Começaram nesta segunda (11) os depoimento das testemunhas do inquérito que investiga a suposta tentativa de interferência política do presidente Jair Bolsonaro em investigações da PF. Uma delas é o ex-diretor-geral da corporação Maurício Valeixo. Valeixo diz que Bolsonaro queria alguém com quem tivesse ‘afinidade’ no comando da PF
Começaram os depoimentos das testemunhas do inquérito que investiga a suposta tentativa de interferência política do presidente Jair Bolsonaro em investigações da Polícia Federal. Uma dessas testemunhas é o ex-diretor-geral da PF Maurício Valeixo, que falou por seis horas. Ele disse que Bolsonaro queria um diretor da corporação com quem tivesse ‘afinidade’.
Valeixo chegou à PF em Curitiba perto de 10h desta segunda (11). A troca no comando da PF, cargo que Valeixo ocupou desde o início do governo, está no centro da investigação. O ex-diretor-geral foi questionado se sofreu pressão presidencial para interferir em inquéritos e sobre pedidos de trocas na Polícia Federal.
No início do depoimento, Valeixo contou que houve pedido do presidente para troca do comando da PF no Rio de Janeiro. Afirmou que, “em junho de 2019, foi consultado pelo ex-ministro Sergio Moro sobre a possibilidade de troca do superintendente do Rio de Janeiro, dr. Saadi, pelo dr. Saraiva, então superintendente do Amazonas; que, segundo o dr. Moro, esse nome havia sido ventilado pelo presidente da República; que não sabe dizer por quais razões o presidente da República teria sugerido aquele nome”; mas que o nome mais indicado para esse cargo seria o de Carlos Henrique, superintendente em Pernambuco à época.
Questionado sobre como define interferência política na Polícia Federal, Valeixo explicou que não houve interferência enquanto Sergio Moro era ministro da Justiça e ele estava no comando da PF. “A partir do momento em que há uma indicação com interesse sobre uma investigação específica, estaria caracterizada uma interferência política, o que não ocorreu em nenhum momento sob o ponto de vista do depoente”.
Valeixo contou que foi procurado pelo presidente duas vezes sobre a intenção de tirá-lo do comando da PF: “que, em duas oportunidades, uma presencialmente, outra pelo telefone, o presidente da República teria dito ao depoente que gostaria de nomear ao cargo de diretor-geral alguém que tivesse maior afinidade, não apresentando nenhum tipo de problema com o depoente”; que “foi esclarecido pelo presidente que não havia nenhum problema contra a pessoa do depoente”.
Valeixo disse que, enquanto ele estava no comando da PF, período que coincide com o de Sergio Moro no Ministério da Justiça, “o presidente nunca tratou diretamente com ele sobre a troca de superintendentes, nem nunca lhe pediu relatórios de inteligência ou informações sobre investigações ou inquéritos policiais”.
Valeixo afirmou que trocas de superintendentes não eram discutidas com o ministro Moro ou o presidente Bolsonaro. Mas mencionou duas exceções: “nunca foi indicado pelo dr. Moro qualquer nome para a função de superintendente”; que “a única mudança de superintendente mencionada pelo então ministro Moro se restringia à Superintendência do Rio de Janeiro, o que ocorreu por duas vezes”; que, “de forma menos contundente, foi veiculada pelo ministro a possibilidade de troca do superintendente de Pernambuco”; que, ”em nenhum dos casos, foi apresentada nenhuma razão que justificasse a substituição, uma vez que não havia nenhuma reclamação sobre a condução dessas superintendências”.
Valeixo desmentiu o motivo apresentado por Bolsonaro ao pedir a troca de superintendente do Rio: gestão e produtividade, segundo alegou o presidente em agosto de 2019. À época, o superintendente era o delegado Ricardo Saadi. “Ao contrário do que foi falado pelo presidente da República, a superintendência do Rio de Janeiro teria se destacado naquele ano, conforme índices de Produtividade Operacional (IPO), tendo subido diversas posições em relação ao ano anterior”.
