Dia do Trabalho: falta de acesso à internet e filas são desafios para quem busca auxílio de R$ 600


Famílias sem acesso à internet chegam a pedir celulares emprestados para fazer cadastro para obter o benefício. G1 conta histórias que mostram na prática as dificuldades de quem está sem trabalho. Maria Betânia Vieira mora em Caraguatatuba e após a sorveteria do marido fechar devido à pandemia, teve de vender os equipamentos para poder comprar comida
Arquivo pessoal
Com o isolamento social adotado diante da pandemia do coronavírus, o feriado do Dia do Trabalho não é será uma pausa para descanso. Repartições públicas e bancos fechados, para muitos, é uma chance a menos na tentativa de conseguir a ajuda emergencial de R$ 600. Desempregados, empregados afastados e autônomos parados têm passado horas em filas de agências na espera pelo dinheiro.
Como pedir o auxílio de R$ 600? Veja passo a passo
Segundo o governo federal, a estimativa é que 70 milhões de pessoas sejam beneficiadas com essa verba, que será paga em três parcelas. O auxílio foi anunciado como uma medida para frear o aprofundamento de uma quadro mais grave na economia e acabou revelando outro quadro: o dos que não têm conta em banco, acesso regular à internet ou até mesmo um CPF ativo.
A reportagem do G1 conta histórias que mostram na prática as dificuldades de quem está sem trabalho e que tenta superar a incerteza da chegada do benefício com doações.
Francinete tem geladeira vazia enquanto aguarda auxílio amergencial
Arquivo Pessoal
Desconectados
O acesso a internet não é a realidade de todos. Francinete Maria da Silva mora em uma comunidade em Jacareí. Ela trabalhava com reciclagem e bicos para sustentar o filho. A internet ali não é artigo de primeira necessidade onde não há acesso à água encanada. Soube do auxílio pelo boca a boca.
Conseguiu se cadastrar pelo aplicativo depois que uma pessoa na comunidade conseguiu colocar créditos em um celular pré-pago e emprestou o aparelho a ela. Desde o começo da pandemia se viu sem renda e conta que aos 53 anos, havia mais de 20 anos que não passava fome como agora.
“Teve dia do meu filho acordar e me pedir o que comer e eu ter que fingir que não ouvi porque não tinha o que dar. Aí se chega alguma coisa de doação, eu dou a ele e não como. Você sabe o que é isso?”.
Vanessa já soma mais de 40 quilômetros de caminhada para tentar auxílio emergencial
Arquivo Pessoal
Vanessa Pereira da Silva, de Jacareí, também não tem acesso à internet onde mora. Viu por um sinal de televisão improvisado que havia o auxílio do governo e foi de porta em porta pedir um acesso emprestado.
Depois que soube que o cadastro havia sido aceito, foi até a agência por três dias seguidos. Soma até agora 15 horas de fila e 42 quilômetros de caminhada com um bebê de nove meses no colo para tentar sacar. Sem transporte ou dinheiro para o ônibus tem de ir a pé.
“Eu já não tenho mais o que comer em casa, conto com a ajuda das pessoas”.
De acordo com a Caixa Econômica Federal, a maior parte das pessoas que aguarda na fila não observa o calendário de pagamentos, que se baseia na data de aniversário. Nos dois casos, elas foram orientadas a voltar em outros dias, conforme o calendário. A falta de informação é pelo precário acesso. Ambas souberam depois de serem atendidas na agência, após cinco horas de espera.
Dezenas fazem fila por auxílio emergencial em Jacareí
Arquivo Pessoal
Autônomos
Maria Betânia Vieira mora em Caraguatatuba e a família se alimentava do turismo. Ela vende artesanatos na região central e o marido mantinha uma sorveteria. Com o isolamento, estão sem renda e sem amparo do governo, já que seus cadastros seguem em análise.
Com o atraso do aluguel – de R$ 680, já maior do que o valor do benefício – vendeu equipamentos da sorveteria para colocar comida na mesa. Sem nunca ter usado qualquer benefício do governo, conta que se viu dependente da solidariedade de quem distribui cestas básicas.
Trabalhadores fazem fila em busca de auxílio em Caraguatatuba
Fagner Ribeiro/Vanguarda Repórter
“É um situação de completo desespero. Tenho medo de vender as coisas e quando puder voltar, não conseguir trabalhar porque tive que vender tudo. Já tentei falar em todos os canais com o governo. Me sinto uma trabalhadora esquecida”.
Antonio Pereira Henrique, de Cruzeiro, trabalha como autônomo com carretos e aluguel de mesas e cadeiras para eventos. O setor foi afetado com o isolamento e hoje a família dele, com esposa e filho, está sem renda.
O pedido dela está em análise no sistema e enquanto aguarda vê o armário esvaziar em mais um fim de mês. No último, recebeu uma cesta de doação do vizinho. Hoje, deve água, luz e aluguel. Somadas, as contas superam os R$ 2 mil.
“Eu só tenho o que comer porque o meu vizinho me deu uma cesta básica. Estou entrando em desespero. O que comemorar nesse dia?”.

By Negócio em Alta