
Segundo o médico Luiz Cláudio Arraes, além da quarentena, ampliar número de testes de casos suspeitos daria uma visão mais real da contaminação no estado. Desigualdade social é desafio para manter isolamento ideal, diz infectologista
Para reduzir o número de casos do novo coronavírus, é preciso aumentar o isolamento da população, segundo o infectologista Luiz Cláudio Arraes. Pernambuco registrou 14.309 casos e 1.157 mortes pela doença até a terça (13), segundo a Secretaria Estadual de Saúde (SES). Principal recomendação das autoridades de saúde, o isolamento social deveria chegar a 70%, mas a desigualdade social é o maior desafio para que isso aconteça, de acordo com o especialista (veja vídeo acima).
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“Não há mistério. Quando o isolamento cai em qualquer lugar do mundo, o número de casos aumenta. Pernambuco tem problemas de desigualdade social e esse é o principal motivo de não ter atingido os ideais 70% de isolamento”, explicou em entrevista ao Bom Dia PE desta quarta-feira (13).
Ainda segundo o médico, as autoridades municipais e federais tomaram as medidas educativas e preventivas devidas quanto ao isolamento social, mas a realidade não é a mesma para todo mundo.
“Nós sabemos que grande parte da população vive em situações muito precárias, onde o isolamento não é fácil de ser respeitado. Nesse caso, tivemos uma queda de isolamento para níveis de 50% durante alguns períodos”, disse.
Além da desigualdade social, Luis Cláudio destacou que, à medida que o tempo avança, há uma tendência ao relaxamento, por isso é preciso tratar a pandemia como um tempo excepcional, não como um período de normalidade.
“O corona é um vírus muito contagioso, pouco se sabe sobre ele, não sabemos sobre as particularidades dele e tem essa capacidade de grande contágio. Não tem vacina, não tem medicamento efetivo, então a grande medida é o isolamento. Exige um grande sacrifício”, declarou o infectologista.
Na segunda-feira (11), o governo de Pernambuco decretou quarentena no Recife, Olinda, Jaboatão dos Guararapes, Camaragibe e São Lourenço da Mata a partir do sábado (16). Com 15 dias de duração, a medida inclui restrição intensa na circulação de pessoas e rodízio de veículos até 31 de maio.
Na percepção de Luis Cláudio, as medidas restritivas deveriam ser expandidas para outras cidades. De acordo com ele, os cinco municípios afetados “compreendem 75% da população, então acho que vai ter um impacto enorme da desaceleração do que estamos vivendo”.
“É visível pela narrativa que a pandemia está crescendo, hospitais estão cheios, pessoas conhecidas adoecendo, pessoas com progressão da doença grave e era anunciado que esse início de maio até junho viveríamos um momento muito mais complicado que abril e março”, disse.
A expectativa do profissional é que, quando as medidas forem respeitadas, os resultados apareçam em até uma semana.
“É isso que nós desejamos para desafogar o sistema de saúde, para ganharmos tempo, para haver outras medidas, como testagem mais ampla em cada canto. Há muitos lugares com poucos casos porque há pouca testagem, como Minas Gerais. A testagem por métodos moleculares é uma testagem difícil, exige insumos importados e tem um limite”, explicou.
Pandemia nas comunidades
O G1 tem mostrado os desafios enfrentados por moradores de comunidades na pandemia da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. “A favela perde sempre, na saúde não é diferente”, contou a agente de saúde Edivania Tavares, que atua em Nova Descoberta, bairro localizado em uma região de morros e encostas, com um dos maiores índices de exclusão social do Recife.
Moradores do Coque receberam valor para gastar em mercadinho
Avipa/Divulgação
Na Vila do Papelão, na comunidade do Coque, na área central da capital, doações viraram “fiado do bem” em um mercadinho. No início, o projeto disponibilizava R$ 53 para que 52 famílias cadastradas pudessem usar o valor em compras de alimentos e produtos de higiene e limpeza no estabelecimento. Na pandemia, o valor aumentou para R$ 123. Ao todo, 107 famílias são contempladas.
Na mesma comunidade, outras famílias enfrentam a fome. Com Bolsa Família bloqueado e sem saber ler, mãe de cinco filhos recorre às ruas para pedir comida. “Escolher morrer do coronavírus ou de fome”, disse em entrevista ao G1.
Ainda no Recife, ao menos 30 comunidades se articularam para tentar diminuir os efeitos da pandemia nas áreas mais pobres do estado, com o compartilhamento desde informações sobre a Covid-19 até cestas básicas.
Moradores alugam moto de som para fazer anúncios sobre coronavírus no Recife
Caso semelhante acontece em Três Carneiros, no bairro do Ibura, na Zona Sul da capital. Para informar os vizinhos sobre a gravidade da doença e a necessidade de ficar em casa, os próprios moradores alugaram uma “moto de som” (veja vídeo acima).
Dicas de prevenção contra o coronavírus
Arte/G1
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