No fim da operação, fiscais foram encurralados por pessoas que se diziam manifestantes e houve discussão e agressões. Um fiscal levou uma garrafada na cabeça. PF vai investigar agressão a fiscal do Ibama no sudoeste do Pará
A Polícia Federal vai investigar a agressão desta terça-feira (5) a um fiscal do Ibama no Pará. Foi depois de uma operação contra a exploração ilegal de madeira que teve o apoio da Força Nacional.
A operação em Uruará, no sudoeste do Pará, encontrou um acampamento que era usado por madeireiros. Os fiscais apreenderam quatro caminhões e dois tratores que seriam utilizados para desmatamento ilegal na região. No fim da operação, os fiscais foram encurralados por pessoas que se diziam manifestantes. Houve discussão e agressões. Um fiscal levou uma garrafada na cabeça. Ele foi levado para o hospital e passa bem.
A Associação dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente repudiou a agressão e disse que o risco que os servidores correm na execução das atividades já é grande o bastante e que, desde 2019, o governo tem feito discursos de inibição de destruição de bens apreendidos em atividades ambientais ilícitas, descaracterizando uma ação prevista em decreto.
Por lei, o Ibama tem autorização para queimar equipamentos e máquinas usados por garimpeiros e madeireiros no meio da floresta. É uma medida, inclusive, de segurança dos agentes, para não correrem risco de emboscadas na retirada do material encontrado, além de inutilizar uma ferramenta usada pelo crime.
Um fiscal do Ibama falou sobre a destruição, mas, por segurança, preferiu não aparecer. “O que acontece é que os equipamentos destruídos, em especial os equipamentos de grande porte, as PCs, a pá carregadeira, tratores, caminhões, são equipamentos caros, dependendo do modelo ou do ano de fabricação, vão de R$ 600 mil a mais de R$ 1 milhão. Então, são vários interesses econômicos envolvidos nisso, muito fortes, que envolvem muito dinheiro. E a fiscalização do Ibama, hoje, é a única que impede ou que atrapalha o lucro dessas pessoas”, explicou.
A destruição de equipamentos nas operações é alvo de críticas do presidente Jair Bolsonaro. Depois de uma megaoperação em abril, também no estado do Pará, o governo reagiu com demissões de servidores.
O Fantástico do dia 12 de abril mostrou a operação que fechou garimpos ilegais e destruiu motores, tratores e retroescavadeiras. Dias depois, foram demitidos o diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Olivaldi Azevedo, o coordenador-geral de Fiscalização Ambiental, Renê Luiz de Oliveira, e o coordenador de Operação de Fiscalização, Hugo Ferreira Netto.
Uma conversa entre Bolsonaro e o então ministro da Justiça Sergio Moro pelo celular, revelada pelo site O Antagonista, mostra a preocupação do presidente com a queima de maquinário. Enquanto Bolsonaro mostrava nesta terça (5), o próprio celular, acabou aparecendo também uma mensagem que Moro enviou para o presidente, explicando a atuação da Força Nacional de Segurança em operações do Ibama de combate ao desmatamento.
Moro diz: “Coronel Aginaldo da FN nega envolvimento da FN nas destruições. FN só acompanha Ibama nas operações para segurança dos agentes, mas não participa da destruição de máquinas”.
O ex-ministro se refere ao coronel Antônio Aginaldo, comandante da Força Nacional e marido da deputada Carla Zambelli, do PSL. A mensagem de Moro sinaliza que ele estava respondendo a uma cobrança do presidente sobre a ação da Força Nacional em operações do Ibama.
Segundo ambientalistas, a edição de medida provisória, em 2019, que trata da legalização de áreas públicas invadidas e desmatadas, acabou estimulando a grilagem de terras no país.
Pelos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os alertas de desmatamento na Amazônia bateram recorde no primeiro trimestre de 2020 e registraram um aumento de 51% em relação ao mesmo período de 2019.
Para o diretor de Políticas Públicas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Eugênio Pantone, é necessária ação imediata das autoridades. “Os criminosos ambientais e os latifundiários não tiraram férias, não estão em isolamento social. Isso está acontecendo na região, então é fundamental essa união de forças dos estados amazônicos, do poder público federal, para que isso ocorra de uma forma bem efetiva para combater essa situação de grilagem e de desmatamento na região”, disse.
O Jornal Nacional pediu ao Planalto e ao ex-ministro Sergio Moro o restante da mensagem de celular. O Planalto ainda não se manifestou, e o ex-ministro Sergio Moro afirmou que não iria comentar.
A Força Nacional de Segurança informou que ninguém foi preso ou detido. O Ministério do Meio Ambiente e o Ibama declararam que repudiam o ataque ao servidor e que estão adotando medidas necessárias para identificar e responsabilizar os agressores.
O Ministério Público Federal no Pará afirmou que vai investigar a agressão.
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