
Decreto determina uso obrigatório de item de proteção em transporte coletivo e comércios essenciais da capital. Motoristas afirmam que população tem respeitado medida. Ônibus começaram a circular nesta segunda (11) com aviso sobre obrigatoriedade de máscaras.
Carolina Diniz/G1 AM
O uso de máscaras de proteção se tornou obrigatório dentro dos transportes coletivos público e privado e comércios essenciais de Manaus a partir desta segunda-feira (11). Embora tenham encontrado passageiros desavisados, motoristas relataram à reportagem que não enfrentaram resistência à medida por parte da população. “Eu já fui vítima do coronavírus e faço uma ‘palestra’ dentro do ônibus antes de seguir viagem”, contou Francisco de Assis Bessa, condutor da linha 014.
O decreto sobre a obrigatoriedade do item faz parte das medidas para conter o avanço da contaminação pelo novo coronavírus. O Amazonas ultrapassou a marca de mil mortes por Covid-19, segundo boletim divulgado pelo governo neste domingo (10). A nova atualização também traz 674 novos casos da doença no estado, que chega a mais de 12 mil infectados.
O motorista Francisco Bessa contou ao G1 que percebeu, em uma viagem com duração de aproximadamente 3h, maior adesão ao uso de máscaras após o decreto. “Com quem eu falo, 99% aprova a obrigatoriedade. Só aquelas pessoas ignorantes mesmo que não usam, e não tem como abrir a mente deles e colocar isso”, declarou.
Segundo ele, depois de duas viagens na manhã desta segunda (11), apenas duas pessoas tentaram embarcar sem a máscara, sendo uma delas no terminal, e outra no trajeto da linha. “No terminal, eu simplesmente pedi que ela descesse, porque era lei. Que ela devia arranjar uma máscara e nós íamos seguir viagem. Se ela não saísse, eu ia chamar a polícia. No São José, a pessoa disse que ia voltar em casa para pegar máscara. No meu carro não entra”, relatou Francisco, que atua como condutor de transporte urbano há 15 anos.
Para a dona de casa Joelma Lima Silva e a filha Gabriela Lima Gomes, que aguardavam o ônibus no Terminal 3, foi possível perceber a diferença entre os passageiros nesta manhã. “Agora ficou bem melhor, ser obrigatório, porque as pessoas respeitam mais. Antes, eles não estavam nem aí”, comentou Gabriela.
Vendedores aproveitam decreto para vender máscaras dentro dos terminais de Manaus.
Carolina Diniz/G1 AM
De acordo com o decreto n° 4.82, passa a ser obrigatório o uso de máscaras de proteção por colaboradores e clientes de estabelecimentos comerciais que prestam serviços essenciais durante a recomendação de isolamento social. Já o decreto n° 4.822 determina obrigatório o uso de máscaras para acesso e permanência no transporte coletivo público, privado e individual de passageiros. Os decretos foram assinados pelo prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, e publicados no Diário Oficial do Município (DOM), edição n° 4.835, da última sexta-feira (8).
No transporte coletivo público municipal, terá acesso aos ônibus somente pessoas com o uso de máscaras. Além dos avisos nos para-brisas, a prefeitura informou que também está afixando cartazes dentro dos coletivos, incluindo veículos convencionais e micro-ônibus, com mensagens em tom de advertência sobre a importância de ficar em casa e fazer o uso das máscaras.
A Prefeitura de Manaus informou, por meio de nota, que a medida está sendo fiscalizada pela Vigilância Sanitária municipal (Visa Manaus) durante as rondas diárias realizadas em mais de 60 bairros da capital. As fiscalizações iniciais terão caráter educativo e de advertência, com aplicação de multa posterior para aqueles que não cumprirem as orientações.
As multas serão aplicadas em caso de descumprimento, após orientação e advertência, e serão calculadas de acordo com a gravidade da irregularidade e do tamanho do estabelecimento. O menor valor de multa aplicado pela Visa Manaus é de 1 UFM e o maior, de 400 UFMs, correspondendo cada UFM a 108,95 reais.
