
Entregador diz ter recebido choques e spray na terça (14), quando foi algemado e colocado na viatura porque tinha encoberto placa e guiava com habilitação vencida na capital de SP. Corregedoria da PM vai apurar se ocorreu abuso policial. Motoboy que disse ter sido sufocado por PMs também os acusa de agressão e ameaça em SP
O motoboy que aparece em vídeo que viralizou nas redes sociais dizendo “não consigo respirar” durante abordagem da Polícia Militar (PM), na terça-feira (14) em São Paulo ,também acusa os policiais de tortura. A Corregedoria da PM apura se os agentes cometeram excesso (leia mais abaixo).
Em outra filmagem, feita em frente à delegacia para onde foi levado preso sob a acusação de resistência, o entregador de 23 anos chora ao contar ter recebido choques e spray quando foi algemado e colocado dentro da viatura (veja acima). O motivo, segundo ele, foi ter se recusado a tirar uma foto ao lado dos agentes.
“Tacaram spray na minha cara, eu já dentro do camburão, me eletrocutaram”, diz o rapaz em outro vídeo, este gravado em frente ao 14º Distrito Policial (DP), em Pinheiros. “Por que eles fizeram tudo isso comigo? Me agrediram, apreenderam minha moto, me ameaçaram de morte e tudo mais… só porque eu não queria deixar eles tirarem uma foto minha”.
Policiais dão gravata em entregador
Reprodução
Em entrevista nesta quarta-feira (15) à reportagem, o motoboy voltou a dizer que a acusação de que foi torturado pelos PMs e disse que pensou que poderia ser morto como George Floyd.
“Entendo que a tortura que sofri, ainda mais psicológica, [ocorreu] depois que eu já estava dentro da viatura”, falou ele, que comparou a abordagem dos policiais brasileiros a dos agentes que mataram o americano.
Quando foi detido pelos PMs, o motoboy recebeu uma “gravata”, nome como é conhecido o golpe no qual se imobiliza alguém com os braços sobre o pescoço.
“Eu achei que também poderia estar nessa estatística de mais um morto pela polícia naquele momento ali”, falou o motoboy sobre o caso de Floyd, que gerou uma onda de protestos contra a violência policial e o racismo nos Estados Unidos.
Ele trabalha há seis anos como motoboy e mora com a família na periferia da Zona Sul da capital.
Policial foi filmado com o joelho sobre o pescoço de George Floyd
AFP/Facebook / Darnella Frazier
A Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio está acompanhando o caso dele. O coletivo divulgou nota criticando a ação policial.
“A Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio entende que o trabalhador tem o direito de se manifestar, afinal estamos em uma democracia. A atitude dos policiais é truculenta e reafirma a lógica genocida do Estado”, informa o comunicado.
A reportagem procurou a assessoria de imprensa da PM para comentar o assunto. Por meio de nota, a corporação informou que a Corregedoria da Polícia Militar apura se houve excesso na abordagem policial.
“A Polícia Militar, após a denúncia do motociclista na Corregedoria, apura se houve excesso na abordagem, realizada na tarde de terça-feira (14), na zona oeste da Capital. Foi registrado um termo circunstanciado de resistência no 14º DP e a motocicleta foi apreendida administrativamente”, informa a corporação.
“Mais de seis policiais me agrediram, me bateram, me ameaçaram, travaram meu braço. Aqui estão as marcas das algemas”, comenta o motoboy na gravação em frente à delegacia.
Abordagem da PM a entregador na Zona Oeste vira caso da Corregedoria
À reportagem, o entregador falou que foi abordado pelos policiais na Avenida Rebouças, na Zona Oeste, porque havia tampado a placa da sua moto com um adesivo alusivo ao protesto que os motoboys estavam fazendo no dia anterior para pedir melhores condições de trabalho.
“Eles [PMs] disseram que estavam anotando a placa para averiguação, para ver se não tinha nenhuma moto roubada no meio, mas mesmo assim, eu e vários outros que estavam participando nos sentimos acuados e com medo de tomarmos multa”, disse o motoboy, assumindo que encobriu a placa com o adesivo com receio de ser multado.
Como a validade da sua habilitação para dirigir também estava vencida há um mês, os agentes da PM decidiram apreender o veículo.
Vídeo mostra PMs dominando entregador em abordagem em Pinheiros
De acordo com a ocorrência feita na Polícia Civil, os PMs alegaram que o motoboy se recusou a colocar as mãos na cabeça quando foi pedido. E que diante dessa recusa, os agentes foram obrigados a tocar no suspeito.
“O autor recusou-se e quando o condutor tentou ajuda-lo a conte-lo, o mesmo continuou resistindo e a abordagem e revista, tendo os depoentes agarrado o autor e os três caíram no chão, conseguindo então algemá-lo”, informa trecho do que o registro policial atribui ao que disseram os PMs.
No vídeo, é possível ver dois policiais militares, um homem e uma mulher, segurando o motoboy. Ele grita: “tira a mão de mim, por que você está me agredindo? Um dos policiais responde: “você tá louco”. Em seguida, o entregador diz: “eu estou louco porque você está me agredindo”.
Ao cair no chão com os policiais, o motoboy ainda grita: “Não consigo (…) não consigo respirar”. Em outro vídeo, um policial militar aparece com arma nas mãos e pede que as pessoas se afastem. Ao fundo, é possível ver o motoboy no chão dominado por policiais militares.
“Tem duas discussões, entender que o uso da força tem sido desproporcional em muitas abordagens o que é um problema. E avaliar quais são os equipamentos de proteção individual disponíveis pra esses policiais de modo a garantir a proteção para o policial e para o cidadão. Não pode deixar que o único instrumento disponível para o policial seja uma arma de fogo. O que eu tava falando, uma ponto quarenta contra um rodo não faz nenhum sentido”, disse Samira Bueno, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
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