e a robótica em si têm mostrado que pode facilitar a vida não só das empresas, mas também das pessoas em geral. Eu acho que o que temos que ter em mente é que o fundamento da nossa sociedade são as pessoas. Primeiro as pessoas, depois o mercado. O mercado vive das nossas pessoas e não o inverso”, destacou.
A crise, segundo ele, também está fazendo com que muitas pessoas mudem as suas visões de mundo. “É um momento em que muita gente está revendo os seus conceitos diante da imposição da realidade”, completou o sociólogo.
Isolamento social trouxe proximidade de clientes
A proprietária do mercado Triunfo, Angela Maria Peters, disse que os clientes nunca foram tão próximos do mercado quanto nesse atual momento de pandemia.
“É incrível né! Mas isso serviu um pouco para as pessoas perceberem mais os pequenos comércios, como o nosso. E para nós é muito bom poder ajudar e poder continuar o nosso trabalho da forma com que sempre fizemos”, disse.
Ela afirmou que, em muito pouco tempo, o aplicativo de compras foi colocado em prática, mas os pedidos pelo WhatsApp são os que fazem mais sucesso.
“Nós colocamos um funcionário só para cuidar disso e eu percebo que o cliente valoriza mais essa troca, porque sabe que tem uma pessoa por trás de tudo interagindo, não fica aquela coisa automática sem nenhum contato humano”, explicou. Atualmente, segundo ela, são cerca de 1,5 mil clientes que fazem os pedidos pelo aplicativo de conversa.
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