Com safra em meio à pandemia, produtores de caqui de Mogi das Cruzes tentam minimizar prejuízos


Agricultores foram afetados pela baixa demanda da Ceagesp e pela interrupção das aulas. Agora contam com a venda aos mercados e delivery para manter vendas. Com safra em meio a pandemia, produtores de caqui de Mogi das Cruzes tentam minimizar prejuízos
Ercílio Hoçoya/Divulgação
A crise provocada pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19) tem preocupado trabalhadores do campo. Embora lidem com um produto da categoria de essenciais, os produtores de caqui de Mogi das Cruzes, maior produtora da fruta no Estado, tiveram as vendas prejudicadas e se preparam para enfrentar prejuízos na alta da safra, que deve ocorrer em maio.
Com o fechamento das escolas, redução da demanda na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) e interrupção temporária de parte das feiras, agricultores tentam se reinventar buscando alternativas para não desperdiçar a produção. Até mesmo o delivery virou opção para manter a renda.
Segundo dados da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, Mogi conta com uma área de 1,4 mil hectares, onde estão 468 propriedades de cultivo da fruta. Variedades como o fuyu, guiombo e ramaforte rendem uma produção que deve chegar a 65 mil toneladas em 2020.
Apesar dos pomares carregados, neste ano a venda caiu por causa da pandemia do coronavírus. Quem contava com a Ceagesp ou com o Programa Nacional de alimentação Escolar (PNAE) para garantir os negócios acabou sendo prejudicado, segundo Felipe Monteiro de Almeida, diretor da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS) Regional.
“Identificamos que a baixa demanda do produto, por conta da falta de compradores na Ceagesp, resultou em uma queda de cerca de 30% no preço, por conta da grande oferta e dos poucos canais de venda. Aliado a isso, [está] a paralisação do PNAE, por conta da suspensão temporária das aulas”, afirma Almeida.
Agricultor Ercílio Hoçoya tem uma produção de caquis no bairro do Cocuera
Ercílio Hoçoya/Arquivo Pessoal
O agricultor Ercílio Hoçoyla, que possui cerca de 1,5 mil plantas de caqui fuyu em uma propriedade de 16 hectares na região do Cocuera conhece bem o problema. Ele afirma que em situações normais, cerca de 60% da produção seria destinada à Ceagesp, enquanto 30% para os mercados e 10% para a venda local em feiras e quitandas.
No entanto, a queda na demanda da Companhia, provocada pelo fechamento de muitos comércios durante a quarentena, resultou na redução das vendas dele em quase 50%. A alternativa, neste ano, foi contar com a comercialização direta aos supermercados da região.
“Eu sempre inicio a venda para os mercados, mais ou menos, no período de maio ou final de abril. Só que neste ano, assim que teve o fechamento do comércio, o mercado entrou em contato pedindo que já começasse a enviar para eles. Retirei a parte que ia para a Ceagesp e já destinei para o mercado. Então, para mim, não teve muita perda”, comenta.
O excedente da produção também ganhou um destino até então novo para Ercílio. Ele passou a anunciar a fruta nas redes sociais e recebeu encomendas de moradores interessados em comprá-la para receber, em casa, no esquema de delivery. Com isso, Hoçoyla ainda aproveita para vender frutos da pequena produção de pitaya e goiaba.
“Eu estou aproveitando o dia que eu saio para fazer a entrega nos mercados. Nesse dia eu já faço esse delivery para as pessoas que me encomendam. Tem equilibrado a questão de venda. Eu não estou sofrendo muito em questão da quarentena. Inicialmente, a gente está divulgando por rede social. Teve uma boa repercussão”, afirma o produtor.
Caixas com unidades do produto são vendidos aos mercados e moradores da região
Ercílio Hoçoya/Arquivo Pessoal
Ele já estava acostumado a vender algumas unidades de caqui sob encomenda para conhecidos. Diante da necessidade, resolveu abrir o serviço para quem tiver interesse. Ele diz que essa deve ser uma forma de negócio a ser considerada futuramente, mesmo quando o período pandêmico passar.
“Mesmo que a pandemia passe, que voltar ao normal, eu acho que não vai retornar ao que era antes. A forma de consumo, a forma de comercialização, a forma de compra, tudo vai ser alterado. Acho que a tendência é, cada vez mais, essa questão de delivery funcionar com maior quantidade, muita gente pedindo para ter mais comodidade, ganhar mais tempo. A minha expectativa é que isso continue”, declara.
