
Desde o primeiro flagrante no Jardim Botânico da UFJF, passando por visitas a hotel e galinheiro, a presença do felino pela área urbana da cidade marcou o imaginário dos juiz-foranos. O G1 conversou com profissionais que vivenciaram de perto o caso de repercussão nacional. Onça-pintada que estava no Jardim Botânico em Juiz de Fora
Pedro Nobre/UFJF
Um ano depois do registro da presença da onça-pintada no Jardim Botânico da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a memória e as histórias por trás da aparição do felino ainda permanecem no imaginário juiz-forano.
O primeiro a detectar a presença do animal foi um vigilante que estava no local no dia 25 de abril. No dia 26, o Jardim Botânico fechou às portas por conta da novidade.
Foram então quase 20 dias de intensas buscas pela onça, que foi vista em um hotel, passeou no estacionamento de uma igreja, andou pelas margens do Rio Paraibuna, atacou um galinheiro, foi finalmente capturada e levada para uma área de proteção ambiental.
O G1 conversou com três pessoas que estiveram diretamente envolvidas no caso que atraiu a atenção de muita gente. Confira.
Marcado na memória
“Foi um pouco espantoso”, disse recepcionista sobre ver a onça-pintada na porta de um hotel na Mata do Krambeck, em Juiz de Fora
Reprodução
Quando a onça-pintada visitou o estacionamento do Hotel Pepita, às margens da Avenida Brasil, no dia 26 de abril do ano passado, o recepcionista Nielson Dias assistia televisão. De repente, ele ouviu um barulho do lado de fora.
“Achei que era algum cachorro grande que tinha entrado no estacionamento e provocado o barulho. Quando vi de longe, enxerguei um gato muito grande, pensei que podia ser uma jaguatirica. Quando aproximei, tomei muito susto ao constatar que era mesmo uma onça, daquele tamanho todo”, contou Nielson ao G1.
Apesar do susto, ele conta que não teve medo ao se aproximar e que o animal não tentou atacá-lo. Após um ano daquela experiência, o hotel trocou o letreiro e colocou uma foto da onça, como uma homenagem à ilustre visitante.
“Virou um ‘causo’ né? Os hóspedes antigos do hotel sempre brincam com a visita da onça. Novas pessoas também vieram se hospedar, perguntavam se aqui era o ‘hotel da onça’. É muito bacana, é um animal muito bonito”, contou o recepcionista.
Onça usa colar leve, apropriado para a espécie e equipado com GPS; imagem da reintrodução no dia 13 de maio (Foto: Pedro Nobre/UFJF)
Pedro Nobre/UFJF
O biólogo Pedro Nobre foi o responsável pelas fotos da onça dentro do espaço do Jardim Botânico. Para ele, o momento mais marcante foi o da captura e como o evento mostrou questões sobre o papel da ciência na preservação das espécies.
“Foi muito importante para o município e vai ficar marcado por muito tempo para todos que acompanharam. Foi um acontecimento que marcou também a força e a competência da ciência, visto que, todo processo foi executado a partir de conhecimento científico”, explicou o pesquisador.
Pedro contou que a primeira foto foi inesperada. “Uma onça não aparece facilmente para ser fotografada, isso pode demorar dias e até mesmo não acontecer. Esse animal está cada vez mais raro na natureza”, pontou.
Nobre explicou que o aparecimento do felino foi significativo para mostrar o distanciamento dos seres humanos com a natureza e a incapacidade de convivência, sem que a vida do animal fosse ameaçada.
“Falamos o tempo todo em preservar a natureza, mas o que estamos fazendo de fato? Qual é nossa real vontade e capacidade de preservar. A ciência já produziu um vasto conhecimento para subsidiar ações de proteção a essas espécies. No entanto, nossas florestas estão cada vez menores e isoladas. Deparamo-nos com um animal magnífico, icônico e um verdadeiro presente da natureza que tivemos que recusar de imediato. Muitas espécies já estão extintas do nosso convívio e fazem parte apenas do imaginário. A presença da onça foi um exemplo”, finalizou.
Onça foi avistada durante trabalho de monitoramento da espécie no Jardim Botânico em Juiz de Fora
Pedro Nobre/UFJF
O assessor de comunicação do Jardim Botânico, Raul Mourão, lembrou que os quase 20 dias de buscas pela onça foi divido entre momentos de alegria pelas imagens e a beleza do animal, mas também foi marcado por uma fase de tensão, de preocupação com o felino andando pelas ruas.
“Havia uma alegria em saber que Juiz de Fora abrigava, na Mata do Krambeck, uma onça-pintada, algo que parecia inacreditável, inesperado e até energizante, em meio a momentos conturbados. O animal não se mantinha apenas no fragmento florestal, circulava pelas ruas. Virou uma atração, motivo de orgulho e também de receios. Apesar de as primeiras fotos ressaltarem a beleza da onça e de percebermos certa ‘fofura’, era preciso lembrar que se tratava de um animal selvagem, raro, poderoso. Mas também frágil, ante aos riscos de atropelamento, reações a ataques por defesa e possíveis covardias humanas, como maus tratos e caça. Por isso, a cada dia, a tensão era crescente para obtermos sucesso na captura”, relatou Raul.
Mourão avalia que a onça ainda deixou um legado na cidade na questão de educação ambiental. Ele relembrou o trabalho da Diretoria de Imagem Institucional da UFJF, que informava diariamente sobre atualizações do animal, em tempo real nas redes sociais e atuava também no relacionamento com a imprensa e com os moradores do entorno do Jardim Botânico.
Onde está a onça?
Pegada da onça em trilha apontada pelo colar com GPS como sendo utilizada pelo animal na nova área florestal
Jardim Botânico UFJF
A onça-pintada foi capturada dentro do Jardim Botânico na noite de 12 de maio. Na data, os especialistas realizaram exames, colocaram o colar para seguir o monitoramento e garantiram que o animal é um macho, está bem, em fase reprodutiva.
O felino foi encaminhado para uma reserva de Mata Atlântica. A força-tarefa para captura e translocação do animal ocorreu por meio da integração entre nove instituições públicas.
São elas: Campo de Instrução do Exército em Juiz de Fora, Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap/ICMBio), Corpo de Bombeiros, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Instituto Estadual de Florestas (IEF/Cetas), Polícia Militar de Meio Ambiente, Prefeitura de Juiz de Fora, Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
Em fevereiro deste ano, a UFJF informou que havia parado de receber sinais e informações do colar de monitoramento da onça.
Conforme a equipe, é usual relatos de falhas na transmissão, uma vez que há barreiras naturais, exposição ao sol e interação com água e entre os próprios felinos.
Segundo a UFJF, quando os dados forem recuperados, serão divulgadas novas informações.
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