Valeixo esclareceu a quais relatórios de inteligência um presidente pode ter acesso: “que eventualmente o presidente pode solicitar tais relatórios quando envolver questões estratégicas, que envolva a tomada de decisões, como, por exemplo, em questões que envolvam questões de repercussão nacional, o que também é feito por outros órgãos, como a PRF, as Forças Armadas e a própria Abin”; que “esclarece que, nesse caso, apesar de envolver informações reservadas, não se trata de matéria envolvendo investigações em curso na Polícia Federal, ou seja, matéria de Polícia Judiciária”.
Valeixo foi questionado sobre o inquérito das fake news, que corre no Supremo Tribunal Federal, relatado pelo ministro Alexandre de Moraes. Esse inquérito é citado numa troca de mensagens entre o presidente e Moro. Valeixo disse que “nada lhe foi questionado sobre o inquérito pelo ex-ministro”; que “ressalta que não teria nenhuma informação sobre esse inquérito”; que “nunca havia sido solicitado ao depoente qualquer informação, seja pelo ex-ministro Sergio Moro ou pelo presidente da República sobre o mencionado inquérito”.
Valeixo afirmou que, numa conversa com superintendentes, disse que estava desgastado, mas não comunicou que iria pedir exoneração. “Que, na videoconferência realizada na quinta-feira, dia 23 de abril de 2020, antes de tratar dos assuntos que seriam temas daquela reunião, abordou de forma geral o desgaste que vinha sofrendo desde agosto de 2019 e mencionou que não tinha apego ao cargo, o qual se encontra e sempre esteve à disposição do ministro da Justiça e do presidente da República, os quais estavam tratando sobre sua substituição, mas que não houve qualquer antecipação sobre sua exoneração, tampouco comunicou nessa reunião que iria pedir exoneração”.
Mas que, no mesmo dia, o presidente Bolsonaro tomou a iniciativa de ligar para ele para demiti-lo. Nessa conversa, conforme relatado pelo ex-ministro Sergio Moro, quando em depoimento, Bolsonaro perguntou se Valeixo concordaria que a exoneração fosse publicada em Diário Oficial, como “a pedido”. Valeixo disse que, “nessa ligação, o presidente comunicou ao depoente que sua exoneração do cargo de diretor-geral ocorreria no dia seguinte, bem como indagou o depoente se ele concordava que a publicação fosse como ‘a pedido’, momento em que o depoente disse que sim”.
Em outro trecho do depoimento, Valeixo reiterou que não formalizou qualquer pedido de demissão, que, “no dia seguinte, 24 de abril, após a publicação de sua exoneração, o dependente reporta ao ex-ministro as circunstâncias em que se deu a conversa telefônica com o presidente da República”; que “não houve formalização do pedido de exoneração”.
O ex-diretor Maurício Valeixo foi questionado sobre os motivos de Bolsonaro para nomear o delegado Alexandre Ramagem, diretor-geral da Abin, a Agência brasileira de Inteligência, para o comando da PF. Respondeu que “foi informado pelo próprio presidente da República sobre a intenção de nomear Alexandre Ramagem e que essa substituição se daria por uma questão de afinidade”.
Na tarde desta segunda, foi a vez de ouvir dois delegados na sede da Polícia Federal em Brasília. Primeiro, Ricardo Saadi, que deixou a superintendência da PF no Rio em 2019. E, às 15 horas, começou o depoimento de Alexandre Ramagem, diretor-geral da Abin, amigo da família Bolsonaro e que teve a nomeação para o comando da Polícia Federal suspensa pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Nesta terça, o vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril vai ser exibido para procuradores, delegados da Polícia Federal, a Advocacia-Geral da União e o ex-ministro Sergio Moro. Segundo Moro, durante a reunião, o presidente Bolsonaro pressionou por mudanças na cúpula da Polícia Federal. A AGU declarou que a gravação foi entregue na íntegra. O vídeo já está com a Polícia Federal, que vai fazer uma perícia para determinar se o material foi editado ou não.
Nesta segunda, na porta do Palácio da Alvorada, perguntado sobre o que haveria no vídeo da reunião ministerial, o presidente disse que não ameaçou ou ofendeu ninguém.
“Eu nunca ofendi ninguém. Nunca agredi ninguém. Eu nunca ameacei ninguém. Pronto, suficiente, está na fita”, disse Bolsonaro.
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