Ansioso para reabrir economia, presidente russo tenta se descolar dos reflexos do novo coronavírus, que se alastra a cada dia pelo país e contamina a alta cúpula do Kremlin. Vladimir Putin durante cúpula em Berlim, em imagem de arquivo
Kay Nietfeld/Pool via Reuters
Passou a gerir, de longe e demonstrando tédio, os transtornos causados pela pandemia, acrescidos da queda no preço do petróleo, do dobro no número de desempregados e da previsão de retração na economia.
Um referendo simbólico em abril pavimentaria o caminho para o presidente Vladimir Putin consolidar-se por mais 16 anos no comando da Rússia. O ano de 2020 certamente seria o de sua consagração definitiva, coroada, em maio, com uma gigantesca parada militar, comemorando os 75 anos da vitória na Segunda Guerra. Até que veio a pandemia do novo coronavírus, desmantelando o projeto político do presidente russo e testando sua capacidade para enfrentar a maior crise em 20 anos de governo.
Enquanto a Covid-19 assolava países da Europa, Putin dizia ter a situação sob controle, como se pudesse manter o país imune ao vírus. “A Rússia parece muito melhor em comparação com outros países”, assegurou em 18 de março. O panorama, contudo, mudou drasticamente, obrigando o presidente a ordenar a quarentena em todo o território.
Passou a gerir, de longe e demonstrando tédio, os transtornos causados pela pandemia, acrescidos da queda no preço do petróleo, do dobro no número de desempregados e da previsão de retração na economia.
Vladimir Putin observa pequena marcha de comemoração à vitória soviética na Segunda Guerra, em 9 de maio de 2020
Alexei Druzhinin/Kremlin/Reuters
Agora, com mais de 220 mil doentes, a Rússia ocupa o segundo lugar no mundo em número de casos. E Putin se mostra apreensivo para desvencilhar-se do pesadelo que acabou com seus planos — tanto o referendo quanto as comemorações do Dia da Vitória foram suspensos.
O presidente russo tenta acelerar o fim do bloqueio e reabrir a economia, mas o número de infectados pelo novo coronavírus cresce a cada dia. A doença contaminou a alta cúpula do governo — o premiê Mikhail Mishustin, o ministro da Construção e Habitação, Vladimir Yakushev e a ministra da Cultura, Olga Lyubimova. O mais recente combalido é Dimitry Peskov, porta-voz de Putin desde 2008, que foi hospitalizado com Covid-19, levantando temores de que o presidente possa ter sido contaminado.
A pandemia revelou ainda aos russos as mazelas e a fragilidade de seu sistema de saúde. Dois hospitais em Moscou e São Petersburgo, que abrigavam doentes de Covid-19, incendiaram por respiradores defeituosos, matando pacientes que se encontravam intubados.
O momento conturbado fez o presidente amargar o nível mais baixo de popularidade em 20 anos — 59%, segundo o instituto de pesquisa independente Levada Center, 11 pontos a menos do que registrado em outubro passado.
Numa tentativa de descolar-se do vírus e evitar o ônus de um retorno prematuro à normalidade, Putin encontrou a solução nos governos locais. Transferiu para eles a decisão de reabrir cada região. Mas o estilo centralizador cultivado em duas décadas, em princípio, inviabiliza qualquer iniciativa de terceiros. A bola voltou para o campo do superpresidente.
