Bolsonaro vai ao STF e apela por relaxamento de medidas de isolamento

Presidente levou um grupo de empresários para uma reunião de surpresa com o presidente do STF. Ele queria fazer um apelo para o relaxamento das medidas de isolamento, mesmo com o aumento do número de infectado. Bolsonaro vai ao STF e apela por relaxamento de medidas de isolamento
Nesta quinta-feira (7), o presidente Jair Bolsonaro levou um grupo de empresários para uma reunião de surpresa com o presidente do Supremo Tribunal Federal. Ele queria fazer um apelo para o relaxamento das medidas de isolamento, mesmo com o número de infectados pela Covid que não para de crescer e na contramão do que tem sido adotado em todo o mundo.
O presidente resolveu atravessar, à pé, a Praça dos Três Poderes. Levou os ministros da Economia, da Defesa, da Justiça, da Casa Civil, da Secretaria de Governo, e pelo menos oito empresários: representantes das indústrias siderúrgica, automobilística, têxtil, de brinquedos; 45% do PIB industrial, segundo o governo.
Mais uma vez, um gesto do presidente provocou aglomeração. No início do trajeto, com uma máscara na mão, Bolsonaro conversou ao pé do ouvido com empresário, abraçou e, no meio do caminho, usou a máscara.
O presidente da república foi ao Supremo Tribunal Federal, uma visita agendada minutos antes para surpresa do presidente da corte, Dias Toffoli. Sem autorização de Toffoli, Bolsonaro começou a transmitir tudo ao vivo, por uma rede social.
“O objetivo da nossa vinda aqui – nós sabemos do problema do vírus, que devemos ter todo cuidado possível, para que nós não nos infectemos e para preservar vidas, em especial daqueles do grupo de risco, mais idosos e os que tem comorbidades -, mas temos um problema que vem, cada vez mais, nos preocupando. Os empresários trouxeram agora, diretamente e pessoalmente, essas aflições: a questão do desemprego, a questão da economia não mais funcionar. E as consequências, o efeito colateral do combate ao vírus não pode ser mais danosos que a própria doença”, diz Bolsonaro no vídeo.
Em seguida, Bolsonaro passou a palavra ao ministro da Economia. Num momento em que milhares de brasileiros enfrentam dificuldades para receber tratamento contra a Covid-19, Guedes decidiu tratar a economia como se fosse um paciente.
“A informação que nós tivemos – o presidente pediu então que os empresário viessem compartilhar com o Supremo -, é exatamente que, embora nós tenhamos lançado aí dois, três meses de camadas de proteção, talvez os sinais vitais não consigam ser preservados tanto tempo. Talvez a indústria entre em colapso antes. Então, embora a gente tenha protegido e lançado todos os programas de crédito, a verdade é que talvez não seja possível preservar os sinais vitais”, afirmou Guedes.
Bolsonaro também passou a palavra a dois empresários, que usaram a mesma linguagem médica.
“Vão sobrar empresas fragilizadas, porque estava rodando a 40, o coração vai ficando fraco, e a gente não sabe se dá conta de voltar a 120 de novo na recuperação. O que a gente não queria era, por conta de ter estado junto nesse combate da pandemia, o meu coração tá batendo a 40, eu não consigo retomar, os funcionários caem tudo de novo na nossa folha, aí eu tenho um inimigo lá fora, que é o meu adversário comercial prontinho pra suprir o mercado interno. Aí então haverá a morte de CNPJ”, defendeu Synésio Batista da Costa, presidente da Abrinq.
“Eu diria que a configuração – se a gente puder fazer uma figuração – é que a indústria está na UTI e ela precisa sair da UTI. E se não sair da UTI, as consequências serão gravíssimas”, falou Marco Polo de Mello Lopes, coordenador da Coalização Indústria.
O presidente lembrou, em tom crítico, a decisão do Supremo que reconheceu a autonomia de estados e municípios para adotar medidas de combate à pandemia e voltou a defender o retorno às atividades econômicas.
“Tem um decreto presidencial que define o que são atividades essenciais. O que não está ali, ficou a cargo dos governadores e prefeitos, conforme decisão do próprio Supremo Tribunal Federal. E decidi que, pelo que parece, alguns estados foram um pouco longe – digo, alguns estados – nas medidas restritivas. E as consequências estão batendo à porta de todos. 38 milhões de informais e autônomos ou perderam a renda ou tiveram essa renda substancialmente reduzida. Por isso, esse grupo de empresários, hoje, trouxeram essa preocupação. É colapsar a economia. Nós, chefes do Executivo, chefe de poderes, temos que decidir. Muitas vezes, sei que o senhor Dias Toffoli toma medidas aqui, que ele sabe que, de um lado ou de outro, ele vai sofrer crítica. E ele tem coragem de decidir. Assim é, da minha parte, e assim também é, em grande parte, o poder Legislativo”, completou.
Depois de ouvir todo mundo, Toffoli fez questão de começar sua fala ressaltando o acerto do isolamento social e das medidas econômicas de proteção social aprovadas pelo governo e pelo Congresso, que evitaram que a situação atual estivesse ainda pior.
“Gostaria de registrar, se nós vamos olhar o dia 11 de março, que foi quando a OMS declarou a pandemia mundial, e na semana que vem completaremos dois meses, o país conseguiu conduzir muito bem essa situação. Apesar daquilo que aparece na imprensa – uma coisa aqui, uma coisa ali -, a verdade é que as instituições funcionaram, os ministérios funcionaram, o SUS funcionou. As medidas que o governo adotou e o Congresso aprovou, adequou ou melhorou, ou de alguma forma também sancionou, foram medidas extremamente importantes para que o país não entrasse nessa situação de uma calamidade pública, que viesse a manter na sua organização estrutural da sociedade. Então, em primeiro lugar, nós temos que olhar o positivo. E esse positivo, penso que funcionou e está funcionando”, declarou o presidente do STF
Toffoli ressaltou as últimas decisões do Supremo, que reconheceram o direito de estados e municípios de decretarem medidas restritivas. Mas disse que é fundamental que haja uma coordenação do governo federal com eles para planejar a saída do isolamento quando isso for possível.
“As pessoas já querem sair. Tem que ter essa saída de maneira coordenada; eu penso que é isso. Então é fundamental uma coordenação com os estados e municípios. Temos uma Constituição que garante competências específicas para os entes da federação e foi isso que o Supremo tem decidido. Mas sempre respeitando as competências da União, nacionais, de orientação quanto às atividades essenciais, de transporte, de produção. Então eu penso que essa coordenação, presidente, é fundamental para esse tipo de planejamento, para esse momento tão difícil que o Brasil passa. E já passou dois meses. Parece pouco tempo, mas já são dois meses que nós estamos; e realmente temos que pensar aqui, nesse momento”, destacou o presidente do STF.
O presidente deixou o Supremo provocando nova aglomeração. Deu entrevista na praça, transmitida ao vivo em rede social, e ele também usou termos médicos para se referir à economia: “Em observadas as normas do Ministério da Saúde, de modo que, cada vez mais rápido, possamos voltar à atividade normal. Caso contrário, depois da UTI, é o cemitério. E não queremos isso para o nosso Brasil”.

By Negócio em Alta