Representantes da Advocacia-Geral da União, delegados, procuradores, o ex-ministro da Justiça Sergio Moro e advogados dele se reuniram nesta terça-feira (12) para ver o vídeo da reunião ministerial que está no epicentro da crise política. Bolsonaro teria dito que queria troca na PF para evitar que familiares fossem prejudicados
Representantes da Advocacia-Geral da União, delegados, procuradores, o ex-ministro da Justiça Sergio Moro e advogados dele se reuniram nesta terça-feira (12) para ver o vídeo da reunião ministerial que está no epicentro da crise política.
Segundo pessoas que viram a gravação, o presidente Jair Bolsonaro usou um palavrão ao dizer que queria a troca na PF do Rio porque não iria esperar que a família dele fosse prejudicada. E que, se não houvesse essa mudança, trocaria o diretor-geral da PF e o próprio ministro da Justiça.
A gravação foi exibida na sede do Instituto Nacional de Criminalística, no complexo da Polícia Federal em Brasília. O ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, determinou que ela fosse mostrada na íntegra.
Todos passaram quatro horas em uma sala fechada, sem celulares. O governo resistiu em entregar a íntegra do vídeo e chegou a fazer três pedidos a Celso de Mello sobre o assunto. Mas acabou repassando a gravação ao Supremo na semana passada por determinação do ministro do STF.
O material é uma das provas apontadas pelo ex-ministro Sergio Moro no inquérito que apura se o presidente Jair Bolsonaro tentou interferir politicamente nas investigações da Polícia Federal.
Quatro pessoas que assistiram ao vídeo nesta terça confirmaram à TV Globo que Bolsonaro estava exaltado na reunião e que o presidente mencionou preocupação com familiares ao tratar da troca na Superintendência da PF no Rio.
Essas fontes afirmaram que Bolsonaro soltou um palavrão, disse que não ia esperar que a família fosse prejudicada e queria a troca no Rio. Caso contrário, iria demitir o diretor-geral da PF e o ministro da Justiça.
As fontes relataram que Bolsonaro se referiu à superintendência como “segurança no Rio”, mas, segundo elas, num contexto em que claramente estava tratando da chefia da PF no estado.
Tudo o que Bolsonaro ameaçou fazer na reunião, segundo as fontes, de fato aconteceu dias depois: exonerou o diretor-geral da PF, Maurício Valeixo; no mesmo dia, Moro pediu demissão e acusou o presidente de tentar interferir politicamente na PF; Bolsonaro nomeou o amigo da família Alexandre Ramagem, diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência, para ocupar a diretoria geral da Polícia Federal; impedido pelo STF de nomear Ramagem, o presidente nomeou o delegado Rolando Alexandre de Souza, subordinado a Ramagem na Abin, para comandar a PF. O primeiro ato de Rolando foi mudar o superintendente da PF no Rio.
O atual diretor-geral da Polícia Federal foi uma indicação de Alexandre Ramagem, que admitiu, na segunda (11), em depoimento à PF, que foi consultado sobre o nome de Rolando pelo próprio presidente. Ramagem também relatou no depoimento que no ano passado, quando Bolsonaro ameaçou tirar o então superintendente do Rio, Ricardo Saadi, ele, Ramagem, chegou a sondar o atual superintendente do Amazonas, Alexandre Saraiva, para ocupar o cargo. Saraiva era nome desejado pelo presidente para comandar a PF no Rio.
Investigadores do caso avaliam que a abordagem de Bolsonaro na reunião do dia 22 mostra uma intenção familiar, pessoal, por trás da cobrança pela troca no comando da PF no Rio.
A partir de agora, o vídeo será transcrito por peritos da Polícia Federal. O material será registrado de forma separada e continuará em sigilo até uma decisão do ministro Celso de Mello. Ele já disse que o sigilo será pontual e temporário, mas vai analisar antes a posição das partes envolvidas. O ministro também já autorizou uma perícia na gravação, que poderá dizer se houve algum tipo de edição ou não.
Em nota divulgada após a exibição desta terça, o ex-ministro Sergio Moro disse que: “O acesso ao vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril confirma o conteúdo do meu depoimento em relação à interferência na Polícia Federal, motivo pelo qual deixei o governo. Defendo, respeitosamente, a divulgação do vídeo, preferencialmente na íntegra, para que os fatos sejam brevemente confirmados. As declarações feitas na reunião foram evidenciadas, também, pelos fatos posteriores: demissão, sem motivo, do diretor-geral da PF, troca do superintendente da PF no RJ, além da minha própria exoneração por não concordar com as mudanças.”
