Metade da população em idade para trabalhar no país está precisando desse dinheiro para viver. Brasileiros continuam se aglomerando nas agências da Caixa para receber auxílio de R$ 600
Todos os dias, milhares e milhares de brasileiros se aglomeram em filas nas agências da Caixa Econômica para receber o auxílio emergencial de R$ 600. Metade da população em idade para trabalhar está precisando desse dinheiro para viver.
Se até pelo alto o trajeto da fila é demorado, imagine o sofrimento de quem tem que dar um passo de cada vez.
“Já é a quarta vez que estou voltando aqui. Cheguei aqui por volta 21h55, e estou até com minha marmita aqui, porque, da última vez que eu vim aqui, eu saí daqui 15h30”, contou Adriano Barbosa da Silva, porteiro.
No Rio de Janeiro, a prefeitura atendeu o pedido da Caixa e interditou ruas em frente a dez das agências mais movimentadas. Mas o espaço vazio não serviu para nada. As filas continuaram como antes: aglomerações na calçada, dobrando esquinas e mais esquinas. Só em uma das agências, a equipe do Jornal Nacional encontrou um funcionário tentando organizar o atendimento.
Em Belo Horizonte, a calçada da agência se transformou num dormitório. Casacos, cobertores e até uma fogueira para afastar o frio da madrugada. E, como se não bastasse, era preciso ficar de olhos abertos com a suspeita da venda de vagas.
“Vim ontem, segunda-feira, e hoje tem gente na fila segurando vaga para poder vender. R$ 100”, contou uma senhora.
As filas refletem os números gigantescos do auxílio emergencial. No fim de março, as estimativas do governo indicavam que 25 milhões de pessoas seriam beneficiadas. Esse número já foi largamente superado.
“Se já tinha filas no Bolsa Família, no INSS, no seguro-desemprego, agora se formou uma fila, só que uma fila bastante grande desses chamados invisíveis, que se tornaram visíveis aos olhares do auxílio emergencial”, explicou Marcelo Neri, economista da FGV.
A Dataprev divulgou, nesta terça (5), que mais de 50 milhões de pedidos foram aceitos. Quase 33 milhões de pessoas tiveram o pedido recusado porque foram consideradas inelegíveis, e mais de 13 milhões precisam fornecer informações para completar o cadastro e aguardar a análise. No total, são 97 milhões de trabalhadores que, em algum momento, podem ter passado por alguma dessas filas.
“É um grupo que talvez não seja pobre em condições normais, só 25% deles são pobres. Mas um número bem maior está pobre nessa situação de pandemia, onde o faturamento deles é praticamente zerado”, explicou Marcelo Neri.
O número de trabalhadores que pediram o auxílio emergencial equivale a mais da metade da população em idade de trabalhar no país, que é de 172 milhões de pessoas.
“São mais de cinco mil pessoas contratadas, terceirizadas. Não esperamos mais para amanhã, para o resto dessa semana um volume tão grande de pagamentos, então vamos ter, sim, uma redução. E, com isso, não há necessidade de se chegar de madrugada”, avaliou Pedro Guimarães, presidente da Caixa Econômica Federal.
A Dataprev lançou, nesta terça, um portal que vai permitir a quem teve o pedido negado saber o motivo da recusa.
Mas as histórias de quem dorme na fila são bem mais complexas do que a frieza dos números. São dias e noites entre a desorganização e a burocracia, ouvindo o não de agência em agência,
“Dormi na fila da Caixa ontem de Campo Grande, eu também não fui atendida, porque a Caixa estava fechada e agora não sei o que fazer, porque trabalho com festa, não consigo fazer nada, não consigo trabalhar”, lamentou uma mulher.
“Estou indo para casa mais um dia sem dinheiro no bolso, sem poder comprar o que tem que ser comprado. É um caos para mim, é um caos. Eu estou muito triste, estou muito chateado de ter perdido mais uma noite”, contou Adriano Barbosa da Silva.
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