Em um hospital público da Zona Sul de São Paulo, que atende bairros populosos da periferia, os médicos dizem que a pressão é tanta que às vezes fica difícil conter a emoção. Heróis do 1º de maio: profissionais de saúde estão na linha de frente no combate à Covid-1
Neste 1º de maio diferente, em que o mundo todo acompanha com aflição as informações sobre a pandemia, algumas categorias de trabalhadores emergem, entre todas as outras, como absolutamente fundamentais.
O barulho típico da UTI, a confiança no trabalho deu lugar ao medo quando a enfermeira Natalia Balestra se viu em casa, isolada, como paciente da Covid-19.
“Eu tinha medo da evolução do vírus no meu corpo, como eu ia reagir, se no dia seguinte ia piorar e precisar de atendimento hospitalar e estar na UTI. Eu me senti muito sozinha, muito triste”, conta ela que trabalha na UTI do Hospital Sírio-Libanês.
Em todo o país, mais de 8,8 mil enfermeiros foram afastados com suspeita ou diagnóstico confirmado da doença. Já são 55 mortes confirmadas.
O técnico de enfermagem Tiago Andrade ainda comemorava a promoção para trabalhar na UTI, quando surgiram os primeiros sintomas da Covid-19. Tiago foi internado e morreu aos 35 anos.
“É uma perda inestimável para família. Tiago era muito alegre, muito contagiante, uma pessoa excepcional, trabalhador. Vivia a vida”, lembra Adriano Andrade, irmão do técnico de enfermagem.
Ele foi homenageado pelos colegas.
Um dos cirurgiões mais bem-sucedidos do país, Raul Cutait, de 70 anos, travou uma batalha de três semanas contra o novo coronavírus.
“A gente nunca sabe em que grupo a gente se encontra, se vai ter a doença bem bobinha ou daquele em que a doença se manifesta e não dá chance. Isso está exigindo ações coletivas. Não sou mais eu e dane-se o resto. Somos nós e todos nós nos protegemos”, alerta.
É um drama duplo: o de cuidar de pacientes com uma doença sem tratamento comprovadamente eficaz, e o de trabalhar sob o risco constante de contrair a mesma doença.
Em um hospital público da Zona Sul de São Paulo, que atende bairros populosos da periferia, os médicos dizem que a pressão é tanta que às vezes fica difícil conter a emoção.
Felipe coordena o setor de pacientes graves. Todos os 70 têm Covid-19.
“É difícil, é complexo porque a gente sabe que alguns pacientes, infelizmente, não vão conseguir sobreviver’, diz o médico Felipe Piza, coordenador de pacientes graves Hospital M´boi Mirim.
Só no hospital onde ele trabalha, 71 pessoas morreram.
“O momento mais difícil é quando a gente perde um paciente. Quando a gente fez todo aquele esforço, toda aquela luta e infelizmente a gente não conseguiu obter o sucesso desse paciente se recuperar e sair”, diz.
Mas tem momentos de alívio.
Durante nossa entrevista, um dos pacientes, José Wilson deixou o hospital. São recompensas assim que mantém a motivação para quem está na linha de frente.
“O meu sentimento, sem dúvida, é de muita força e muita garra para poder combater essa pandemia no Brasil e trabalhar da melhor maneira possível para acolher os pacientes, acolher os familiares, acolher os meus colegas de trabalho. Então eu sinto muita gratidão por isso e muito orgulho da nossa profissão”, disse Natalia Balestra.
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