Leitos de hospitais federais do RJ estão parados por falta de profissionais da saúde

Enquanto hoje há 1.105 pessoas à espera de internação no estado, a rede federal de saúde no Rio tem 1.041 leitos, muitos com respiradores, bloqueados, sem uso, principalmente por falta de médicos e enfermeiros. Leitos de hospitais federais do RJ estão parados por falta de profissionais da saúde
Enquanto mais de mil pessoas esperam por internação no Rio, unidades da rede federal de saúde na capital tem leitos vazios, muitos até com respirador.
Em um hospital da Prefeitura, o vigia Luiz Edmundo de Castro, de 70 anos, ficou numa cadeira por uma semana a espera de uma UTI. Não conseguiu vaga. Neste sábado (9), a família soube da morte dele. “Vocês têm que fazer alguma coisa. As pessoas estão morrendo sentados em cadeira”, disse.
Enquanto hoje há 1.105 pessoas à espera de internação no estado, a rede federal de saúde no Rio tem 1.041 leitos, muitos com respiradores, bloqueados, sem uso, principalmente por falta de médicos e enfermeiros. A cidade é a única do país com uma estrutura assim: seis hospitais e três institutos administrados pelo Ministério da Saúde.
Juntas, as unidades têm no total 2.538 leitos na cidade e instalações de excelência, como as do INTO, o instituto que é referência em cirurgias ortopédicas, onde alas inteiras estão vazias. Mas profissionais de saúde denunciam que se por um lado esse complexo gigantesco é mal utilizado, e não ajuda o estado como poderia. Nas emergências e enfermarias dessas mesmas unidades, há lotação e improviso para atender os doentes com Covid-19.
“No Cardoso Fontes, nós temos o que nós chamamos de um covitário dentro da emergência justamente na unidade de pacientes graves, que é onde eu trabalho, que era um setor que inicialmente estava previsto para ter 11 pacientes e hoje se encontra com 23 pacientes internados com Covid”, conta uma enfermeira do Hospital Cardoso Fontes.
“O panorama que a gente vive no Hospital dos Servidores está assustador no momento. Tem pacientes espalhados em vários andares diferentes, não isolados adequadamente”, relata um médico do Hospital Federal dos Servidores do Estado.
O Ministério da Saúde chegou a anunciar em março que um dos hospitais, o de Bonsucesso, seria referência no tratamento da Covid-19. O atendimento a outras especialidades foi até suspenso. Mas, por falta de pessoal, até o início dessa semana, quase dois meses depois, apenas 35 dos 170 leitos prometidos estavam abertos.
Na quinta à noite a situação começou a mudar, o hospital passou a receber pacientes de outras unidades e agora são 76 leitos ocupados. Só que médicos e enfermeiros dizem que isso aconteceu por causa da visita do ministro da Saúde à unidade e denunciam que a transferência foi às pressas.
“Não tem sentido você tirar os pacientes de uma enfermaria, que já estão ali alocados, transferir para outro hospital, para ficar na mesma enfermaria. Isso é maquiagem de serviço”, conta um servidor.
“Eles querem passar a informação de que o hospital está lotado, mas assim estão fazendo uma irresponsabilidade. Eles estão colocando os pacientes tudo amontoados um em cima do outro, não tem médico”, diz outro servidor.
O ministro Nelson Teich visitou a unidade no começo da tarde, passou por alas onde há leitos vazios e não deu entrevistas.
A estimativa é de que faltem 8 mil profissionais na rede federal de saúde no Rio e a situação pode piorar. Sem a renovação de contratos, 4 mil médicos, enfermeiros e técnicos podem ser dispensados até o fim deste mês. Os números são da Defensoria Pública da União.
Os defensores dizem que faltou planejamento para as unidades federais de saúde ajudarem o Rio em um momento de urgência.
“Nós temos vozes dissonantes dentro da mesma rede federal. A sua estrutura interna aqui no Rio de Janeiro não consegue se comunicar com o Ministério da Saúde. Há muito tempo, há uma solicitação de concurso público, equipamento de proteção individual, mas o Ministério da Saúde parece ignorar a sua própria rede federal”, destaca Daniel Macedo, defensor público.
A Justiça já intimou o Ministério da Saúde mais de uma vez para esclarecer quais ações os hospitais federais do Rio estão tomando no combate à Covid-19, mas o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União dizem que até agora não foram tomadas medidas práticas.
Quem trabalha nas emergências destas unidades está no limite. “Nós estamos expostos ao vírus, sem condições alguma de trabalho com dignidade. Estamos perdendo os colegas de trabalho para o vírus em decorrência da negligência do estado”, desabafa um profissional da emergência do Hospital Federal de Bonsucesso.
O Ministério da Saúde declarou que a renovação dos profissionais de saúde está em andamento, afirmou que já usou R$ 284 milhões do orçamento disponível para os hospitais federais e que repassou R$ 400 milhões para o estado do Rio de Janeiro.
A direção do Hospital Federal de Bonsucesso não explicou a transferência de pacientes às vésperas da visita do ministro, disse apenas que conseguiu abrir novos leitos com a chegada de profissionais de saúde contratados. A Prefeitura do Rio disse que vai investigar o caso do Luiz Edmundo, que morreu aguardando um leito de UTI.

By Negócio em Alta