Sem os custos altos que tinha com frete, carregador e vendedor na Ceagesp, o valor do final do caqui ficou mais vantajoso. A distribuição para os supermercados não tem intermediários e, com o delivery, o produto chega direto ao consumidor final. Benefícios que estão ajudando Ercílio a equilibrar perdas e ganhos.
“Antigamente eu destinava também para quitandas e feiras livres. Esse ano estou indo direto no consumidor final. Para mim, o valor final aumentou. Para mim está sendo mais vantajoso. Acabei tirando os intermediários, estou destinado quase que na ponta, para o cliente final, e com isso consigo vender melhor”.
Quem também comemora as mudanças, mesmo com a queda das vendas, é o Ari Scunginsqui, que produz caquis do tipo ramaforte. Ele explica que, antes da pandemia, 40% da produção era destinada a refeição escolar de diversas regiões do Estado. Com a chegada da quarentena, que obrigou a suspensão das aulas, ele acabou perdendo o contrato que tinha como fornecedor.
Pés de caqui estão carregados na propriedade de Ari
Ari Scunginsqui/Arquivo Pessoal
Assim como Ercílio, ele conta agora com a compra dos supermercados para diminuir os prejuízos. “Minha única sorte foi que surgiu a rede de mercados. Inclusive, aumentou o número de pedidos. Não foi o suficiente para escoar toda a minha produção, mas ajuda. Aí eu mando um pouquinho para os supermercados. Também diminui o custo com transporte, combustível, vendedor”, destaca o agricultor.
Entretanto, ele precisou lidar com um outro problema acarretado pela Covid-19: a falta de mão de obra. O medo de contrair a doença fez com que coletores de fora de São Paulo recusassem o trabalho, o que prejudicou a safra e causou a perda de quase 40% da produção.
“Meus coletores são todos de Minas Gerais. Gente que é da roça, já está acostumada a trabalhar na roça. Como o número maior do coronavírus foi em São Paulo, eles acharam melhor não vir. Eu fiquei sem coletor. Os embaladores são daqui mesmo, estão vindo de máscara, luva. Mas os mineiros não quiseram vir”, lamenta.
Para Felipe do CDRS, que é engenheiro agrônomo, esse é um problema que pode resultar no não aproveitamento da fruta e, consequentemente, no descarte, já que nem todos os agricultores dispõem de infraestrutura para garantir a maior durabilidade em casos de atrasos na colheita.
“O fato de a mão de obra especializada para a colheita de caqui em nossa região tradicionalmente vir de outros estados, o que não está ocorrendo no momento, o ritmo da colheita diminuiu bastante, fazendo com que os frutos venham a estragar no pé, haja vista que após atingir seu ponto de colheita, a fruta tem vida de prateleira muito curta”.
“Poucos produtores possuem estrutura física, como uma câmara fria, e seu investimento é alto. Com o preço baixo, fica difícil para o produtor, que se encontra descapitalizado, investir recurso para conservação, pois gera mais custos de produção”, explica o diretor.
Scunginsqui reconhece as dificuldades enfrentadas, no entanto, não desanima. Ele, que integra a quarta geração de uma família de produtores de caqui, diz que nunca viveu nada parecido, mas segue na expectativa de que os prejuízos não seja tão grandes como quando toda a safra era prejudicada por pragas, por exemplo.
“A gente já teve problema com 100% de perda, mas assim, do mercado, é a primeira vez. Pelo menos, assim, mantendo a safra, a gente vende mais barato, mas vende”.
“Graças a Deus, está indo até bem desse jeito. A gente está conseguindo trabalhar, quase 60% da minha produção a gente conseguiu escoar. Tem gente aí que não conseguiu nem 10% da produção, não conseguiu fazer nem um pouco de venda”, conclui.
Neste cenário de grandes dificuldades, Felipe afirma que os órgãos públicos estão atentos à situação dos produtores e que no trabalho conjunto, com articulação do Governo do Estado, são promovidas políticas públicas para auxiliá-los.
“Os produtores de nossa região aguardam, com esperança, que dias melhores cheguem antes do término da safra e contam com ações coordenadas com o poder público, entidades ligadas ao setor e representantes de diversos canais de comercialização”, avalia.
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By Negócio em Alta