
Segundo defesa de vítimas, ele é o único a receber auxílio financeiro da cervejaria. Quatro meses após início das investigações, advogados e famílias cobram suporte da empresa: ‘completo descaso’. Cristiano Mauro Assis Gomes relata recuperação. À esquerda, foto tirada em 11 de abril; à direita, registro feito em 2 de maio
Cristiano Mauro Assis Gomes/Arquivo Pessoal
Desde que deixou o hospital no início de março, o professor universitário Cristiano Mauro Assis Gomes vem recuperando a desenvoltura na fala e começando a esboçar o retorno do sorriso retirado pela paralisia provocada pela intoxicação por dietilenoglicol. Ele é uma das 42 vítimas identificadas pela Polícia Civil durante as investigações sobre a Backer, que completa quatro meses nesta sexta-feira (8) ainda sem prazo para a conclusão.
Fotos tiradas mês a mês deixam clara a evolução do quadro de Cristiano. Segundo advogados, ele é a única das vítimas a receber auxílio financeiro da Backer. Para ele, caso não houvesse suporte, sua recuperação poderia ser mais lenta.
“Primeiro, você passa a ter determinados gastos que aí os seus recursos vão acabando. Em algum momento, você deixa de ter essas intervenções”, diz o professor durante uma sessão de hemodiálise em um centro médico de Belo Horizonte.
O cotidiano de aulas e pesquisas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) foi substituído por intensos cuidados com a saúde, que deverão ser mantidos mesmo caso realize um transplante de rim, órgão afetado pela substância encontrada pela polícia na cerveja Belorizontina.
Professor foi internado no na véspera do natal de 2019 e teve alta em março
Cristiano Mauro Assis Gomes/Arquivo Pessoal
“Eu acho que tudo que aconteceu em termos de doença, o envenenamento por dietilenoglicol, ter passado 44 dias no CTI, ficar internado durante 75 dias. Isso tudo foi muito impactante, a minha vida mudou completamente. Eu já não sou mais o mesmo, nem serei”, afirma.
A nova rotina de Cristiano inclui as sessões de hemodiálise, que lhe tomam cerca de 12 horas a cada semana, além de fisioterapia e de fonoaudiologia. “Está sendo fantástico eu fazer determinados cuidados com o rosto, determinados cuidados com fisioterapia, cuidados complementares, que são importantes”, pontua.
“Esse suporte [financeiro da Backer] é muito importante para todos os pacientes. (…) Você passa a poder realizar uma série de tratamentos, que são necessários e não são cobertos por plano de saúde”, conta.
Apesar da melhora constante no quadro clínico, Cristiano, que leva em seu pescoço um cateter, enfrenta restrições provocadas pela doença. Durante a hospitalização, ações automáticas como respirar se tornaram sinônimo de extrema dor.
Agora, o homem que sempre cultivou hábitos saudáveis, foi jogador de futsal na adolescência e praticante de musculação por quase 30 anos, preocupa-se até, se no futuro, conseguirá beber água ou tomar sopa, por exemplo, devido a reflexos da intoxicação em seu organismo.
Para melhorar um pouco a qualidade de vida, dentro de cerca de dois meses, ele deverá substituir as sessões de hemodiálise no hospital por um procedimento que é realizado em casa, chamado de diálise peritoneal.
Cristiano diz que apoio da filha, da mulher e de amigos foi fundamental na luta pela sobrevivência
Cristiano Mauro Assis Gomes/Arquivo Pessoal
‘Completo descaso’
Entretanto, de acordo com advogados, de um modo geral, a postura da empresa tem sido de descaso nestes quatro meses de investigações. E, segundo eles, isso tem afetado a recuperação das vítimas que, em alguns casos, sofrem ainda mais por depender do Sistema Único de Saúde (SUS), impactado com a pandemia de coronavírus.
