
Maria de Lourdes Guimarães, de 52 anos, diz que embaixada não oferece soluções para grupo de quase 200 brasileiros. Eles tentam voltar ao Brasil há quase três meses. Maria de Lourdes Guimarães em Miraflores, Lima, Peru
Maria de Lourdes Guimarães/Arquivo pessoal
A goiana Maria de Lourdes Guimarães, de 52 anos, tenta, há mais de três meses, sair do Peru e retornar a Goiânia. A aposentada mora em Miraflores, Lima, há três anos, e tinha planos de retornar definitivamente ao Brasil em maio, mas teve os sonhos de rever a família e construir uma nova carreira na terra natal interrompidos pela pandemia. Desesperada, ela se juntou a um grupo de cerca de 200 brasileiros que tentam conseguir, junto à embaixada brasileira no Peru, um voo humanitário.
“A embaixada fala que não tem verba ou que o governo peruano não libera as fronteiras. Recentemente, pararam de nos responder. Estamos a esmo, sem ninguém, sem saber mais a quem apelar. Me sinto presa”, afirma.
O G1 solicitou um posicionamento à embaixada do Brasil no Peru, por e-mail, às 17h03 de quarta-feira (12), e aguarda retorno.
Segundo Maria de Lourdes, ela tinha um voo da Latam para o Brasil que sairia no dia 31 de maio. A passagem foi comprada no início de março, antes de a pandemia começar no Peru. No entanto, antes da data da viagem, as fronteiras foram fechadas e o voo cancelado.
“Tenho um voo da Latam há 4 meses, só que todo mês cancelam, remarcam e depois avisam que foi cancelado. Antes, eu ainda tinha esperança de conseguir voltar, agora estou desesperada, perdendo as esperanças”, diz.
A assessoria da Latam informou, em nota, que vai entrar em contato com Maria de Lourdes para “solucionar o caso”. Também comentou sobre a retomada gradual dos voos internacionais e quais rotas devem ser feitas neste mês (veja na íntegra abaixo).
De acordo com a goiana, natural de Uruaçu, no norte do estado, o último voo humanitário organizado pela embaixada brasileira no Peru saiu em junho. Desde então, os quase 200 brasileiros que continuam no país, tentam, sem sucesso, uma forma de retornar ao Brasil.
Eles criaram um grupo nas redes sociais para trocar informações e pedidos de ajuda. Lourdes, como costuma ser chamada, conta que há pessoas passando por situações de extrema necessidade.
“Tem gente passando fome, pedindo ajuda para conseguir diária de trabalho para conseguir comprar comida, gente morando de favor, porque não consegue mais pagar aluguel, doentes que não têm dinheiro para comprar os remédios. Um caos”, relata.
Lourdes trabalhava no Peru dando aulas de língua portuguesa. No entanto, desde que a pandemia começou, ela não conseguiu mais trabalho e está sobrevivendo com o valor que recebe de sua aposentadoria.
“Eu, pelo menos, ainda tenho condições de me manter aqui. Mas, o pior, é você querer ir embora e não ter jeito de ir embora”, diz, emocionada.
A goiana Maria de Lourdes Guimarães está no Peru e tenta retornar ao Brasil
Maria de Lourdes Guimarães/Arquivo pessoal
Sem soluções
Para Lourdes e os demais brasileiros que não conseguem sair do Peru, a sensação é de angústia. Eles chegaram a fazer um “manifesto” nas redes sociais da embaixada brasileira no Peru cobrando soluções para que possam retornar à terra natal, mas, até o momento, não obtiveram nenhuma alternativa concreta.
No último dia 6, a embaixada fez uma publicação no Facebook informando que o governo peruano suspendeu os voos internacionais por 15 dias e que uma empresa turística privada realizaria um voo de Lima a São Paulo no dia 25 deste mês, ficando a cargo de cada pessoa a aquisição da passagem e definição dos detalhes com a operadora de viagens.
“A única opção que eles nos deram foi pagar 700 dólares por um voo fretado de uma empresa que faz táxi-aéreo. Eu e algumas pessoas até nos dispusemos a pagar, mas eles nunca mais deram notícias. Falaram para a gente preencher um formulário, mas, depois disso, nem a embaixada nem a empresa de táxi-aéreo se manifestou”, relata Lourdes.
O meio de comunicação que o grupo mantinha com a embaixada não funciona mais, segundo a goiana.
“A forma de falar com eles era via e-mail, mas eles tiraram do ar, porque estávamos cobrando muito. Agora não temos nenhum contato, apenas as mensagens que deixamos na página do Facebook da embaixada”, explica.
De acordo com a aposentada, haverá uma viagem de ônibus, prevista para sair de Lima no dia 15 deste mês, mas com duração de cinco dias e com destino ao Acre.
“Eu não vou me arriscar a fazer uma viagem em condições incertas para chegar ao Acre e não saber se vou conseguir um jeito de ir para Goiânia ou ao menos São Paulo”, diz.
Brasileira fez publicação nas redes sociais pedindo voo humanitário à embaixada do Brasil no Peru
Maria de Lourdes Guimarães/Arquivo pessoal
Planos adiados
Com saudades da família que mora em Goiás, Lourdes pretendia voltar a morar perto da irmã, filho, sobrinhos e primos. O retorno definitivo, previsto para acontecer no fim de maio, teve de ser adiado e, junto com ele, os planos de uma nova vida.
“Minha família quase toda mora em Goiânia e meu filho em Brasília, no Distrito Federal. Então, meu objetivo era voltar para morar em Goiânia e ficar perto dos meus familiares, além de ver meu filho”, comenta.
Lourdes também pretendia iniciar um negócio em Goiânia – um call center com traduções de chamadas internacionais.
“Trabalho com idiomas e tenho experiência em telefonia. Já havia combinado de montar esse negócio em Goiânia junto com um amigo peruano, que seria meu sócio”, relata.
A vontade de voltar a viver no Brasil também foi influenciada pela situação econômica e política no Peru. “A economia aqui está muito ruim, sem falar no sistema daqui, quase um regime autoritário”, afirma.
Maria de Lourdes Guimarães está no Peru e tenta voltar para Goiás desde o início da pandemia
Maria de Lourdes Guimarães/Arquivo pessoal
Nota da Latam
“A Latam está retomando gradualmente os seus voos em todo o Brasil e avalia constantemente a sua malha aérea mínima essencial para enfrentar os impactos causados pela pandemia de Covid-19.No mercado internacional, a partir do Brasil, a Latam tem programadas para operar em agosto as rotas São Paulo-Frankfurt, São Paulo-Lima, São Paulo-Lisboa, São Paulo-Londres, São Paulo-Madri, São Paulo-Miami, São Paulo-Montevidéu e São Paulo-Santiago. Para setembro, a companhia também planeja retomar voos para outros destinos, como Nova York, Buenos Aires (Ezeiza) e Assunção”.
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