Com quarentena, mães descobrem habilidades e assumem novos papéis para dar conta de uma rotina ainda mais pesada


Mães dividem responsabilidades do próprio trabalho com tarefas do dia a dia e a ajuda nas tarefas da escola. Para elas, a recompensa é passar cada minuto do dia ao lado dos filhos. Carol compartilha o dia todo com os filhos na quarentena
Maria Carolina Arouca Pereira de Campos/Arquivo Pessoal
Pode-se dizer que o Dia das Mães de 2020 ganhou um significado ainda mais especial. Este domingo (10) é uma data para homenagear mães que, claro, já tinham um papel essencial na vida de seus filhos, mas que precisaram assumir outros papéis e até mesmo adquirir novas habilidades neste período de quarentena, em que os filhos passam o tempo todo em casa., mãe de três filhos: Olavo, de 13 anos, Maria Eduarda, de 11, e Maria Luiza, de 6
Ajudar com as aulas on-line da escola, cuidar da casa, preocupar-se com cada refeição do dia e, ao mesmo tempo, seguir desempenhando seu próprio trabalho. A tarefa de ser mãe em tempos de pandemia e equilibrar todas essas funções não tem sido das mais simples, mas a possibilidade de não se desgrudar dos filhos um minuto sequer é uma das recompensas. É o que tem sentido Maria Carolina Arouca Pereira de Campos, de Mogi das Cruzes, mãe de três filhos: Olavo, de 13 anos, Maria Eduarda, de 11, e Maria Luiza, de 6 anos.
O mais importante foi o que escutei da minha filha, de que ela está gostando muito de nós juntos o tempo inteiro. Ela está adorando os finais de semana, porque ficamos só nós cinco. Nós cozinhamos juntos, jantamos juntos, e isso é muito amor. Acho que é uma reconexão de tudo o que sempre tivemos e talvez estivesse um pouco adormecido”, diz Carol.
Além da responsabilidade de cuidar da rotina dos filhos, todos em casa por conta da quarentena, ela tem a missão de comandar uma equipe de 7 líderes e mais de 2 mil consultoras da empresa de cosméticos em que trabalha, além de estudar três vezes na semana.
“Ficar com eles o dia inteiro tem sido um mundo de descobertas. Por mais que meu trabalho me permita flexibilizar horários, eu sempre estou correndo muito, sempre na estrada, fora de casa. As coisas aconteciam e eu não estava aqui. Tenho lido mais com minha pequena, assisto a filmes com todos eles, observo comportamentos que não estava observando”.
O dia dela começa por volta das 6h30, quando acorda juntamente da filha mais nova. A partir de então, o desafio é conciliar as responsabilidades de seu próprio trabalho com a ajuda aos filhos, principalmente nos afazeres da escola. Uma maneira encontrada pela família para organizar a rotina é separar um espaço da casa para que cada um faça sua atividade: assim, um filho fica cozinha, um no quarto e outro na varanda. Por conta da idade, a filha caçula naturalmente demanda mais atenção.
“Somos quatro pessoas no período da manhã precisando ter um espaço para cada um fazer sua atividade. E da pequena eu acabo ficando mais perto porque precisa de ajuda com as aulas. Penso que o momento que estamos vivendo é de adquirir novas habilidades, ainda que a gente não queira. Tenho que ser um pouco professora de inglês, de matemática, de português. A professora desempenha um papel muito bom on-line, mas a gente precisa ficar ao lado. Uma criança de 6 anos não consegue fazer sozinha e organizar tudo o que precisa ser organizado”.
Filhos se dividem pela casa para as atividades
Arquivo Pessoal/Maria Carolina Arouca Pereira de Campos
No início da tarde, a rotina agitada continua, uma vez que Carol leva almoço para a mãe, que mora sozinha, e para o marido, que tem permanecido no local de trabalho nesse horário para diminuir os riscos em meio à pandemia.
Quando volta para casa, ela dá sequência ao seu trabalho e continua ajudando os filhos com as tarefas da escola, além de administrar o que cada um pode fazer. Para isso, no entanto, a família encontrou uma solução criativa: um painel que fica na cozinha e que organiza os afazeres de cada um.
“Nós fazemos muitas reuniões. Uma vez por semana nós sentamos, alinhamos como vão ser os horários, que horas vão devolver o celular, porque estavam ficando muito no celular. Nós alinhamos isso, escrevemos, todo mundo assina, e aí colocamos no painel da cozinha. Neste momento, é muito complicado administrar a quantidade de energia das crianças. Eles estão, sim, em casa, têm consciência de que não podem sair. Quando a situação está muito complicada, às vezes coloco os três no carro, damos uma volta, todos mascarados, e voltamos para casa”.
Painel divide os afazeres da família em casa
Arquivo Pessoal/Maria Carolina Arouca Pereira de Campos
Outro exemplo de “super mãe”, Magali Belforti encara com bom humor o período em que, segundo ela, a casa está “de pernas para cima”. Moradora de Itaquaquecetuba, ela tem cinco filhos, dos quais três, de 8, 13 e 15 anos, ainda moram com ela.
“Não está sendo fácil. Acho que a quarentena não é fácil para ninguém, claro. Mas, no meu caso, sou mãe, tenho 5 filhos, sendo que três moram comigo. Minhas duas filhas são casadas, mas vêm aqui com meus netos. Juntam meu filho e meu net, e eles derrubam a casa. Estou olhando aqui para as minhas coisas de trabalho e tem vários robôs, Homem Aranha e Homem de Ferro no meio das minhas coisas, que meu filho pequeno passa por aqui e faz isso. Mas não me falta coragem, não me falta fé em Deus, porque senão eu já teria fugido”, brinca.
Em casa, as crianças têm um canto especial para brincar, mas a concorrência maior é por aparelhos como o celular e o computador. Nesta época em que os filhos passam o dia todo em casa, o desafio, então, é conciliar o uso para que todos fiquem felizes.
Magali ao lado dos três filhos que moram com ela
Arquivo Pessoal/Magali Belforti
“Antes, enquanto um usava o computador, o outro estava na escola. Não tinha briga. Agora, eles acordam praticamente juntos de manhã. Meu celular vai para o uso deles. O computador só tenho um, então deixo um ficar nele um pouco, depois o outro usa um pouco. Eles vão se revezando. Cada hora dou uma tarefa para um fazer, porque uma coisa ou outra são eles que ajudam em casa. Eu trabalho em casa com venda e está complicado, porque não pode sair. Antes eles iam jogar bola, tinham treino, mas agora não estão saindo. Quem sai sou eu para ir à lotérica, ao mercado.”
“O que nós vamos fazendo é nos adaptando. O que não falta é confusão, mas tem que dar uma equilibrada. Esse é o papel da mãe. Tentar equilibrar as coisas”.
Magali trabalha com a venda de cosméticos. Neste período de quarentena, ela segue se dedicando ao seu trabalho e fazendo a venda dos produtos em casa. Durante a pandemia, a difícil tarefa vem sendo parecida com a de muitas outras mães pelo Brasil: cuidar dos filhos dentro de casa e, ao mesmo tempo, lidar com as responsabilidades de seu trabalho, que é fundamental para ela e para a família.
“Fácil não está, mas tenho que trabalhar. A gente vai se virando como pode. O único ganha pão em casa é o meu. Graças a Deus, de pouco em pouco eu vou me virando. Está complicado cuidar deles com um celular só, um computador só, mas a gente está em busca da saúde. O que vai fazer? O governo não dá opção nenhuma. Falaram de ajudar, de mandar o dinheiro da merenda, mas nunca recebi nada”.
Initial plugin text

By Negócio em Alta