Empregadores e funcionários do Alto Tietê buscam alternativas para contornar crise provocada pelo novo coronavírus


Economista Luiz Edmundo diz que este é um momento de organização das finanças e dá dicas de como empregadores e empregados podem administrar gastos com inteligência. Preocupados com as incertezas trazidas pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19), empresários do Alto Tietê e seus funcionários enfrentam mudanças na relação de trabalho. O objetivo é fazer com que as demissões, que em alguns casos são inevitáveis, sejam a última opção. Descontos nas férias, redução nas cargas horárias e diminuição do salário fazem parte dos acordos.
Para o economista Luiz Edmundo de Moraes, esse é um momento em que o diálogo e a organização serão fundamentais para ambas as partes e que, embora as perspectivas não sejam muito positivas, o controle financeiro de agora é essencial para a recuperação futura.
“Quem, nesse planeta, já viveu uma experiência como essa? Ninguém. Todos nós estamos diante de uma situação completamente inusitada, novíssima. [Portanto], tanto o empresário quanto o trabalhador têm que buscar alternativas criativas para sobreviver”, declara.
Demissão e afastamento
Ronaldo Pádua Junior, de 23 anos, foi atingido pela demissão logo no início da quarentena. Morador de Biritiba Mirim, o jovem trabalhava em um pequeno mercado, onde também funciona uma lanchonete, quando viu as vendas despencarem de uma hora para outra.
“Foi decretada a quarentena, comércios fechados. Na segunda a gente já sentiu a diferença. A Vigilância passou avisando quais seriam os termos para manter a lanchonete do mercado aberta, mas houve uma queda muito grande no movimento”, comenta o rapaz.
Ele conta que trabalhou com registro no pequeno comércio por seis anos, mas que no final de 2019 fez um acordo para receber o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), o seguro desemprego e outros direitos trabalhistas.
Ronaldo, que tem 23 anos, é pai de um menino
Ronaldo Pádua Junior/Arquivo Pessoal
O motivo era o nascimento do primeiro filho, que traria à família uma série de despesas extras. Teoricamente, ele foi demitido, mas continuou trabalhando. O problema, segundo ele, é que mesmo após receber os benefícios, o estabelecimento não voltou a registrá-lo.
Com a queda das vendas, o mercadinho dispensou os jovens aprendizes, que trabalhavam apenas sob contrato, e demitiu Ronaldo, que agora não teria direito a nenhum benefício. “Estava recebendo seguro, então não seria registrado ainda. Seria registrado em abril. Só que me dispensaram. Estava sem registro, então não teriam que pagar rescisão e nem nada”, lembra.
Desempregado em tempos de pandemia, quando muitos comércios permanecem fechados, o jovem diz que busca qualquer alternativa para manter o sustento da família.
“Saí com uma mão na frente e outra atrás. Estava com emprego, tenho filho pequeno. Não esperava que isso ia acontecer. Estou até agora sem nem saber o que eu vou fazer. Estou procurando algum bico, qualquer trocado que sirva pra pagar pelo menos um pouco das contas que eu tenho”.
Diferentemente de Ronaldo, a auxiliar de saúde dental Letícia Oliveira não foi demitida, mas teve a carga de trabalho reduzida quase que totalmente. A clínica odontológica em que ela trabalha, em Santa Isabel, afastou os funcionários no dia 21 de março sob o acordo de descontar parte das férias.
“A gente assinou um termo, todas as funcionárias anunciaram. A gente que é recepcionista, auxiliar e comercial é registrado. Ele paga nossas férias e quando a gente for receber nossas férias vai ser descontado esses dias que a gente ficou em casa”, explica.
Agora os atendimentos são feitos somente em caso de emergência. Ainda assim, quando abre, o consultório funciona apenas em meio período. Como os dentistas são terceirizados, fazem os atendimentos e encerram o expediente.
Letícia explica que não há previsão de quando voltará à rotina normal de trabalho, mas que entende a necessidade do acordo. Ela disse que a situação é difícil para o empresário e que sabe que, apesar de pagar os salários, o local terá as finanças prejudicadas.
“Como a gente está fechado, a gente não recebe, ele não recebe. Não tem como o paciente fazer pagamento. [Isso] quebra um pouco o empresário. Esses dias que abre, vai paciente, mas nem todos acabam pagando”, afirma a jovem.
Agora a auxiliar diz que está em casa, organizando os estudos, na expectativa de que a crise provocada pela pandemia passe logo. “Eu mesma, como eu estudo, estou colocando as provas em dia, algumas coisas em dia. Só saio mesmo para pagar algumas contas. Do lado financeiro, graças a Deus, ele fez um acordo com a gente”, conclui.
Queda nas vendas e faturamento zerado
Do lado dos empregadores, que precisam decidir entre acordos e demissões, a situação também é conflituosa. Empresário há mais de 30 anos em Mogi das Cruzes, Luiz Cláudio França é proprietário de uma loja de descartáveis.
Ele conta que as dificuldades começaram na melhor época do ano para o estabelecimento: a Páscoa. “É um momento bom, a gente vende bem. Aumenta muito o fluxo de cliente, de venda e tal. Para isso você se prepara comprando antes a mercadoria e estocando, deixando seus estoques preparados para receber a demanda”, afirma.
Funcionários trabalham em loja fechada para vender produtos por delivery
Luiz Cláudio França/Arquivo Pessoal
O problema é que, depois da data, os estoques continuaram cheios. As vendas caíram quase 90%, segundo o empresário, em comparação aos anos anteriores. A redução drástica e inesperada preocupa Cláudio, que, além das despesas cotidianas, precisou rever o quadro de colaboradores.
