Presidente Bolsonaro nomeia delegado Rolando de Souza como diretor-geral da PF

Rolando de Souza trabalhava na Abin como braço-direito de Alexandre Ramagem, o amigo da família Bolsonaro que o Supremo impediu de assumir o cargo. Presidente Bolsonaro nomeia delegado Rolando de Souza como diretor-geral da PF
Em menos de uma hora, o presidente Jair Bolsonaro nomeou o novo diretor-geral da Polícia Federal, mandou publicar o ato em uma edição extra do Diário Oficial e deu posse a Rolando de Souza. Ele trabalhava na Abin como braço-direito de Alexandre Ramagem, o amigo da família Bolsonaro que o Supremo impediu de assumir o cargo.
Foi uma cerimônia de posse relâmpago. Entre a nomeação de Rolando Alexandre de Souza, às 9h30 desta segunda (4), e a posse no cargo se passou apenas meia hora. Só depois de encerrada é que a cerimônia foi incluída na agenda do presidente. A posse ocorreu no gabinete presidencial, sem público, bem diferente do que estava programado, na semana passada, para a posse de Alexandre Ramagem.
Tudo para tentar evitar que a nomeação fosse suspensa na Justiça, como aconteceu com Ramagem, o nome preferido de Bolsonaro. A posse dele foi barrada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, atendendo a um pedido do PDT. O ministro viu na nomeação desvio de finalidade e afirmou que cabe à Justiça impedir nomeações do Executivo que contrariem princípios da Constituição, como a moralidade, a impessoalidade e o interesse público.
Alexandre Ramagem é amigo da família Bolsonaro. O presidente disse que mandaria a Advocacia-Geral da União recorrer da decisão do Supremo Tribunal Federal.
“É dever dela recorrer. Quem manda sou eu”, disse Bolsonaro.
Na manhã desta segunda, no entanto, nomeou e empossou Rolando Alexandre de Souza às pressas. Mas, neste domingo (3), durante uma manifestação antidemocrática e inconstitucional contra o Congresso e o Supremo, afirmou que nomearia nesta segunda o novo diretor da PF. Sem citar diretamente a decisão do ministro Alexandre de Moraes, Bolsonaro disse que não admitiria mais interferências. Mas não explicou que tipo de interferência nem o que faria.
“O que nós queremos é o melhor para o nosso país. Queremos a independência verdadeira dos três Poderes e não apenas uma letra da Constituição, não queremos isso. Chega de interferência. Não vamos admitir mais interferência. Deixar bem claro isso aí. Acabou a paciência. Vamos levar esse Brasil para frente”, disse Bolsonaro.
Rolando Alexandre é bem próximo de Ramagem. Na quinta-feira passada (30), Ramagem se reuniu com o presidente no Palácio da Alvorada. Depois disso, o nome de Rolando ganhou força para comandar a PF. Ele era secretário de Planejamento e Gestão da Abin, comandada por Ramagem. Rolando foi também superintendente da Polícia Federal em Alagoas, de 2018 a 2019.
No fim da manhã desta segunda-feira, o novo diretor-geral da Polícia Federal saiu do Palácio do Planalto e foi para a sede da PF. “É, eu assinei o termo de posse, mas agora estou indo lá para a PF”, disse Rolando de Souza.
Rolando Alexandre de Souza não deu mais declarações. A primeira ação dele, segundo fontes da Polícia Federal, envolve o comando da PF no Rio de Janeiro. Ele teria sondado o atual superintendente, Carlos Henrique de Oliveira Sousa, para ir a Brasília, como diretor-executivo, abrindo espaço para nomear um novo chefe da Polícia Federal no Rio.
A Superintendência no Rio de Janeiro foi um dos alvos das denúncias do ex-ministro Sergio Moro ao deixar o governo. Segundo Moro, o presidente Bolsonaro teria feito pressão para mudar o superintendente. Sob a responsabilidade dele, está o inquérito que apura a suspeita do esquema de rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio. O senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, é um dos investigados. Na época da denúncia, ele era deputado estadual.
O ministro da Justiça, André Mendonça, a quem Rolando é subordinado, disse em uma rede social que o “novo diretor-geral da Polícia Federal é um profissional técnico, com experiência no combate à corrupção e desvio de recursos públicos”, e que “conta com o apoio dele para continuar engrandecendo essa importante instituição”.
A Federação Nacional dos Policiais Federais disse, em nota, que “reafirma seu compromisso de manter a vigilância em relação à autonomia das operações e dos trabalhos investigativos da Polícia Federal. Com relação a Rolando Souza, entende que é um nome técnico”.
O presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais, Marcos Camargo, disse que o novo chefe da Polícia Federal precisa ter compromisso com a imparcialidade e a autonomia da instituição.
“É fundamental, contudo, nesse momento conturbado pelo qual passamos, que o delegado Rolando demonstre comprometimento com uma polícia que mantenha a sua autonomia investigativa e sua atuação republicana, que tanto fez a Polícia Federal ser reconhecida como uma instituição de estado ao longo desses anos”, defendeu.

By Negócio em Alta