
Cerca de 20 conselheiros estão dentro da unidade conversando com os adolescentes apreendidos no CSE. Conselheiros entrando na unidade, após 20 minutos de espera
Juliana Dama/G1
O Conselho Tutelar faz visita ao Centro Socioeducativo na tarde desta quinta-feira (1º), após denúncias contra o diretor da unidade, Sheine Alves de Castro, por tortura e agressões a internos virem à tona.
Um grupo, de cerca de 20 conselheiros, entrou na unidade para conversar com os adolescentes às 15h07. No entanto, ficaram cerca de 20 minutos aguardando na portaria.
Servidores apontam que Sheine lidera o “clube da taca”, grupo que mantém a ordem na unidade com agressões e torturas. O diretor foi denunciado à Justiça pelo Ministério Público de Roraima (MPRR). O processo tramita na 2ª Vara de Infância e Juventude, sob responsabilidade do juiz Marcelo Lima de Oliveira.
O diretor também é suspeito de manter um adolescente por oito dias isolado em uma cela, conforme relatório do MP. Agentes contam que o menino recebia água por mangueira e comida o suficiente apenas para não morrer.
Sheine negou todas as acusações à reportagem. Ele disse que nunca bateu, ameaçou ou usou o isolamento como tortura contra os internos.
Uso de celular
Agente proíbe uso de celulares no CSE em RR, após denúncias de tortura
Após as denúncias, o agente Hugo Cristiano Lemos da Silva proibiu os servidores de usarem celulares dentro do CSE. A determinação foi dada em mensagens de áudio – que o G1 teve acesso – em um grupo de whatsapp.
Hugo também é apontado pelos agentes da unidade como um dos membros do “clube da taca” e homem de confiança de Sheine.
Inicialmente, o governo estadual informou que se baseava em duas leis do governo da Paraíba para vetar o uso dos aparelhos. No entanto, após ser procurado pela reportagem mais uma vez, afirmou que a decisão está respaldada pela Lei federal nº 12.012, de 06 de agosto de 2009.
Fotos de documentos enviadas ao G1 mostram que as ordens de Hugo seguem a mesma determinação de dezembro de 2019. À época, o próprio diretor vetou o uso de aparelhos na unidade com base em regras da Lei federal citada pelo governo, que trata do sistema prisional.
Agressão do Bope
Adolescentes agredidos dentro da unidade do CSE
A denúncia contra Sheine veio à tona quando um vídeo, gravado em 2018, mostra um agente do Bope chutando e batendo com um cassetete em dois adolescentes. Na filmagem, aparece Genildo Pedro da Silva, ex-gestor da unidade, assistindo as agressões.
Nas imagens enviadas ao G1, os adolescentes são obrigados a passar por um buraco na parede enquanto uma pessoa grita com eles. As agressões ocorreram com os internos rendidos, após uma tentativa de fuga do Centro.
A Polícia Militar informou que “buscou a identificação dos policiais que participaram da referente ação com vistas a instruir o devido procedimento apuratório e responsabilização no âmbito do seu órgão correcional e da polícia judiciária militar estadual”.
No entanto, não disse se o policial foi identificado porque o processo corre em sigilo.
Agentes do CSE afirmaram que a voz do vídeo é de Genildo Pedro, que continua na unidade como gerente de recursos humanos. O CSE abriga, atualmente, 52 adolescentes.
Procurado, Genildo afirmou que nunca agrediu nenhum dos adolescentes que ficam reclusos no local. No entanto, se recusou a responder se já tinha presenciado agressões contra os internos dentro da unidade.
Em nota, o governo estadual – responsável pela unidade – afirmou que a intervenção do Bope ocorreu em uma gestão anterior, em 2018.
Um adolescente ficou isolado em uma cela por oito dias sem banho de sol, conforme o relatório do MP apresentado à Justiça. Agentes da unidade contam que o garoto recebia água apenas por uma mangueira.
Ainda conforme o relato dos servidores, durante a pandemia – em que as visitas foram suspensas e contato se restringiu à cartas – o diretor lia os relatos dos internos e deixava de entregar os que denunciavam as agressões.
“Durante o período da pandemia os internos continuaram mantendo contato com seus familiares por meio de vídeos chamadas e cartas encaminhadas semanalmente”, diz trecho da nota enviada pelo governo.
O diretor é agente penitenciário do estado de São Paulo e integra a Força-Tarefa de Intervenção Penitenciária (FTIP). Cedido ao governo de Roraima, ele está a frente do CSE desde agosto de 2019. A unidade é de responsabilidade da Setrabes.
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