“Quando você tem um corte drástico, prejudica todo mundo de uma forma geral. Eu, particularmente, estava com um estoque muito alto. Muita coisa para pagar. Já estava pagando todas as compras feitas para essa época”, afirma.
“É horrível demitir. A gente monta uma equipe, ganha confiança, eles ganham confiança na gente. A gente trabalha num ritmo de parceria, principalmente o pequeno, o médio. O grande, às vezes você é só um número. No pequeno e médio você passa, cumprimenta o cara, sabe os problemas dele. Você convive o dia a dia da pessoa. Eles são parceiros”, comenta Cláudio.
Antes das demissões, o empresário optou por reduzir a carga de trabalho e os salários e diz que tem conversado com os colaboradores para encontrar as melhores alternativas para todos. A intenção é manter as finanças sob controle para, quando a situação se normalizar, a empresa se manter firme.
“Pensando numa sobrevivência. Pensando que daqui, três, quatro meses, quando tudo isso acabar, tem que estar de pé. Tem que tentar resolver essa coisa de voltar a ter seu fluxo, mesmo que seja menor”, conclui.
Já a empresária Paula Pires, que tem um espaço de estética, também em Mogi, precisou demitir uma colaboradora. Ela diz que a decisão foi importante para ambas as partes, porque temia que a situação financeira do negócio piorasse ainda mais nas próximas semanas.
“Achei melhor dispensar, fazer o acerto do que eu tinha que acertar com ela, férias, 13º, aviso prévio. Eu não sei até quando vai, não sei nem se eu vou ter condição para manter o local que eu tenho. Com esse valor, ele [funcionário] consegue até se manter por um período, do que eu manter ele e não conseguir pagar depois, vira uma bola de neve”, diz.
Paula afirma que o faturamento zerou logo nas primeiras semanas da quarentena e que precisou rever gastos para manter as contas do estabelecimento em dia. Ela lembra que, além dos colaboradores, precisa arcar também com toda a carga tributária que envolve o próprio negócio.
“Realmente eu me assustei que um orçamento que era 100 e passou pra zero. Minha preocupação [maior] era o recurso para manter o funcionário, porque mesmo ele em casa, eu tenho um custo com de 13º, férias, FGTS e INSS. [E] não é só o pagamento do funcionário. Tem toda essa carga tributária”, comenta a empresária.
As reservas do espaço de beleza foram usadas para negociar gastos fixos, como aluguel e outras contas. Agora ela conta com a venda de vouchers promocionais e com o comércio em delivery de produtos de beleza.
“Estou conseguindo manter lá e, para coisas pessoais, contas, banco, moradia, eu utilizei o benefício dos 60 dias. Alguns [bancos] estão isentando mesmo”, conclui.
Com ou sem demissão, é hora de organizar as contas
O economista Luiz Edmundo de Moraes afirma que, em alguns casos, a demissão será mesmo a única alternativa do empregador, principalmente, do pequeno empresário. Entretanto, ele lembra que há opções que antecedem este processo.
Além da redução da carga horária e dos salários, a suspensão do contrato de trabalho, permitida após as últimas mudanças nas leis trabalhistas, é uma delas.
“Ele [funcionário] passa a receber o seguro desemprego, mas ele não é demitido. Ele deixa de receber do patrão, do empregador, e passa a receber o seguro desemprego. É uma suspensão do contrato. É uma mexida que deram na CLT que permitiram fazer isso”, explica.
A proposta permite que o funcionário mantenha uma renda sem que o empregador seja prejudicado. Em seguida, com a normalização da crise, o contrato poderá ser reativado. A opção visa reduzir os gastos com demissão e contratação de um colaborador.
“Quando a situação voltar, ele recontrata. A demissão também implica em um gasto. Outra alternativa seria ele demitir e contratar de novo, mas ele vai gastar muito mais se ele fizer isso. Vai gastar para demitir e depois vai gastar mais para recontratar”, afirma Moraes.
De modo geral, além da relação entre empregador e empregado, este é um momento de organização para ambas as partes. O especialista diz que os empreendedores devem aproveitar o momento para administrar os custos com eficiência, de modo a reduzir eventuais prejuízos.
Mais do que isso, é preciso deixar de lados os gastos supérfluos e focar no que é essencial, indispensável para a manutenção da própria economia, além de garantir uma reserva. “Reduzir os gastos a apenas ao consumo essencial. Aqueles chamados de supérfluos a gente vai ter que deixar”.
“O importante, nessas horas, é você mesmo não tendo uma reserva, que você busque uma reserva. Estique o teu rendimento, economiza mesmo, corte gastos. É importante que você tenha uma reserva mínima que seja. Infelizmente, nesses períodos o bom senso diz: guarde, tenha um dinheirinho, que é o que pode te socorrer se você precisar de remédio [por exemplo]”, comenta.
O economista também lembra a importância de tornar o pagamento das contas mais acessível. “Recorrer também à renegociação das dívidas, isso é fundamental, principalmente as dívidas públicas, como água, luz, telefone. O governo é o principal responsável para conduzir a economia para porto seguro, então ele terá que dar sua parte do sacrifício.
Vamos nos reinventar
Luiz acredita que, apesar das dificuldades, a crise provocada pelo Covid-19 trará mudanças à sociedade em diferentes setores. Do comportamento à economia, ele acredita na reinvenção dos hábitos e, consequentemente, da economia.
“É curioso que nesses momentos de crise a natureza humana surpreende as pessoas. Tem uma frase que diz que se um dia você deixar apenas o seu adversário, tirar todas as saídas dele, ele vai inventar uma saída”.
“Nós vamos criar situações que nunca existiram antes. Teremos muitas novidades. Acho que algo muito grandioso vai aparecer no mundo da economia, no mundo do trabalho, por causa dessa crise”, conclui Moraes.
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By Negócio em Alta