
A cada cinco quilos de alimentos doados, a Associação de Justiça e Apoio às Mulheres (Ajam) entrega uma máscara com uma mensagem. Advogada fala sobre aumento de casos de violência doméstica durante isolamento social. Ação da Associação de Justiça e Apoio às Mulheres (Ajam) recebe alimentos para doar à mulheres cadastradas pela Patrulha Maria da Penha
Ajam/Divulgação
Uma ação que une solidariedade e assistência à mulheres que sofreram violência doméstica. Este está sendo o trabalho da Associação de Justiça e Apoio às Mulheres (Ajam), de Cachoeirinha, durante a pandemia de Covid-19. Em parceria com a Brigada Militar e a Polícia Civil, a Ajam está arrecadando alimentos em troca de máscaras.
Ciente do aumento dos índices de violência contra a mulher durante o isolamento social, a associação decidiu trabalhar em duas frentes: auxiliando as mulheres que sofreram violência e alertando a sociedade.
A ação está distribuindo cestas básicas para as mulheres cadastradas na Patrulha Maria da Penha de Cachoeirinha. Até o momento, foram distribuídas 30 cestas. O objetivo é levar os itens às 95 mulheres que contam com medidas protetivas.
Ao doar cinco quilos de alimentos não perecíveis, a pessoa ganha uma máscara, que faz parte da campanha “Ajam contra a violência. Denuncie”, para conscientizar a população sobre a importância do tema.
No Rio Grande do Sul, os casos de feminicídio aumentaram de 5 para 11 de março para abril.
“Um alerta para a sociedade entender que essa é uma preocupação de todos e que é uma responsabilidade de todos nós. Assumirmos isso, denunciar, ajudar quando uma mulher te procura ou te conta alguma coisa que está acontecendo. Para que a gente tenha esse olhar do cuidado, da empatia, para ajudar essa pessoa”, afirma a presidente da associação, Sueme Pompeo.
No momento da entrega das cestas básicas, a instituição também faz um trabalho de assistência social à mulher.
“Inclusive é para ver como elas estão, ver se decorrente de alguma situação ela não estaria precisando de ajuda. E também pela ajuda de necessidade do alimento”, explica a presidente, que é advogada e atua na área de violência doméstica.
A ideia é apoiar também as mulheres que não tenham as medidas protetivas, mas que estejam em situação de violência.
“Vamos organizar para, de alguma forma, chegar no disque 180. Porque o 180, que é o disque denúncia, são mulheres que não estão com protetivas, mas que muitas vezes estão com o agressor e estão precisando de ajuda. Se nós conseguirmos chegar até ela, como associação, de uma forma subliminar, para oferecer ajuda para ela”, explica Sueme.
Isolamento social
Associação de Justiça e Apoio às Mulheres, em parceria com a Polícia Civil e Brigada Militar, recolhe alimentos para doar
Ajam/Divulgação
A presidente destaca que manter a mulher confinada é uma prática do agressor, que impede que ela tenha contato com a família ou amigos.
“A gente já luta há muito tempo contra a violência. É uma luta cultural, que estamos tentando modificar essa cultura. O agressor utiliza dessa prática que é o isolamento e confinamento da mulher para poder exercer essa violência. Imagina agora o quanto ficou fácil para ele. Porque isso agora se tornou uma obrigação”, enfatiza Sueme.
Ela explica que as mulheres que vivem em ciclos de violência, geralmente, saem para trabalhar e têm as próprias rotinas, não estão em contato todas as horas do dia com o agressor.
“Agora imagina eles confinados dentro de uma casa. Por óbvio a violência tende a aumentar. Principalmente agora, o que é decorrência de segurança para nós, para elas é uma tragédia ficar dentro de casa com o agressor”.
A advogada ressalta que a ajuda da sociedade e, principalmente, dos vizinhos e pessoas próximas, é fundamental para o enfrentamento da violência nesse momento de isolamento social.
“Temos que tirar o que é enraizado na nossa cultura de que em briga de marido e mulher não se mete a colher. Isso é algo que temos que extinguir. É um contexto que a gente luta, na cultura do machismo que existe muito forte ainda, do domínio e do poder do homem sobre o corpo da mulher e sobre a mulher em si. Então, hoje, quando alguém pedir ajuda, não se pode julgar. Porque isso é uma prática da sociedade, julgar aquela mulher sem saber o que ela está vivendo, a realidade dela. É ter empatia. É entender o que aquela mulher está passando e tentar ajudar no tempo dela”.
Para combater a violência doméstica durante a pandemia, um grupo de pesquisadoras da Pontifícia Universidade Católica criou uma cartilha na qual apresenta informações sobre a agressão contra crianças, adolescentes e mulheres.
“A sociedade precisa entender que aquela mulher está machucada e precisa de auxílio”, destaca Sueme.
A Ajam pretende expandir o trabalho com prefeituras e associações de outras cidades do estado, para que mais mulheres em situação de vulnerabilidade sejam auxiliadas.
Associação de Justiça e Apoio às Mulheres troca alimentos por máscaras com mensagem de combate a violência contra a mulher
Ajam/Divulgação
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