
Pandemia criou necessidade de uso da internet para efetuar tarefas diárias e promover interação social. Porém, conhecimento e acesso não são para todos. João tem usado a tecnologia para se entreter e para realizar tarefas diárias
João Raibolt de Medeiros
A pandemia do novo coronavírus estabeleceu uma nova realidade ao redor do mundo. Os protocolos de distanciamento social e isolamento domiciliar estão fazendo a tecnologia ainda mais presente nas tarefas do dia a dia, sem a necessidade de sair de casa.
Inseridos no grupo de risco da Covid-19, os idosos são aqueles que, em regra, estão mais longe do convívio social fora de casa. No entanto, a relação deles com a internet e os meios digitais varia muito. Isso acontece a partir de fatores sociais e econômicos, que ajudam a compreender a diferença entre as oportunidades de conhecimento e acesso que cada pessoa tem.
O G1 buscou exemplos para evidenciar isso na Zona da Mata.
João Raibolt de Medeiros tem 67 anos e é aposentado. Durante muito tempo, trabalhou como representante comercial na área hospitalar. Segundo ele, o contato com a tecnologia deixou de ser uma opção e se tornou uma necessidade por conta da profissão.
“Fui representante comercial na área hospitalar durante muitos anos, negociando muitos produtos exclusivos do ramo, sendo forçado a entrar no mundo da tecnologia para ficar sempre à frente dos negócios”, declarou.
João vive em Juiz de Fora com a família e afirma estar seguindo as recomendações dos órgãos de saúde à risca. Defensor do lema “fique em casa”, ele diz que tem feito tudo que é necessário pelo meios digitais e que, por ter contato constante com a tecnologia por muitos anos, não tem sentido qualquer dificuldade.
Além das obrigações diárias, ele afirma que a internet é uma ferramenta fundamental para se manter informado e entretido.
“Estou no grupo de risco, não tive alternativa a não ser parar. Agora é focar em ler jornais virtuais, fazer compras e pagamentos via banco digital e participar das redes sociais, ficando sempre antenado nas novidades do mundo”, falou.
Com Vera Lúcia de Oliveira Pereira não é tão simples assim. A aposentada de 64 anos mora em Ubá e tem se distraído em casa, aproveitando a presença dos netos de vez em quando. No entanto, sem a companhia deles, Vera usa o telefone celular para se comunicar com amigos e parentes.
Segundo ela, a tecnologia é apenas para fazer o básico. Vera diz que usa o aplicativo de mensagens para saber se os familiares estão bem e para compartilhar alguns textos e vídeos. Só que ela não se aventura a fazer mais coisas, por ter receio de algo dar errado.
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“Eu não tenho rede social, nem sei mexer nisso. Eu tenho WhatsApp para conversar com os meus parentes. Dou ‘bom dia’, ‘boa tarde’, ‘boa noite’, procuro saber se todos estão bem. Gosto de enviar áudio, mas às vezes o som do meu telefone some. Fico doida com isso (risos)”, disse.
“Mexo em nada de banco por celular, não gosto, entendo nada disso. Faço tudo presencialmente, fico preocupada de mexer em coisa assim no celular”, completou.
Para o assistente social José Anísio da Silva, a diferença entre os exemplos acima é reflexo da falta da democratização do acesso à educação e da disparidade socioeconômica existentes no Brasil.
José Anísio da Silva diz que acesso à tecnologia está diretamente relacionados a fatores sociais e econômicos
José Anísio da Silva/Arquivo pessoal
Com especialização em gerontologia, o profissional diz que cada pessoa envelhece de uma forma. Ele diz não ter dúvidas de que o uso da tecnologia pode ser benéfico para quem tem acesso a ela, mas reitera a preocupação com a fatia considerável da população idosa que não tem essa oportunidade.
“Infelizmente, as pessoas idosas se encontram em percentual elevado de analfabetismo. Muita gente prescinde de oportunidade de educação, de leitura e tudo aquilo que possa elevar a expansão da dimensão humana. Falta o fortalecimento da cidadania do idoso. Por isso, o uso das redes sociais, tecnologia e aplicativos fica ainda muito limitado ao público idoso elitizado, por conta do preconceito e discriminação social”, analisou.
“Creio que o poder público dos municípios poderia contribuir com cursos de iniciação às redes socias, ensinando como manusear um teclado, um mouse, como entrar nesse mundo digital, até como forma das pessoas idosas não se sentirem ainda mais constrangidas e secundarizadas no quadro em que a sociedade os coloca”, acrescentou.
A psicóloga Denise Mendonça de Melo corrobora com essa visão. De acordo com ela, a pandemia faz com que a prioridade do idoso e daqueles que zelam por ele, seja ficar em casa e cumprir os protocolos de saúde.
Diante disso, Denise entende que o uso da tecnologia se torna urgente, o que escancara o abismo de oportunidades entre cada fatia da população idosa, citado por José Anísio anteriormente. A profissional, porém, enxerga com bons olhos o uso da tecnologia e cita benefícios para aqueles que têm essa possibilidade.
Denise Mendonça destaca benefícios que a tecnologia pode trazer para os idosos neste momento de isolamento
Denise Mendonça/Arquivo pessoal
“Os aplicativos de mensagem de texto, áudio e vídeo são os mais populares entre os idosos. Percebo que o uso de áudio é preferido pela facilidade. As chamadas de vídeo e até as videoconferências entre amigos e parentes têm feito parte do dia a dia dos idosos. Identificamos a principal vantagem que é aproximação das pessoas e a manutenção e fortalecimento dos vínculos afetivos”, destacou.
Além de citar a importância dos jovens na interação e no processo de aprendizado e auxílio aos idosos com as mídias digitais, Denise aponta a gerontotecnologia como um canal importante entre a ciência e o bem estar da pessoa idosa. Essa área cria recursos para melhorar a qualidade de vida na terceira idade, como por exemplo, robôs que acompanham idosos que moram sozinhos e avisam familiares se tudo está bem ou não.
A profissional acrescenta que as partes cognitiva e mental precisam ser monitoradas com cuidado neste período de isolamento. Segundo Denise, a psicoterapia on-line é um caminho interessante, que usa tecnologia em favor da saúde.
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