Todos os serviços não essenciais que insistem em manter suas atividades estão sendo interditados, também em cumprimento às determinações da Prefeitura de Manaus para o enfrentamento da pandemia, de acordo com o decreto 4.795. Desde o início de abril, a Visa Manaus interditou 205 estabelecimentos não essenciais.
Dúvidas e denúncias sobre irregularidades sanitárias associadas à pandemia de coronavírus podem ser encaminhadas para o email [email protected]. Dúvidas ou denúncias sobre irregularidades sanitárias não relacionadas ao coronavírus devem continuar a ser encaminhadas para a Ouvidoria da Visa, por meio do [email protected] ou do 98842-8481.
‘A coisa mais importante que tu procura é teu ar, e tu não encontra’
Depois de ficar em isolamento domiciliar por 19 dias, Francisco Bessa aproveita para compartilhar a experiência com os passageiros. Ao G1, ele contou que não foi hospitalizado, mas teve acompanhamento de médicos e da Secretaria de Saúde municipal. Com sintomas semelhantes ao da Covid-19 – febre alta, falta de ar e dores no corpo –, o motorista passou por um exame de tomografia, onde os profissionais apontaram para a doença.
“Meu pulmão estava muito manchado. Não fiz exame de coronavírus, mas me falaram que era Covid-19 pelo resultado e pelos sintomas”, explicou.
Motorista Franciso Bessa usa experiência com sintomas para conscientizar passageiros sobre importância da máscara de proteção
Carolina Diniz/G1AM
Há seis dias de volta ao trabalho, ele tenta conscientizar os passageiros para os riscos da doença. “É uma sensação muito ruim. Antes de sair, eu explico para as pessoas como é ruim. Que é para se cuidar, para o bem deles, e não chegar em casa e passar pros filhos, pra mãe, pro avô. O pessoal aplaude e beleza, vamos embora”, contou.
Depois de superar a situação, Francisco acredita em um futuro diferente.
“A gente vai ser mais gente na frente, uma pessoa melhor. Eu olho para dentro de casa, vejo carro, vejo tudo e aquilo nada tem importância. A coisa mais importante que tu procura é teu ar, e tu não encontra, que é de graça. Essa experiência eu falo pra eles, dentro do ônibus.”
Como não há fiscalização na entrada dos terminais, o motorista do ônibus é responsável por não permitir o embarque de passageiros sem máscara. Segundo Francisco, mesmo antes da obrigatoriedade, ele tentava cuidar do bem de todos.
“Não fazia palestra antes porque encontrava muita barreira pela frente, mas uma vez tinha uma pessoa espirrando muito dentro do ônibus. Eu me levantei e falei. Pedi que ele descesse e procurasse um hospital. Agora como é lei, eu cobro”, afirmou.
O motorista acredita que se contaminou no ambiente de trabalho, e disse que tem medo de adoecer novamente, mas precisa trabalhar. “Eles falaram que era pra continuar usando máscara e ter as mesmas precauções. Foi alguma bobeira que eu dei aqui. Não usava a máscara adequada, tirava e passava horas conversando sem, muito perto dos outros. Agora eu trago duas e troco depois de alumas horas”, relatou.
Pelo menos seis amigos de profissão já morreram em decorrência da doença, segundo Francisco. “Eles trabalhavam comigo, batia papo aqui todos os dias. Não tiveram a mesma sorte”, contou, explicando que a maioria era cobrador. “Acho que o cobrador fica mais exposto que o motorista, tem mais contato com as pessoas.” Ele contou ainda que começou a fazer uso de álcool em gel, que ele mesmo leva de casa, além de redobrar os cuidados com a roupa depois do expediente.
Coronavírus: Em Manaus, uso de máscaras passa a ser obrigatório em comércios essenciais
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