
Com a epidemia em franca expansão, retomar atividades como jogos de futebol, festas, shows ou estimular manifestações de rua não passa de delírio irresponsável e criminoso O presidente Jair Bolsonaro cumprimenta apoiadores durante um protesto em Brasília, no último domingo (17/5), em meio à pandemia do novo coronavírus
Adriano Machado/Reuters
As celebridades que contraíram o novo coronavírus SarsCoV-2 em festas, como a cantora Preta Gil ou a socialite digital Gabriela Pugliesi, chamaram a atenção para um risco de contágio que fica a cada dia mais claro entre os cientistas: as aglomerações. De acordo com estudos recentes, a Covid-19 tem apresentado um padrão de transmissão em que poucos infectados são responsáveis pela maior parte do casos. Em inglês, são conhecidos como “superspreaders”, ou “super-espalhadores”.
Numa base de dados reunida desde abril, o jornalista Jonathan Kay reuniu até hoje 92 casos de aglomerações em que a presença de um desses “super-espalhadores”, infectado pelo Sars-CoV2, resultou em dezenas ou mesmo milhares de casos. Estão na lista de aglomerações levantada por Kay todo tipo de evento:
Festas de aniversário ou casamento em Itapecerica da Serra (14 casos), Rondônia (15), Rio de Janeiro (37) e Bahia (10);
Cultos religiosos em Daegu, na Coreia do Sul (em que a presença da célebre “paciente 31” resultou em mais de 5 mil casos), ou Mulhouse, na França (reunião de 5 dias que levou a pelo menos 17 mortes);
Espetáculos como o show em Osaka, no Japão, que resultou em 106 infecções, ou a dança de quadrilha em Lynwood, no estado americano de Washington, onde 4 de cada 10 participantes pegaram o vírus;
Linhas de produção de carnes no Canadá (31 casos), no estado americano de Iowa (186) ou em Birkenfeld, na Alemanha (onde 90% dos 250 funcionários testaram positivo);
Ensaio de coral no condado de Skagitt, também no estado de Washington, onde 53 dos 61 presentes foram infectados, apesar de ter mantido distância de mais de meio metro; e celebração em Jurong, em Cingapura, onde a cantoria resultou em 36 infecções.
Jogo de futebol em Milão, na Itália, corrida de cavalos em North Cheltenham, no Reino Unido, e torneio de basquete em Indianópolis, Estados Unidos, em que o vírus foi transmitido a centenas dos que assistiam das arquibancadas.
Num novo estudo ainda em revisão, cientistas britânicos reuniram 152 casos em que aglomerações contribuíram para a transmissão do vírus em países asiáticos ou europeus. Concluíram que o risco é maior em ambientes fechados, mas outro fator está quase sempre envolvido: momentos de gritos, canto ou projeção da voz em tom mais alto.
É essa a característica que une torcidas de futebol, ensaios de coral, manifestações de rua ou linhas industriais em que é preciso falar alto para se fazer ouvir. Um estudo do ano passado na revista Nature demonstrou que a voz alta está associada à maior emissão de gotículas portadoras do vírus (leia mais no post de ontem sobre os mistérios que ainda cercam a transmissão).
Noutro estudo preliminar, pesquisadores japoneses analisaram o papel dos “super-espalhadores” em 11 focos de Covid-19. Concluíram que, em virtude deles, o risco de contágio nos ambientes fechados é quase 20 vezes maior.
Desde 2005, quando um trabalho sobre a Sars identificou a importância dos “super-espalhadores” nas epidemias, cientistas procuram avaliar como é possível usar tal conhecimento para contê-las. Dependendo das características do vírus e da sociedade, tentam medir quantos indivíduos respondem pela maior parte do contágio. O resultado é um indicador conhecido pela letra k.
Num estudo ainda em revisão, pesquisadores britânicos avaliam que, na Covid-19, tal indicador está em torno de 10%. É um valor inferior ao verificado para a Sars, em que a maior parte do contágio derivava de 16% dos infectados. Se confirmado, o resultado será uma boa notícia para o controle da pandemia, pois significa que pode ser possível retomar as atividades de menor risco, mantendo controle rígido de festas, eventos esportivos, artísticos, religiosos e aglomerações em geral.
Embora os “super-espalhadores” representem uma ameaça maior nos recintos fechados, também estão presentes em eventos ao ar livre. É por isso que a tentativa de retomar jogos de futebol sem que a epidemia esteja sob controle não passa de um delírio. Na atual fase da epidemia, mesmo estimando que apenas 1% da população esteja infectado, a probabilidade de não haver alguém com o vírus num evento com mais de mil pessoas é virtualmente nula. Que dizer de um estádio?
Aglomerações como as manifestações públicas que têm reunido centenas nas cidades brasileiras têm tudo para se transformar em novos focos de contágio. Estimulá-las na atual situação de expansão do vírus equivale a um ato irresponsável e criminoso.
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