“É um completo descaso, desinteresse. É um desrespeito horroroso com o consumidor. Eles não têm consideração com a situação que os próprios consumidores estão passando”, diz a advogada Laiz Simões de Queiroz, que defende a família de um jovem, de 23 anos.
Estudante de odontologia, o rapaz é morador do bairro Buritis, na Região Oeste de Belo Horizonte, onde foram identificados os primeiros casos de intoxicação por dietilenoglicol. Assim como Cristiano, ele ficou internado em um hospital particular da cidade por mais de dois meses.
Investigação sobre cervejaria ainda não tem data para conclusão
Danilo Girundi/TV Globo
“A situação dele, embora, seja de certa forma otimista em relação às outras vítimas, ele ainda tem muita sequela. O custo dele de manutenção ainda é alto. Ele apresenta convulsões, tem que tomar remédios anticonvulsivos todos os dias. Dá quase R$ 1 mil só deste medicamento”, afirma a advogada. Segundo ela, até o momento, todos os gastos com tratamento saíram do bolso da família do estudante, que é de Mariana, na Região Central do estado.
De acordo com Laiz, a defesa do jovem chegou a se reunir com representantes da Backer e apresentar o relatório de despesas. Porém, segundo a advogada, posteriormente, todas as tentativas de contato com a cervejaria foram em vão.
A advogada afirma que, além da falta de amparo por parte da empresa, a pandemia de Covid-19 afeta ainda mais a situação já delicada dessas pessoas.
“O sistema imunológico deles está muito debilitado, o que coloca eles direto no quadro de grupo de risco da contaminação do coronavírus. Se contrair essa doença seria potencialmente fatal para eles porque eles estão muito frágeis”, avalia.
Para Cristiano, diante de todos os desafios que enfrentou pela sobrevivência nesses últimos quatro meses, a preocupação com a Covid-19 é mais uma em meio a tantas que já o cercam.
“As mudanças foram tão intensas e as transformações foram tão grandes, por causa da própria doença, do dietilenoglicol, do envenenamento, que acaba que essa necessidade de sair [para fazer hemodiálise], de lidar com o coronavírus, ele não gera tanta angústia, tanta ansiedade assim, tendo em vista que esses outros desafios foram muito impactantes”, diz.
Cervejaria Backer, no bairro Olhos D’Água, em Belo Horizonte
Odilon Amaral/TV Globo
Sem prazo para conclusão do inquérito
O professor espera que, na medida do possível, todas as questões envolvendo o caso se esclareceram o mais rápido possível. “Para que todas as vítimas tenham o seu devido resguardo e a Justiça possa estar cuidando dessa situação da forma mais adequada”, pontua.
De acordo com a Polícia Civil, em 120 dias, mais de 60 pessoas foram ouvidas. “Os trabalhos seguem em andamento, com inquérito policial próximo de ser concluído, mas sem data determinada”, informou por meio de nota.
Ainda segundo a polícia, ainda faltam alguns resultados de perícias para que as investigações cheguem ao fim. No curso das investigações, a hipótese de sabotagem foi descartada, mas, por ora, a linha de investigação não será divulgada.
“É desesperador você ver depoimentos das vítimas, das famílias. Que a Backer tome ciência da responsabilidade que ela tem, que ela traga para si a responsabilidade que ela tem, que ela apoie, que ela suporte essas vítimas, porque é desumana a atitude que ela tem apresentado”, diz a advogada.
O que diz a Backer
Por meio de nota, a Backer afirmou que os bens da cervejaria estão bloqueados pela Justiça exclusivamente para o auxílio a essas pessoas.
“Porém, a própria Justiça condicionou o pagamento de ajuda financeira à apresentação de comprovantes de despesas realizadas não cobertas pelo plano de saúde, ou a negativa do plano em atender ao paciente. Esses comprovantes, até o momento, não foram entregues ao juiz do caso, a quem cabe determinar a venda dos bens da empresa e liberar os pagamentos”, alegou.
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