Gastos com cartão corporativo da Presidência são os mais altos dos últimos oito anos

Levantamento no Portal da Transparência mostra que, de janeiro a abril de 2020, os gastos somaram mais de R$ 7,5 milhões, mais que o dobro do mesmo período de 2019 Gastos com cartão corporativo da Presidência são os mais altos dos últimos oito anos
Um levantamento no Portal da Transparência mostra que os gastos com cartão corporativo da Presidência, de janeiro a abril, são os mais altos dos últimos oito anos.
O aumento dos gastos foi revelado pelo jornal O Estado de São Paulo no fim de semana. Os dados foram confirmados pela TV Globo. De janeiro a abril de 2020, os gastos somaram mais de R$ 7,5 milhões, mais que o dobro do mesmo período de 2019, quando as despesas pagas no cartão corporativo da presidência não chegaram a R$ 3,5 milhões.
Os valores, no Portal da Transparência, incluem os gastos sigilosos da Secretaria de Administração da Presidência, do Gabinete de Segurança Institucional e da Agência Brasileira de Inteligência, a Abin. O governo não informa quem gastou e o que foi comprado com o dinheiro, apenas os valores totais das despesas.
Nesta segunda (11), numa rede social, o presidente Bolsonaro repetiu a justificativa dada no fim de semana para o aumento nos gastos. Disse que três aviões vinculados à presidência foram à China buscar brasileiros em Wuhan e que os gastos da operação foram pagos via cartão corporativo da presidência, numa valor de quase R$ 740 mil, e afirmou que, ao contrário do noticiado, retirando despesas extraordinárias, os gastos seguem abaixo da média de anos anteriores.
Mas, mesmo depois de descontar as despesas totais para repatriar os brasileiros, ainda assim os gastos pagos no cartão corporativo da presidência são os maiores para o período de janeiro a abril da série história disponível no Portal da Transparência do governo federal, que começou em 2013.
Os gastos sem a viagem para a China passaram de R$ 6,8 milhões de janeiro a abril de 2020; no mesmo período de 2019, o presidente Bolsonaro gastou R$ 3,4 milhões; em 2018, o ex-presidente Temer gastou cerca de R$ 3,3 milhões. Todos esses valores já corrigida a diferença da inflação
Os cartões da presidência são usados, por exemplo, para pagar despesas ligadas ao presidente e seus parentes. Entre eles: os gastos em viagens nacionais e internacionais, incluindo dos seguranças; com serviços e abastecimento de veículos oficiais que servem o presidente; despesas da rotina do Palácio da Alvorada, como alimentação, bebida e os custos de recepções.
Os gastos sigilosos dos cartões corporativos da Abin também cresceram muito em 2020. De janeiro a abril de 2019, foram pouco mais de R$ 1 milhão. Em 2020, no mesmo período, R$ 3,3 milhões, quase 200% de aumento e o maior valor para o período, pelo menos de 2014 para cá.
O presidente Jair Bolsonaro sempre adotou um discurso crítico ao excesso de gastos dos cartões corporativos e condenava principalmente a falta de transparência na prestação de contas do uso do dinheiro público. Em 2019, o presidente disse que iria divulgar publicamente as informações detalhadas dos gastos pessoais dos cartões corporativos dele.
“Vamos fazer uma matéria amanhã? Vou abrir o sigilo do meu cartão. Não precisa quebrar o sigilo. Vou abrir o sigilo do meu cartão para tomarem conhecimento quanto gastei de janeiro até o final de julho. Está ok, imprensa?”, afirmou Bolsonaro em agosto de 2019.
Mas a divulgação detalhada nunca aconteceu. O argumento do governo é que a divulgação das informações colocaria em risco a segurança do presidente e seus parentes.
O diretor do Contas Abertas, especializado em contas públicas, diz que não há nenhuma razão para esses gastos se manterem secretos porque não têm relação com a segurança do presidente e seus parentes.
“Por que esses gastos não são claramente expostos? Inclusive, se assim o fizesse, a Presidência estaria evitando toda essa polêmica que foi levantada agora, porque esses gastos seriam facilmente aceitos pela sociedade. Então é um bom momento para que se passe um pente fino nesses gastos secretos e torne-os o mais transparente possível”, defendeu o economista Gil Castelo Branco.
O diretor-executivo da Transparência Internacional, Bruno Brandão, afirma que os dados não deveriam ter segredo, já que, na maioria dos países democráticos, os gastos do presidente da República são muito mais transparentes.
“Muitas vezes isso representa um exemplo para toda a administração pública que o compromisso com a transparência do gasto público deve vir de cima para baixo. É claro que existem algumas rubricas que podem dizer respeito a gastos que envolvam riscos de segurança, mas especificamente essas rubricas podem ser tratadas de uma maneira especial com algum tipo de controle. Mas, de modo geral, a regra no mundo civilizado é a transparência dos gastos presidenciais”, defendeu.
A Secretaria-Geral da Presidência declarou que as despesas com a residência oficial estão menores do que as médias dos anos anteriores e que a alta nos gastos se deve às viagens nacionais e internacionais do presidente, mas não deu detalhes.

By Negócio em Alta