‘Fariam isso se eu fosse branca?’, questiona jovem negra que denunciou agressão por funcionário de mercado


Moradora de Araçatuba (SP) registrou caso na delegacia como injúria racial; ela alega que sofreu perseguição de segurança e o gerente a enforcou. Supermercado afirmou, em nota, ue decidiu afastar o funcionário envolvido na confusão. Produtora musical gravou vídeo sobre os fatos ocorridos em supermercado de Araçatuba
Reprodução/Redes Sociais
A produtora cultural Flávia Nascimento dos Santos, de 23 anos, que registrou boletim de ocorrência por injúria racial alegando ter sido perseguida pelo segurança e enforcada por gerente de um supermercado, afirmou ao G1 que se sentiu fragilizada e impotente diante da situação.
“Como uma ativista negra, eu identifiquei o acontecimento como um ato racista. Parece que não posso estar em um supermercado onde a maioria é branca e fazer minhas compras por causa da minha cor de pele. Fariam isso comigo se fosse branca?” , questiona a jovem.
O caso foi registrado na tarde de terça-feira (2), no bairro Jardim Sumaré, em Araçatuba (SP). Em nota, o estabelecimento afirmou que decidiu afastar o funcionário envolvido na confusão e que está discutindo todos os procedimentos internos de segurança para que situações como essa não ocorram novamente.
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Flávia relata que fazia compras tranquilamente, assim como fez em outras inúmeras vezes que frequentou o comércio. No entanto, começou a perceber que estava sendo seguida pelo segurança.
Inicialmente, ela resolveu andar no interior do supermercado e mudou de setores algumas vezes para ter certeza de que realmente estava sendo observada pelo funcionário.
“Eu fui ao outro extremo do mercado, mas ele me seguiu novamente. Então, decidi questioná-lo para descobrir o que estava acontecendo, pois me senti incomodada com a situação. Ele respondeu que era protocolo da loja, mas eu o questionei sobre o fato dele não estar seguindo as outras pessoas, somente eu”, conta a jovem, que complementa:
“Falei para ele que isso era racismo, que ele estava me perseguindo pelo fato de ser negra e estar com vestes simples e de chinelo. Não sei qual foi o conceito utilizado para ele fazer isso, mas me senti muito mal”, diz.
‘Vocês são todos frustrados’
Depois de dizer ao segurança como se sentia diante da situação, Flávia narra que o homem a olhou e disse “vocês são todos frustrados. Tudo é racismo agora”.
Indignada com a frase, ela pediu para chamar o gerente do estabelecimento, que se aproximou e começou a acompanhar o diálogo.
“Eu fiquei alterada um pouco e disse que estava cansada de negros serem vistos assim e atacados quando questionam o racismo. O gerente respondeu que “era protocolo do supermercado”, afirma.
A produtora cultural conta que o gerente começou a pedir para ela ir embora do estabelecimento Em seguida, ela empurrou o carrinho que utilizava e soltou as compras que segurava nas mãos.
“O gerente me olhou e falou “por isso que pessoas como vocês são seguidas em supermercados” e me enforcou em seguida. As pessoas começaram a gritar e ele me soltou. Ele grudou com as duas mãos, fazendo força. Não sei o que poderia acontecer se não tivesse mais pessoas no local”, relata.
‘Vem toda uma sensação histórica’
Flávia afirma que foi levada com “truculência” até a saída do supermercado e resolveu gravar um vídeo relatando o que havia acontecido. As imagens foram publicadas em uma rede social e viralizaram.
“Fiz questão de gravar o vídeo. Eu estava fragilizada, com muita dor, melancolia, tristeza. Infelizmente, por um momento, tive um sentimento de inferioridade. Só por ser preta preciso passar por isso?”, questiona.
“Vem toda uma sensação histórica. No momento pensei em George Floyd que foi morto nos EUA. O Brasil foi parido por meio da miscigenação. Sou uma pessoa que trabalha com ativismo negro, mas em um momento como esse, me senti derrubada”, completa.
“Impossível não ficar na memória. Com tudo isso que está acontecendo no mundo, é complicado não pensar que eu poderia ter morrido se não tivessem mais pessoas. Ninguém pega no pescoço do outro por nada, principalmente no de uma mulher”, diz.
Além de registrar boletim de ocorrência, a produtora cultural entrou em contato com a advogada para saber sobre o que poderia fazer contra o supermercado.
“Algo tem que ser feito. Precisamos deixar bem claro que todos podem ser punidos. Vou até o fim com isso. Os negros não se calarão. O supermercado deveria repensar os métodos que utilizam no local. Tendo uma punição severa, eles e outras pessoas pensarão duas vezes na política que utilizam e nas atitudes que toam diariamente”, afirma.
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By Negócio em Alta